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Megafone

273 pessoas brilhantes

Dizer que o bloco central não se entende é uma injustiça. Nas nomeações para a administração pública, a visão para o país é igualzinha

Desde que tomou posse, o Governo nomeou 273 dirigentes em regime de substituição e sem concurso. Este regime permite preencher lugares temporariamente vazios. Se, em alguns destes 273 casos de gente brilhante que apareceu de um momento para o outro, os lugares estavam mesmo vazios, noutros, o Governo tornou-os vazios, tirando de lá alguém cujo brilhantismo, a competência, o conhecimento técnico e o afecto ao PSD ou ao CDS eram inquestionáveis. Sábio, o Governo nomeou, para estes lugares, pessoas cujo brilhantismo, a competência, o conhecimento técnico e o afecto ao PS são igualmente inquestionáveis. No fundo, dizer que o bloco central não se entende é uma injustiça. Nas nomeações para a administração pública, a visão para o país é igualzinha.

A administração pública portuguesa parece o comboio Braga-Porto, às oito da manhã: está cheio, mas sempre a rodar o pessoal. Entra e sai gente em Nine, entra e sai gente em Famalicão, entra e sai gente em Ermesinde, entra e sai gente em Rio Tinto. A diferença está no critério: no comboio, o povo roda porque tem que ir para casa ou para o trabalho; na administração pública, o povo roda porque não tem mais nenhum sítio para onde ir.

Esta não é uma questão de confiança política. É uma questão de aselhice: em Portugal, nunca foi nomeado um tipo competente para um cargo público. De cada vez que muda o Governo, isso fica patente, porque as escolhas do Governo anterior são todas atiradas para o lixo.

O carreirismo político, em Portugal, é um mercado em expansão. Cada vez mais, os pais dos petizes são colocados perante uma difícil escolha: ou o puto tem jeito para a bola e aposta-se num novo Cristiano Ronaldo; ou o puto não tem jeito para nada, e aposta-se num novo Miguel Relvas. Esqueçam uma boa universidade, esqueçam o Erasmus, esqueçam a academia militar: o futuro está nas juventudes partidárias. Lá, o treino começa cedo e dá sempre frutos.

A preparação dos "jotas"

Muitos dos leitores conhecerão pessoal das “jotas”. Já repararam como esta malta está bem preparada? Como tem pose de Estado em todos os eventos? Como está permanentemente em campanha? Um “jota”, no dentista, mesmo com aqueles tubos todos, sorri sempre, porque nunca sabe quando vai ser fotografado. O “jota”, no futebol, não reclama com o árbitro, mas alvitra duas ou três verdades sobre a Lei de Bases do Desporto, que está tão mal feita que desembocou naquele "penalty" por assinalar. O “jota”, numa discoteca, só bebe um copo: não porque esteja em contenção, mas porque só acaba de cumprimentar toda a gente às seis da manhã, quando o tasco já está a fechar.

O “jota” não deseja bom Natal de forma criativa ou bem humorada, o “jota” salienta a importância da família e da solidariedade naquela quadra festiva. O “jota” começa a ser formatado no primeiro segundo de juventude partidária. Começa a perceber que aquilo funciona em bandos. Só não digo que são “bandos de pardais à solta”, como no fado do Carlos do Carmo, porque muitos destes pardais, ao fim de alguns anos de Governo ou de autarquia, deixam de estar à solta, pela acção irascível da Polícia Judiciária e do Ministério Público. Não podem ver ninguém feliz, é o que é.

Mas voltando aos bandos, o “jota”, quando entra na “jota”, tem que escolher de que lado está. Eles são todos amigos, eles pensam todos o mesmo, mas alguém tem que mandar naquele pardieiro, e por isso convém saber com que espingardas se contam. Assim se vão gerando cumplicidades, jogos de bastidores, facadas e venenos. Parece o “Game of Thrones”, mas com menos mamas e menos dragões. Uma seca, portanto.

De luta em luta, o “jota” vai ficando arregimentado a um dos lados, até que, um dia, chega ao poder. Nesse momento, cheio de idealismos, cheio de vontade de fazer diferente, o “jota” é logo avisado pelos seus camaradas de que eles sabem o que ele fez no Verão passado. Assim, o idealismo é destruído por uma marreta e substituído por uma bóia de salvação, arremessada a um ou mais daqueles camaradas da “jota”.

Muda o Governo, mudam as sumidades. Mais concretamente, 273 sumidades de cada vez. É um caso de “os meus especialistas são melhores do que os teus”.

Em Portugal, muda-se mais de directores de organismos públicos do que de camisa. Eu sei do que falo: já fiz a linha Braga-Porto e sei que odores podemos encontrar.

É, aliás, sob a alçada desta tutela que está o organismo com mais cargos preenchidos em regime de substituição: trata-se do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), com 119 casos.

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