Análise

Não é (só) a economia, estúpido!

1. Barack Obama foi a Hanôver ter uma conversa franca com os seus aliados europeus, antes que termine o seu mandato. Desafiou-os a não deitarem abaixo tudo o que de extraordinário construíram depois da II Guerra Mundial, lembrando-lhes o seu papel no mundo. Desafiou-os a acelerar as negociações do TTIP, antes que ele saia da Casa Branca e que as eleições em França e na Alemanha dissuadam qualquer tentativa de encontrar um compromisso. Angela Merkel, uma das primeiras a defender a ideia de um grande acordo comercial, concordou: há uma janela de oportunidade que se pode fechar rapidamente. Nos Estados Unidos, o populismo, na sua versão proteccionista, invadiu de forma avassaladora as primárias republicanas. Donald Trump e Bernie Sanders foram os dois grandes protagonistas desta vaga, ao ponto de obrigarem Hillary Clinton a deixar cair alguns avisos contra os acordos comerciais em geral: “Eles têm um aspecto fantástico no papel, mas os resultados nem sempre estão à altura”. Enquanto secretária de Estado de Obama, Hillary foi uma das principais impulsionadoras da Parceria Transpacífica de Comércio, já negociada com 11 países da Ásia-Pacífico, incluindo o Japão mas excluindo a China, e ainda à espera da ratificação do Congresso. Do lado de cá, as coisas não parecem mais fáceis, com os movimentos populistas antieuropeus e antiglobalização a dominarem cada vez mais as agendas políticas nacionais, ocupando o relativo silêncio em que têm decorrido as negociações (convém lembrar que o PE tem uma comissão a acompanhar a par e passo as negociações).

Com a visita de Obama e a divulgação pelo movimento ambientalista Greenpeace de algumas actas das rondas negociais, François Hollande, que tinha mantido uma prudente distância em relação a uma matéria que é muito sensível para os franceses, já anunciou que, “no estádio em que está”, a parceria não tem o apoio da França. A imprensa francesa lembra que o Presidente mais impopular da V República já entrou em “modo eleitoral”.

Mas o sinal mais preocupante vem da Alemanha. Merkel está a perder a uma grande velocidade o apoio da opinião pública de um país que seria sempre um dos grandes beneficiários do TTIP, graças à sua poderosa máquina exportadora. Hoje, o acordo recolhe apenas 39% de opiniões favoráveis, para 50% na própria França.

2. É preciso recordar como é que se chegou ao TTIP, se queremos afastar alguns “papões” sobre as más intenções americanas. Foi a Europa que deu o pontapé de saída para esta grande negociação quando iniciou com o Canadá um acordo comercial de novo tipo, mais assente nos standards do que nas tarifas, já de si muito baixas. O passo seguinte foi convencer os Estados Unidos, mas teve de esperar três anos até Obama dizer que sim. Logo que chegou à Casa Branca, o Presidente anunciou que os EUA tinham no Pacífico os seus dois desafios mais importantes: enquadrar numa ordem internacional liberal a emergência da China; responder à acelerada transferência de riqueza do Atlântico para a Ásia.

A Europa ficou nervosa mas não teve de esperar muito: a crescente desordem internacional e a nova versão agressiva do nacionalismo russo levaram-no a corrigir o tiro, percebendo que a comunidade transatlântica continuava a ser uma prioridade estratégica da América. Obama tem uma estratégia que engloba a economia e a segurança. Quer o TTIP, mas também está preparado para reforçar a NATO. “Quer revitalizar a aliança transatlântica nas suas várias dimensões”, diz Judy Dempsey, do Carnegie Europe.

No seu segundo mandato, em aliança com os Liberais, Angela Merkel chegou a comportar-se como uma “potência emergente”, pondo todas as fichas na economia, incluindo uma parceria de comércio com os EUA. Também aprendeu com a Rússia, conseguindo arrastar os seus parceiros para uma política concertada com Washington de contenção das ambições cada vez mais agressivas de Putin. Percebeu que a segurança também fazia parte da equação.

O grande problema é que a Europa não tem uma estratégia para a sua relação com o mundo, seja com os EUA, com a Rússia ou com a China. É esse talvez o maior obstáculo da negociação, porque facilmente deixa cair o debate (como já está) nos transgénicos ou na carne com hormonas, nos mitos e nas realidades da superioridade europeia de defesa dos consumidores.

3. Quando as negociações começaram, o que estava em jogo era de tal modo evidente que ninguém acreditava que um fracasso fosse possível. A crise financeira e a recessão económica abalaram profundamente o brilho do modelo americano e enfraqueceram a Europa. As potências emergentes chegaram a dar o declínio ocidental como inevitável. O TTIP era uma boa resposta para contrariar estas tendências. A vaga de proteccionismo não foi antecipada a tempo. Os perdedores da globalização e da emergência da China, nos EUA e na Europa, foram ganhando força.

Há seis meses ninguém diria que Trump seria o candidato republicano. A Europa abana com o Brexit e com os refugiados, enquanto a estagnação económica marca passo. Remando contra a maré, Manfred Weber, o presidente do Partido Popular Europeu, lembrava há dias que “não há espaço no mundo onde a Europa possa encontrar tantas semelhanças”. “Eles levam a protecção dos consumidores e os direitos dos cidadãos a níveis que, muitas vezes, ficam acima dos nossos”. Acrescenta um industrial alemão da metalomecânica, típico da Mittelstand, a rede de médias empresas alemãs sobre a qual assenta a enorme capacidade exportadora, citado no Carnegie Europe: “Temos de substituir as fichas europeias pelas americanas, mesmo que elas sejam no essencial as mesmas, tenham a mesma segurança e realizem a mesma função. Construímos a mesma máquina duas vezes, temos de comprar material duas vezes, temos de gerir stocks duas vezes, testá-las duas vezes e aprová-las duas vezes.”

Um empresário francês poderia perceber que a indústria do luxo, incluindo o gourmet, teria um gigantesco mercado à sua espera sem as restrições que hoje existem (os americanos desconfiam do leite não pasteurizado com que se fazem os maravilhosos queijos franceses). Falta à Europa “tentar convencer os europeus de que não se trata de mais globalização com os seus lados negativos, mas sim de tentar colocar-lhe alguma ordem”, diz Rem Koreweg do Council on Foreign Relations. Wolfgang Munchau, no Financial Times, é céptico. “É demasiado perigoso politicamente, não compensa os ganhos económicos.”

4. É no meio deste coro de lamentações que se torna difícil sublinhar o essencial: a natureza geopolítica deste acordo.

Judy Dempsey resume a questão: “Não é apenas um acordo comercial. É também a forma de revitalizar a ordem económica liberal do Ocidente, que está hoje sujeita a uma pressão maciça da Rússia e da China.” Se falhar, acrescenta, “o Ocidente perdeu uma oportunidade única para recuperar a sua influência e estabelecer os standards do comércio mundial nos próximos tempos.”

A Rússia e a China ficarão, naturalmente, muito aliviadas. Elvire Fabry escreve no site da Notre Europe, que a questão é fundamentalmente politica. O TTIP “exige uma leitura geopolítica e geoeconómica dos novos desafios que se desenham a curto e a longo prazo” para a Europa e que, de alguma maneira, definirão a sua relação com o mundo.

Obama leva a sua estratégia de renovação da Aliança à última cimeira da NATO em que estará presente, em Varsóvia, em Junho. Vem reafirmar o compromisso com a defesa colectiva, perante a incógnita russa. Só pede aos europeus que cumpram o que prometeram: gastar 2% na defesa. E que se entendam.