Crítica

James Blake poderoso na forma como expõe fragilidade

Mesmo sem o travo de surpresa do passado recente, ao terceiro álbum a voz de James Blake é mais transparente do que nunca.

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Em algumas entrevistas que antecederam o lançamento do novo álbum, James Blake foi sugerindo que este seria um disco muito diferente do anterior. Havia saído do estúdio caseiro na cinzenta Londres para a soalheira Califórnia, rodeado de novas amizades e de um recente amor, ao mesmo tempo que se abrira a uma série de colaborações, do histórico produtor Rick Rubin, que participou em sete canções, a Frank Ocean ou Bon Iver, que ajudaram na composição, na produção e na voz. É perfeitamente plausível que ao afirmá-lo estivesse a ser o mais honesto possível.

dois anos, em entrevista, dizia-nos que aquilo que o motiva é a resposta emocional aos acontecimentos da sua vida, portanto é crível que na sua visão a partir do interior este seja um álbum com diferenças. E elas estão lá realmente. Mas dificilmente o ouvinte incauto se concentrará nelas porque a sua identidade se mantém intacta, com a sonoridade espacial, a voz calorosa e um ambiente geral melancólico. O que é incrível no seu caso é que em pouquíssimo tempo a sua música se tornou clássica. Recorde-se que há pouco mais de sete anos produzia calmamente no seu quarto, durante o dia, estranha música electrónica para ser dançada à noite nos clubes do submundo londrino.

O homónimo álbum de estreia, editado em 2011, alicerçava-se em temas electrónicos esquizóides, com influências das linguagens urbanas mais alternativas, salvo três excepções: The Wilhelm scream, recriação de uma canção do seu pai, Measurements e Limit to your love, uma versão de Feist. Era nessas canções que uma sensibilidade mais clássica se expressava, na forma como utilizava a voz e o piano, sendo as restantes marcadas por uma aproximação nada convencional ao batimento cardíaco mais electrónico. 

Ou seja, aquilo que hoje reconhecemos como sendo a sua identidade tem realmente a ver apenas com três das suas canções iniciais. O segundo álbum, Overgrown (2013), pegava nas pontas soltas deixadas por essas cantilenas, transformando-o num trovador romântico do século XXI, sem colocar de lado as cadências electrónicas mais fragmentadas que não deixou de abordar, em nome próprio, ou com o pseudónimo Harmonimix.

O seu curto percurso está, por isso, muito longe de ser repetitivo. Agora é correcto dizer que a sua marca autoral se tornou de tal forma intensa que, na actualidade, parece que reconhecemos a sua sonoridade e a sua voz um pouco por todo o lado. E até certo ponto é verdade. Não só a sua música se disseminou, como se tornou influência para outros (Deptford Goth, FKA Twigs, Benjamin Clementine, Francis Dale), e é alvo de inúmeras solicitações para colaborações, como aconteceu na mais recente obra de Beyoncé.

Num curto espaço de tempo parece estar em todo o lado e, paradoxalmente, revela-se cada vez mais único. A sua música continua a não ter paralelo, ambiental e evocativa, cada vez mais marcada pela voz, seja metalizada ou profunda. Até as letras se tornaram reconhecíveis, elegias amorosas com um misto de ingenuidade, mais alusões do que confissões. Às vezes o seu universo pode parecer demasiado circular, mas no fim de contas este é o seu álbum mais transparente e apurado, embora já não possa garantir o travo de surpresa dos primeiros tempos.

Se o anterior disco parecia situar-se entre a pop futurista e a ideia clássica da canção, este transmite qualquer coisa que parece fora de tempo, seja nas baladas mais taciturnas para voz e piano (The colour in anything), ou nas solenes canções de batimento electrónico em câmara lenta, como Timeless, com a sua voz parecendo isolada do resto do mundo. Um efeito que é conduzido ao extremo na canção final Meet you in the maze, abandonados os instrumentos, fazendo apenas uso da voz de uma forma tão introspectiva quanto frágil. Este é aliás o seu álbum onde a voz surge mais destacada (oiça-se Choose me), conduzida aos limites, tornada motivo central de todas as canções.

Há uns anos James Blake dizia que era inspirado pelo frio da arquitectura das grandes cidades ou pelas clivagens sociais. Agora olha mais para dentro e não tanto para a realidade exterior. O entusiasmo e as frustrações das relações, a partilha da intimidade ou a imersão no crescimento estão lá, amparados por um som emocional composto pelo mínimo de movimentos. Este é talvez o álbum mais poderoso de James Blake na forma como expõe fragilidade.