Helder Moutinho canta-nos histórias ao ouvido

O Manual do Coração, do primeiro ao último arrepiante segundo, é um álbum de absoluta mestria no desenho de uma sonoridade fadista que não se esforça por soar a fado.

Foto
A partir de uma sessão realizada pela fotógrafa Pauliana Valente Pimentel, a recriar o quadro O Fado (1910) de José Malhoa Pauliana Valente Pimentel

O fado é uma música de lições. Não lições enquanto moralismos atirados a destinatários mais ou menos incertos; não lições enquanto conselhos paternalistas, fixação de regras para as vidas dos outros ou estabelecimento de um padrão de vida invejável a ser replicado como modelo de virtudes. Lições enquanto aprendizagem cumulativa em causa própria, protagonizada por cada fadista, que repetidamente se lança sobre as mesmas temáticas mas com o peso diferente dos anos, com quilos de conquistas e de perdas às costas. A aprendizagem pela dor, a aprendizagem pelo prazer.

A partir de qualquer noção daquilo que o fado pode e deve ser, espalha-se depois como fogo em erva seca a ideia de que existe uma forma certa de o cantar, uma forma de convocar ou simular tamanhas dores, tamanhas misérias, tamanhas alegrias. De tal maneira que mesmo Helder Moutinho – irmão do meio, ladeado pelas vozes também fadistas de Camané e Pedro Moutinho –, mesmo tendo crescido a ouvir fado directamente da boca de alguns dos seus mais brilhantes intérpretes, ao gravar o primeiro álbum chegou ao estúdio munido de tiques e trejeitos que carimbassem sem margem para dúvidas as suas cantorias como fado.

José Campos e Sousa, fundador da Banda do Casaco e produtor de Sete Fados e Alguns Cantos, de ouvido já acostumado àqueles atalhos para chegar ao fado, chamou-lhe a atenção: “Não faças tanto esses floreados e essas voltinhas”. Por momentos, Helder sentiu o fado a fugir-lhe debaixo dos pés. “Então mas se eu não fizer isto já não soa tão fadista, parece que é uma canção.” Ao que Campos e Sousa lhe explicou que com o fado que já carregava dentro de si, as voltinhas e os vibratos obrigatórios que pareciam imposição legal apenas atrapalhavam, eram uma redundância, uma artificialidade. Se pareciam atalhos, eram afinal caminhos mais longos e que o distanciavam da essência do seu canto. “Isso ficou-me na memória”, diz ao Ípsilon na Maria da Mouraria, a casa que dirige e onde viveu a primeira lenda do fado, Maria Severa Onofriana.

PÚBLICO -
Foto
O fado é uma música cumulativa e de lições. Helder andou a aprender até agora. Chegou a hora de começar, brilhantemente, a aplicar Pauliana Valente Pimentel

É uma lição antiga esta de José Campos e Sousa, mas que se sente por todo o lado em O Manual do Coração, quinto álbum de Helder Moutinho em 17 anos, prova de que só interrompe a sua actividade de manager, agente, letrista e promotor de espectáculos quando há um reportório a implorar-lhe atenção. Ouve-se por todo o lado da mesma maneira que se anunciava já em 1987 (2013), álbum anterior, em que temas como Escrito no Destino pareciam rodear-se de silêncio, dispensando colar-se inopinadamente aos modelos de um disco do género. O Manual do Coração, do primeiro ao último arrepiante segundo, é um álbum de absoluta mestria no desenho dessa sonoridade fadista que não se esforça por soar a fado.

E isso significa tanto que Helder Moutinho canta de uma forma depurada, sem tempo, livre de lugares-comuns, quanto a guitarra portuguesa de Ricardo Parreira não lhe persegue nem cerca a voz, não procura atafulhar cada pausa na letra para preencher espaços e mostrar aptidões.

Não é de menosprezar o papel de Ricardo Parreira. Se é habitual ouvir dizer que os músicos também interpretam as histórias e seguem uma narrativa a cada compasso, raras vezes isso foi tão verdadeiro no trabalho de um guitarrista. Ricardo Parreira toca neste disco como em nenhum outro, acrescenta-lhe uma riqueza melódica enorme e desapressada, ajuda a que cada tema seja tratado com delicadeza na sua especificidade, não entra em disputas de protagonismo. E foi responsável, numa das primeiras reuniões de trabalho para a preparação de O Manual do Coração, pela definição de uma das linhas mestras do álbum: “Vamos pedir às pessoas para fazerem músicas como se fosse para elas, nós é que vamos transformá-las em fado.”

Helder Moutinho, pensando nas grandes canções do passado, criadas por grandes maestros – como o fez Frederico Valério para Amália Rodrigues, por exemplo –, logo acolheu esta ideia de que o material que lhes fosse entregue por Zeca Medeiros, João Gil, Mário Laginha, Carlos Barretto, Pedro da Silva Martins e Luís José Martins (Deolinda) ou Vitorino não tinha de ser um fado escarrapachado na origem. “Por vezes, quando as músicas chegam e os autores as fazem a querer soar a fado, fica estranho, não são eles próprios, parece que fica arrancado a ferros. Nós queríamos que eles fizessem as músicas sem preconceitos, que fizessem que o lhes apetecesse, que lessem a letra, se apaixonassem por ela e pensassem em fado só se quisessem.” A diferença deste processo ouve-se com clareza. Seja porque as indicações foram seguidas, seja porque a forma como fadista e músicos tomaram as canções nos braços, este é um álbum de fado com uma sonoridade própria e distinta, que não deixa que os seus autores soem iguais àquilo que soa(ria)m noutro disco.

No fundo, tanto Helder Moutinho quanto Ricardo Parreira, acreditam na inevitabilidade de direccionarem qualquer canção para o fado – mais ou menos alinhado. Nasceram nisto, cresceram nisto e deixados à sua sorte, como um rio que não pergunta onde fica o mar, encaminham-se instintivamente para ali.

PÚBLICO -
Foto
Pauliana Valente Pimentel

Um ano de João Monge

O Manual do Coração começa a nascer na ressaca de 1987 – álbum em que cada um de quatro letristas, entre os quais o próprio Helder e João Monge, contava uma história dispersa por quatro fados –, quando guiado pelo regozijo do resultado final Helder diz a Monge “Um dia ainda vamos fazer um disco em que as letras são todas tuas”. Se o isco foi lançado com convicção, o letrista mordeu-o de imediato e prendeu-se à ideia, garantindo que bastaria um sinal de Helder para limpar a sua agenda durante um ano e não se dedicar a mais nada. Estavam a sair do estúdio e por muito que a conversa pudesse ser fruto do entusiasmo de uma parceria quase telepática que estavam a desenvolver, o cantor não deixou esse impulso esfriar e passados dois dias telefonou a cobrar a promessa.

“O que é engraçado é a história das coisas”, lembra-se Moutinho. Numa das conversas iniciais sobre o álbum (um jantar a três entre fadista, letrista e guitarrista), a ideia em cima da mesa, entre garrafas e garfadas, era a de “pegar em músicas muito antigas e meter novas letras”. Só que, às tantas, com a sugestão de Ricardo Parreira de que o fado estaria sempre defendido pelas suas próprias biografias vertidas para a música, esse plano transformou-se numa série de convites a autores que pudessem criar temas de origem, com o passado ainda enganchado no horizonte, de forma a obterem aquilo a que se poderia chamar “novos fados tradicionais”.

Paga a conta do jantar, o álbum mudara de cara, rejuvenescera, e ficara numa primeira fase completamente entregue a João Monge. Era a ele que cabia escrever e desafiar autores – tentando encontrar aqueles que melhor servissem cada um dos poemas. Mas desde o primeiro contacto que estabeleceu as regras voltaram a alterar-se. Ao iniciar a correspondência com Zeca Medeiros – por achar que o poema O Meu Coração Tem Dias parecia trazer já a assinatura do músico açoriano –, este não só respondeu ao desafio com a música devastadoramente bela que inicia o disco, como devolveu o desafio a Monge enviando-lhe uma outra música órfã de poema (Dança dos Peixes). A partir desse momento, letras e composições foram circulando em todos os sentidos – Monge e autores, Monge e Helder, Helder e músicos – e O Manuel do Coração foi ganhando uma cara.

Nunca deixou, no entanto, de integrar a pista inicial das canções muito antigas. Mesmo que de uma forma involuntária, esse primeiro desígnio não se apagou, não ficou para trás à medida que iam recebendo canções acabadas de parir. Há muito em O Manual do Coração que parece uma queda romântica nos anos 50, num canto clássico que desafia o próprio avanço do tempo. Há qualquer coisa de estático neste álbum que em nada soa a nostálgico, antes nos aparece impregnado de um bom gosto imbatível, desinteressado de se alinhar com visões mais ou menos modernas do que pode ser hoje o fado. Nalguns temas, confessa Helder Moutinho, pode até quase imaginar Tony de Matos a cantar; noutros, percebe-se uma sombra ténue de José Afonso; em Canção Vira Lata, letra e música de Monge, há um travo a Chico Buarque que não esconde quem é o autor; em Garota da Mouraria há “um puto com 28 anos [Marco Oliveira] que faz uma música nova que parece ter sido feita há 50 anos”.

Nessa sua sublime elegância de cantador, Helder Moutinho pode comparar-se a Carlos do Carmo, falando de um nome mais próximo, mas reconhece que o seu canto está, antes de mais, fundado na escuta atenta e embevecida de Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Fernando Maurício e Beatriz da Conceição. “Não tenho nada de Amália naquilo que canto”, comenta, “apesar de ser seu fã incondicional. Se for um tema mais tradicional vou buscar a minha referência ao Maurício, à forma como ele dividia, como pegava nas palavras; quando começo a cantar baixinho, como se estivesse a segredar ou a cantar ao ouvido de alguém, estou a pensar no Marceneiro.” Com Carlos do Carmo partilha ainda o ponto de tangência entre o fado antigo e a assumida herança de faróis internacionais. Se em Carlos do Carmo essas luzes vindas de fora se percebiam em Aznavour, Sinatra ou Brel, dir-se-ia que também Brel fará parte da escola interpretativa de Moutinho, embora mencione com frequência que a haver “um grande fadista nos Estados Unidos será o Tom Waits”.

PÚBLICO -
Foto
Pauliana Valente Pimentel

O nome Tom Waits volta a sair-lhe da boca quando fala com entusiasmo da capa de O Manual do Coração. A partir de uma sessão realizada pela fotógrafa Pauliana Valente Pimentel, numa foto em que recria o famoso quadro O Fado (1910) de José Malhoa – em que Helder toma o lugar de Amâncio, guitarrista da má vida, neste gesto de sedução que tem por destinatária Bela (e não Adelaide da Facada), a carismática anfitriã da casa com o seu nome dedicada a fados e petiscos em Alfama –, o cantor começou a imaginar a imagem de um filme, como se as pequenas narrativas que canta no disco se encavalitassem para até formarem uma história maior contada pelas palavras de João Monge.

Foi então fotografar cartazes de cinema às salas, recolheu uma série de posters de filmes antigos na internet e mostrou tudo ao designer Rui Garrido, pedindo-lhe que a capa prolongasse esse ambiente de um olhar para trás que ao mesmo tempo suspende o tempo, transcende-o, paira como uma sombra de romantismo em desuso sobre um conjunto de canções imaculado. A imagem cunhada com esse estilo cinematográfico – “Parece o Kilas, O Mau da Fita”, compara – justificava-se igualmente pela valorização que Helder pretendia fazer de todos quantos fazem parte do álbum, nomeando na capa o letrista, os autores das músicas e os músicos, corrigindo uma falha que identifica na música popular e que só é hábito nos universos da clássica e do jazz. E é por isso que Tom Waits vem à baila, queixando-se da ausência de identificações dos compositores nos serviços de streaming: “Ainda não consegui perceber quem é que escreveu o Waltzing Matilda [Waits cita o tema popular australiano em “Tom Traubert’s Blues (Four Sheets to the Wind in Copenhagen)].”

As pequenas histórias

O peso dos músicos e a sua noção do lugar que ocupam no disco está tão bem definido que Moutinho garante: “Se tivesse de gravar o disco outra vez podia estar descansado porque toda a gente, no seu posto, estava a tomar conta dele”. Fundamental para esse espírito de grupo foi a residência de 15 dias – dividida por dois períodos – em que todos se reuniram em Serpa, na calma alentejana de Janeiro, para viverem juntos e gravarem o álbum. Tal reclusão parece não apenas afastar uma ideia de “Helder Moutinho e os muchachos” que o próprio recusa por não querer ser líder de um gangue fadista, mas também acolhe o imenso espaço que se entranha nos temas (oiça-se a monumental Dança dos Peixes, mais uma vez Zeca Medeiros), músicas desenroladas sem atropelos nem ansiedades.

Pequenas histórias de amor que Helder Moutinho imagina acontecidas a uma mesma pessoa – o facto de se fecharem em episódios que cumprem um inteiro ciclo enquanto dura um fado faz com que funcionem como um zoom in seguido de zoom out em cada micronarrativa. Daí que, sem a obsessão de finais felizes duradouros, versem a solidão, os amores silenciosos, as conquistas em bailes da terra, as partidas de “amores clandestinos”, as relações sonhadas, a espera por alguém que se foi, o amor pelo fado, por uma desconhecida que se vê passar (a “Garota da Mouraria” em que Monge planta uma canção-irmã de Garota de Ipanema, de Vinicius de Moraes; da mesma forma que chama uma Geni que, com um modo de vida bem diferente, lança uma seta até ao cancioneiro de Chico Buarque) ou amor pela cidade de Lisboa, deixada a caminho de uma emigração forçada –numa alusão pouco encapotada ao clima político e social e dos últimos anos (presente também em “Fado Triste”, história de uma mulher sem abrigo, “encontrada na rua, semi-viva, semi-nua”).

“Fado Triste” é, aliás, bom exemplo dos caminhos tomados por O Manual do Coração. Depois de Helder ter pedido a Monge “umas quintilhas mesmo negras, para meter no Fado Tango” e de experimentar com os músicos, uma vez mais pensou: “e se pedíssemos antes a alguém que fizesse um grande ‘fadão’, um novo tradicional para isto?” Lembraram-se ambos de João Gil e ficaram com álbum composto exclusivamente por temas novos. “Atenção que nunca faria isto num primeiro ou segundo disco”, avisa Helder. “Só fiz isto agora depois de o percurso que achei que tinha de ter feito. Primeiro que tudo, ir buscar a herança – fiz isso nos discos todos. Agora neste, deixa-me lá pegar em toda a minha herança, todo o meu know-how das coisas do passado e começar a construir novos fados.”

O fado é uma música cumulativa e de lições. Helder andou a aprender até agora. Chegou a hora de começar, brilhantemente, a aplicar.