Crítica

Flutuando no espaço com Tim Hecker

Um dos mais relevantes alquimistas electrónicos da actualidade regressa com um excelente novo álbum, que vai ser apresentado ao vivo esta segunda-feira ( Braga) e terça-feira (Lisboa) em Portugal.
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Há dois anos, em entrevista, o canadiano Tim Hecker dizia-nos que tanto se deixava inspirar pelos ruídos da natureza como pelos das grandes cidades, desde que em ambos os casos esses sons tivessem a propriedade de nos deslocar no tempo e no espaço.

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Oiça-se o seu novo álbum Love Streams. Ele tem dito que o facto de ter sido registado na Islândia – como já havia acontecido com Ravedeath, 1972 (2011) e o anterior Virgin (2013) – nos estúdios do músico Ben Frost, contribuiu para que tivesse sido inspirado pela particular paisagem física do país. Mas qualquer pessoa o pode ouvir e sentir-se imerso num sumptuoso panorama urbano.

A sua música transcende fronteiras e cenários, tecendo muralhas sonoras digitais e extensões acústicas, com vagas voluptuosas de electricidade que se esmagam contra o digital, num todo ambiental, intenso e imersivo. Ao longo dos anos foi formulando um vocabulário particular, usando guitarra, piano, órgão e processadores digitais, cuidando do som como se fosse um objecto plástico, algo físico que pode ser moldado. Não é claramente música de fundo. Aceder-lhe exige deixar-se submergir.

No novo álbum voltar a alargar as perspectivas da sua música, processando com grande exactidão uma paleta alargada de referências, de onde distinguimos contornos de coros, sintetizadores, instrumentos de sopro, música sacra do século XV ou guitarras eléctricas. E no entanto nenhum desses elementos isolados interessa grandemente, fazendo parte da mesma nuvem sonora de sons e vozes, quase até ao seu não reconhecimento.

Em Violet monumental I o bater do coração digitalizado entrelaça-se com vozes lamentosas que parecem vir de paragens longínquas, enquanto em Castrati stack ou Music of the air vozes parecem vogar perdidas no espaço. Num texto recente para a publicação Pitchfork o crítico Philip Sherburne escrevia que a histórica editora 4AD se havia tornado na casa perfeita para ele, considerando as influências corais do presente álbum, numa alusão a projectos da editora do início dos anos 1980 como os Dead Can Dance, Le Mistère Des Voix Bulgares, Cocteau Twins ou This Mortal Coil.

Percebe-se a alusão mas aqui é tudo muito mais difuso. No interior de cada tema coabitam dinâmicas emocionais diferentes – da placidez mais ténue à violência mais catártica – numa intensidade em bruto que nos desvia não só da ideia mais clássica de canção mas também de qualquer vínculo facilmente identificável.

E no entanto o ouvinte nunca se sente totalmente perdido, como se a música nos fizesse flutuar com segurança. Uma experiência que é amplificada ao vivo, como poderá constatar quem o ouvir esta segunda-feira (GNRation, Braga) e terça-feira (Maria Matos, Lisboa), num espectáculo onde som, volume, imagens, luzes e espaço serão um só, participando da mesma envolvência sensorial.