Enric Vives-Rubio
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Enric Vives-Rubio

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Zé Diogo, o gajo de Alfama

Lembram-se do Gajo de Alfama? Era uma personagem interpretada por Ricardo Araújo Pereira que dizia que “o que era preciso era que os amaricanos amandassem bombas para tudo o que é país muçulmano” porque “o muçulmano é o gajo que desde pequeno lhe ensinam a fazer bombas com uma garrafa de bagaço e uma caixa de fósforos”. Esse “gajo”, hoje, é o Zé Diogo

José Diogo Quintela, membro do Gato Fedorento e empresário da panificação, escreveu, esta terça-feira, no "Correio da Manhã", um texto sobre a escola pública e os contratos de associação.

O tema é actual e os argumentos são públicos, por isso melhor será ficarmo-nos pela tentativa de desconstruir e reordenar as ideias do Zé Diogo. Sendo escritas num modo muito particular, elas também reflectem a opinião de muitas pessoas e, por isso, necessitarão de ser escrutinadas e compreendidas para lá do que é visível ou aparente.

Diz o Zé Diogo que numa escola privada os jovens são protegidos contra o funcionalismo público português. Que lá os professores não faltam nem fazem greves. Que a secretaria da escola dele abria das 15 às 15h10 e que, por isso, se tornou subserviente com o pessoal administrativo. E, ainda mais, que a sua relação com o Estado se pauta pelo atraso, pela burocracia, pela cunha, pela arbitrariedade e pela falta de previsibilidade.

A perspectiva do texto não assenta na compreensão ou na objectivação da realidade, mas sim numa recriação militante, numa ficção da ideia de Escola e de Estado que qualquer aluno pode facilmente desmentir. É acrítico porque não questiona as razões das greves e — mais importante — da ausência de greves em colégios privados, mesmo após casos contínuos de abusos, como os que a reportagem de Ana Leal demonstrou (na TVI, em 2013).

O humor desbotado em que tropeçamos a cada linha aprofunda, ainda mais, as saudades dos bons anos do Gato Fedorento, do Sr. Vitor, do Ezequiel Valadas, do maior da aldeia dele ou do pescador que pescava ATUM. Tão distantes parecem agora esses anos perante este texto que é, no fundo, um esquema de preconceitos e de velhas histórias recalcadas, sem nexo e sem actualidade, mascaradas por piadas esforçadíssimas e que não chegam para salvar a escrita. Talvez seja o humor simultaneamente a arma dos mais fortes e a dos mais frágeis. Talvez tivesse o Zé Diogo a expectativa de que a encriptação da linguagem e de que o manto de veludo que pousa sobre a sua opinião comum lhe permitissem escapar à disputa de argumentos que, como em todos os outros casos, sem excepção, reside nas linhas e entrelinhas do texto.

Activismo contra as coisas públicas, contra o Estado, contra as formas de organização da vida pública e em comum — o texto do Zé Diogo é a expressão máxima de um profundo e radical posicionamento ideológico que não deixa de o ser em nenhuma circunstância, mesmo quando mascarado pelo humor, mesmo se dito por um bobo, mesmo se não dito.

Lembram-se do Gajo de Alfama? Era uma personagem interpretada por Ricardo Araújo Pereira que dizia que “o que era preciso era que os amaricanos amandassem bombas para tudo o que é país muçulmano” porque “o muçulmano é o gajo que desde pequeno lhe ensinam a fazer bombas com uma garrafa de bagaço e uma caixa de fósforos”. Era essa, para o “gajo da Alfama”, a solução para a paz, numa corporização extraordinária do senso comum, como se fosse possível ter todo o preconceito acumulado num só “gajo”. Esse “gajo”, hoje, é o Zé Diogo.