Crítica

Os velhos Radiohead, todos eles, são os novos Radiohead

A Moon Shaped Pool será o álbum mais consistente dos Radiohead desde que trocaram as voltas ao mainstream (e além dele) da música popular urbana com Kid A e Amnesiac.

O nono álbum da carreira da banda inglesa chegou de surpresa, tal como os anteriores <i>King of Limbs</i> e <i>In Rainbows</i>
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O novo álbum surgiu, tal como os dois anteriores, de forma inesperada, sem pré-aviso Alex Lake

Os Radiohead já chegaram à idade em que um novo álbum corre o sério de risco de ser considerado o melhor desde [inserir título de uma edição histórica de há muito]. Principalmente se os discos mais recentes tiverem sido lançados de forma espaçada no tempo. Ora, King Of Limbs foi editado em 2011, In Rainbows em 2007 e Hail to the Thief já conta 13 anos de vida. E nenhum deles sobreviveu como um pedaço imprescindível na discografia da banda de Oxford.

A Moon Shaped Pool, lançado de surpresa num processo iniciado há pouco mais de uma semana, surge então num contexto ideal para que se afirme estarmos perante o melhor álbum dos Radiohead desde [inserir título de edição histórica de há muito]. Faltará tempo de convívio para que este disco intrincado revele todos os seus segredos, mas, ainda assim, podemos pôr de lado o cinismo para confessar que A Moon Shaped Pool será mesmo o álbum mais consistente dos Radiohead desde que trocaram as voltas ao mainstream (e além dele) da música popular urbana com Kid A e Amnesiac. E o que afirmamos, ressalve-se, não implica qualquer comparação com o impacto no cenário musical de então e com a dimensão desse par de discos na discografia dos Radiohead. Significa isso mesmo: que A Moon Shaped Pool é a mais conseguida colecção de canções e a mais consistente afirmação do desejo de arriscar que a banda regista desde 2001.

Conseguem-no com um álbum em que os temas de sempre – a angústia existencialista, quer perscrutando o íntimo, quer observando o mundo em volta, que a voz de Thom Yorke encarna e que o tom da música já acompanha com naturalidade  surgem plasmados em canções construídas não só com elementos diversos da sua discografia, como acolhendo em si, de forma proveitosa, aquilo que o guitarrista Johnny Greenwood e o vocalista Thom Yorke têm explorado em paralelo aos Radiohead – o trabalho orquestral ou a música do Rajastão, via Israel, em Junun, no caso do primeiro; a electrónica que o segundo vem trabalhando.

Passam por A Moon Shaped Pool vários pedaços de música que os fãs mais atentos conheceriam do passado, ora em embrião, ora assumindo formas diferentes. Mas não há sobressaltos estéticos ou anacronismos a assinalar, mesmo que o álbum encerre com uma True love waits, devastação emocional para voz e pianos em sonoplastia inspirada, criada durante o longínquo período de The Bends (1995).

Quer ganhe protagonismo a exploração electrónica em caixa de ritmo e sintetizadores ambientais, como nessa cósmica Ful stop que desembocará em breakbeat desencantado, quer atravessemos a voragem orquestral que acentua o dramatismo pop da tão deliciosa quanto perturbadora Burn the witch – é aqui e agora: “Abandon all reason/ avoid all eye contact/ do not react/ shoot the messengers/ this is a low flying panic attack, sobressai uma sensação de desolação que os Radiohead transformam em matéria sónica cativante. Dê-se o caso de mergulharmos em depressão, pelo menos sairemos dela enriquecidos.

O grande trunfo de A Moon Shaped Pool surge na forma das orquestrações compostas por Jonny Greenwood, determinantes na personalidade do álbum. São elas que erguem Daydreaming de balada confessional, inesperadamente próxima do Neil Young mais negro de inícios da década de1970, a experiência pop expressionista (“dreamers, they never learn/ beyond the point of return/ it’s too late, the damage is done/ this goes beyond me/ beyond you”). São elas que permitem que uma canção como essa conviva sem problemas com a magnífica Desert Island disk, investida folk que progride do classicismo fingerpicker até chegar a um novo lugar, um que Bert Jansch ou John Martyn apreciariam visitar, ou com uma Tinker tailor soldier sailor rich man poor man beggar man thief cujas esparsas notas de piano eléctrico nos religam directamente a Kid A Amnesiac antes de, orquestração apontada a Oriente, partir noutra direcção.

Não é um álbum sem falhas. Identikit, uma das pré-existentes à gravação de A Moon Shaped Pool , assemelha-se a uma caricatura dos Radiohead e soa preguiçosa como o solo de guitarra standard, para os padrões da banda, entenda-se, que nela ouvimos – Present tense, no seu balanço vagamente tropical, também está longe de memorável. Mas tudo o resto compensa claramente esses dois momentos menores.

O coração bate ao ritmo de sempre. A alma continua atormentada e sedenta de serenidade. Isso mantém-se inalterável. Mas, agora, da síntese nasceu uma bem-sucedida evolução. Os velhos Radiohead, todos eles, são os novos Radiohead.

Corrigido às 11h15: o título da canção Ful stop, e não Full stop; o nome guitarrista dos Radiohead, Jonny Greenwood, e não Johnny Greenwood.