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Megafone

Guia para pedir uma senhora em casamento

Um gajo que tome a iniciativa de pedir uma mulher em casamento é visto de duas formas: para elas, é um herói; para eles, um coitadinho que se perdeu para o lado negro da forca. Nós também somos capazes, olhem que porra!, e não somos menos machos por isso

Dizem que é coisa antiquada e que a maioria dos homens foge dela a sete pés. Um gajo que tome a iniciativa de pedir uma mulher em casamento é visto de duas formas: para elas, é um herói; para eles, um coitadinho que se perdeu para o lado negro da forca. Sim, da forca, porque, nos dias que correm, pensar em casamento, com taxas magníficas de divórcio, é mais ou menos o mesmo que votar no Trump: sabemos que é provável que dê merda e, mesmo assim, assinamos por baixo porque sabemos que vamos rir muito, muito, muito. Não obstante, sei que esses homens andam por aí, reprimidos pelo silêncio censório e ditador dos seus amigos, que farão de tudo para apelidar de "pussy" o primeiro parolo que se ponha num joelho a pedir encarecidamente a uma fêmea que seja a sua única para toda a eternidade. Sim, porque nós também somos capazes, olhem que porra!, e não somos menos machos por isso. Acho eu, vá.

São sete passos simples, camaradas masculinos. Ora vejam.

A primeira percepção

Que é isto? Uma cólica gástrica, uma comichão num sítio proibido? Não. Só à segunda ou terceira vista é que percebem que, afinal, a culpa é dela, da miúda com quem têm passado os últimos tempos. Ao que parece, aqueles lugares-comuns todos que encontramos nas canções, no cinema e na literatura passam a fazer sentido quando um espécime destes nos aparece à frente. Parece que passamos a ser azeiteiros e, pior ainda, temos um orgulho estúpido nisso. Como se fôssemos uma versão bastante melhorada do Gustavo Santos ou daquele caramelo que diz que vive na lamecholândia. E portanto, após essa primeira percepção, começamos a compreender que a nossa vida está a dar um pinote tresloucado nesse preciso momento. Como tal, é preciso tomar medidas drásticas. Portanto, depois de lavarmos a cara com lixívia e comermos seis pacotes de petazetas, certificamo-nos de que o tal sentimento ainda lá está e eis a confirmação: vou pedi-la em casamento.

Os milhões de dúvidas

Assim que ficamos em paz com a vozinha interior que nos diz "sim, sim, vais pedi-la em casamento", convidamos o Hermenegildo para jantar. O Hermenegildo, como eu gosto de chamar ao sujeito abusivo que se alimenta das nossas depressões e temores mais profundos, muda-se cá para casa e tira um gozo infinito de nos colocar diante dos olhos panoramas catastróficos. Daí advêm as perguntas: e se ela acha tudo isto ridículo?, e se ela não sente o mesmo que eu?, e se ela quer ter gatos em vez de filhos?, e se ela quer ter gatos para além de filhos?, e se eu cair a meio do pedido e partir um dentinho?, e se houver gente a ver?, e se não houver gente a ver?, e se Marte decidir sair da sua órbita de milhões e milhões de anos para se espetar com toda a força nas minhas ventas? Uma sugestão: #morteaoHermenegildo.

Onde e como?

Pronto, agora que a decisão está tomada e que atirámos o Hermenegildo janela fora, há que pôr mãos à obra. Sacamos do engenheiro que vive em nós e começamos a projectar tudo até ao mais ínfimo pormenor. Os locais, as circunstâncias, os "timings", os astros alinhados. Compram-se acessórios, delineiam-se trajectos, congeminam-se planos Bs, Cs e Ds, por aí fora. O planeamento, para mim, é a parte mais divertida, não só porque exploramos cada alternativa, mas também porque ficamos com uma bela noção de que o nosso cérebro é parco em oásis de brilhantismos. Ainda assim, nada de stress: o contexto ideal há-de aparecer, nem que tenha de se arrancar a gaiata de casa, à meia-noite do seu próprio aniversário, de chinelos, só porque a força do entusiasmo assim o exige.

A compra do anel

A não ser quando discutimos essa decisão com um ou outro amigo mais próximo, a ida a uma ourivesaria toda repimpada consiste na primeira vez em que nos confrontamos com o nosso próprio compromisso: ando à procura de um anel de noivado, dizemos, mais ou menos com o mesmo constrangimento e os mesmos suores frios de um adolescente que compra preservativos. A reacção do lado de lá do balcão é um sorriso sobranceiro, como quem diz, "olha-me este armado em romântico, como se ainda vivêssemos nos primeiros anos do século XX", seguido de um ainda mais abrutalhado "quanto é que quer gastar?" Engolimos em seco, dizemos um valor que tenha tanto de somítico como de escandaloso e escolhemos a anilha que mais nos encha as medidas do que achamos ser bom gosto. Próximo problema: a medida. Será que este anel lhe serve, será que lhe fica largo? Medimos com o nosso próprio mindinho, mal sabendo que o tamanho será redondamente errado. Minutos depois, estamos a marcar um código de multibanco como se um bloco de chumbo nos saísse dos ombros - e da carteira.

O pedido

Por esta altura, já com o anelito guardado na gaveta das meias, bem escondido entre aquelas que estão mais rotas e que são, portanto, menos usadas, começamos a imaginar todo o discurso que precederá A Pergunta. Sem que reparemos, já falamos sozinhos um pouco por todo o lado, simulando e improvisando um pedido imaginário. Falamos a sós no banho, enquanto comemos ou preparamos refeições, ou até mesmo na rua, com estranhos fitando-nos os olhos com um estranho ponto de interrogação desenhado na expressão facial. Temos o dia marcado na agenda mental e, apesar de todas as probabilidades de que a coisa poderá não correr lá muito bem, avançamos com inconsciência e menos temor do que devíamos. Até que chega o dia.

O "sim"

O dia, ou a noite, está aí. É agarrar na rapariga (ou no rapaz, que os tempos andam todos modernaços), sem que ela tenha a mínima ideia do que está a acontecer, e rumar ao lugar planeado. Presumo que esta seja uma aproximação do que sentem os actores quando sobem a palco: interpretam um papel que estava pensado e que foi ensaiado dias e dias a fio, sempre na firme convicção de que os críticos dirão que a peça era uma valente merda, quando, na verdade, só queriam um modesto aplauso antes do baixar de cortina. E depois, caímos sobre um joelho, e aí vem ela: "queres casar comigo?" E, por muito que vivamos, poucas coisas se equipararão ao som da voz daquela ninfa proferindo o "sim" mais belo da História da Humanidade.

O depois

O pós-pedido não é uma versão “fancy” de um vídeo esquisito do YouPorn. Ok, também pode é, mas isso não é o que mais importa. O que importa depois é todo um planeamento: quem convidar?, onde casar?, qual a data a escolher?, entre milhentos outros problemas nascidos. Em todo o caso, essa ansiedade custa menos a suportar porque é partilhada. E, bem vistas as coisas, foi para haver partilha (de angústias, alegrias e secreções corporais) que foi feito o pedido.

Ide lá ser felizes, agora.