Em Lisboa, o sonho de uma vida independente está a tornar-se realidade

A “empatia” foi o principal critério de Filomena Carvalho para escolher Marisa Lopes como sua assistente pessoal. Mais do que alguém que lhe prestasse um serviço, a advogada procurava alguém em quem pudesse confiar

Guilherme Marques
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Guilherme Marques

“Até Dezembro era um sonho dar maior qualidade de vida aos meus pais. A partir desse momento passou a ser uma realidade”. É assim que Filomena Carvalho fala na sua participação no projecto piloto que a Câmara de Lisboa está a promover na área da vida independente. A casa que lhe foi atribuída ainda não está pronta, mas o facto de agora ter ao seu lado uma assistente pessoal representa uma primeira conquista na luta pela autonomia.

Filomena Carvalho foi uma das oradoras da II Conferência de Vida Independente, que se realizou esta quinta-feira na Câmara de Lisboa. Ao seu lado estava Marisa Lopes, que é sua assistente pessoal desde há três semanas e que um dia, admite, talvez se torne sua “amiga”.

“A minha relação com a minha assistente pessoal é recente, está-se a construir”, explicou a advogada de 46 anos, que se desloca em cadeira de rodas. Por enquanto, a assistência prestada por Marisa passa no essencial pelo acompanhamento nas deslocações para o trabalho e para a universidade, mas no dia em que Filomena se mudar para a sua nova casa as tarefas serão muitas mais e o tempo que passarão juntas também.

O primeiro passo, depois de saber que tinha sido uma das pessoas escolhidas para integrar este projecto piloto, foi a escolha da sua assistente pessoal. Filomena Carvalho admite que o processo de selecção, que envolveu entrevistas a vários candidatos, “foi complicado”.

“É mais do que uma mera prestação de serviços. É alguém em quem eu quero confiar, que pretendo ter ao meu lado e que quero que se sinta bem ao prestar-me serviços”, justificou a advogada. A “empatia” que sentiu com Marisa, acrescentou num testemunho emocionado, foi o seu primeiro critério para a escolha.

Aos presentes na conferência, Filomena explicou que aquilo que a levou a participar neste projecto foi o desejo de “dar maior qualidade de vida” aos pais, que eram até aqui os seus cuidadores. “Têm uma certa idade e infelizmente não são eternos”, acrescentou, confessando que a assustava a perspectiva de ter que ser um dia institucionalizada.

Já Marisa Lopes, licenciada em Reabilitação Psicomotora, justificou o seu envolvimento no projecto com o facto de acreditar que “no médio-longo prazo as políticas em Portugal têm que passar necessariamente pela vida independente”. A institucionalização, defendeu, não deve ser o caminho “para pessoas que têm poder de decisão e acção”.

Para esta assistente pessoal com 24 anos, o desempenho desta missão exige “gostar de trabalhar” com pessoas com deficiência e ter em conta as “particularidades e necessidades” de cada uma delas e possuir “uma grande disponibilidade ao nível físico, cognitivo e emocional”. Mas para Marisa, “o mais necessário” é mesmo ter disponibilidade “para aprender”.

“Posso ter aprendido muitas coisas na faculdade, mas ninguém me ensinou a trabalhar com a Filomena”, afirmou, acrescentando que faz “um balanço extremamente positivo” das últimas três semanas.

Além de Filomena, há outras quatro pessoas que estão já a beneficiar deste projecto piloto, que tem a duração prevista de dois anos e que contempla um investimento da Câmara de Lisboa de cerca de 150 mil euros. Para lá desse valor, serão disponibilizados aos participantes (a quatro deles, uma vez que uma das habitações vai ser partilhada por duas irmãs) três fogos municipais.

Na conferência desta quinta-feira, Miguel Ganhão, arquitecto da empresa municipal Gebalis, explicou que esses fogos vão ser alvo de “uma requalificação integral”, que deverá estar concluída “este verão”. Aquilo que se pretende, disse, é que “as casas não tenham barreiras físicas, que sejam de uso universal”. Nelas, acrescentou, serão utilizadas várias inovações tecnológicas, permitindo aos habitantes realizar uma série de acções através de um simples toque num botão.

Para o presidente do Centro de Vida Independente, a associação que gere este projecto piloto, o facto de com ele se estarem a atingir os objectivos propostos (como o do aumento da “autonomia” dos participantes) “é a prova final e que a vida independente é possível em Portugal”. Agora aquilo que Diogo Martins mais deseja é conseguir que a vida independente “seja para todos”, independentemente do sítio de Portugal em que vivam.