Carlo Allegri/Reuters
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Colégio militar: as guerrilhas machistas e homofobias

Uma escola que oprime e segrega nunca poderá formar uma sociedade que seja justa e tolerante

Depois de dias conturbados chegamos ao fim, espero eu, de toda a novela rocambolesca do Colégio Militar. Contudo, há pontos que ainda precisam de ser (muito bem) esclarecidos. Antes de mais, todo o ódio (sim, é a palavra correta) que se gerou à volta do ministro da Defesa pela “intromissão” na gestão de um órgão independente.

Aqui é que começa o erro de análise: as Forças Armadas não são, de todo e forma alguma, independentes. Estas são geridas pelo próprio Azeredo Lopes e, em última instância, pelo Presidente da República, logo, o pedido de esclarecimento por parte do ministro é completamente legítimo.

O Movimento das Forças Armadas teve um papel importantíssimo na construção da nossa democracia, e do qual estamos completamente agradecidos, mas são tempos há muito passados e sem possibilidade de retorno. No lado oposto da barricada surgiram vozes a exigir o fim do Colégio, e passamos do 8 para o 80 num piscar de olhos. Nunca, em tempo algum, posso ser contra o fim de uma instituição reconhecida pelo seu valor pedagógico e humano.

É certo que não é o meu método de ensino preferido, e muito dificilmente colocaria lá um filho meu, mas isso não me faz questionar a sua continuidade. O que eu questiono, e exijo ver esclarecido enquanto cidadão, é o tipo de valores humanos que estão a ser transmitidos nessa instituição. É, antes de mais, numa escola pública em que o Estado tem de assegurar o seu correto funcionamento e o cumprimento da lei (sim, homofobia é crime).

Cabe-lhe esse papel de protetor de todos os jovens contra qualquer tipo de "bullying" mas, e o mais importante, o papel de pedagogo ao explicar a todos a igualdade dentro de todas as diferenças. Uma escola que oprime e segrega nunca poderá formar uma sociedade que seja justa e tolerante. É necessária uma educação que foque uma interpretação mais consciente das várias sexualidades, mas também se foque nos géneros.

Grande parte deste preconceito não surge apenas nas questões de orientação sexual, bem pelo contrário, está bem mais enraizado por causa de todo o machismo que revelamos sem querer. O pré-conceito que temos de um militar é de um homem forte, destemido, viril e desejado pelas mulheres (a nível amoroso) e pelos restantes homens (como exemplo a ser alcançado).

No entanto, alguns militares, ao verem que um deles se relaciona com outro homem, associam esse fato a uma perda total de virilidade e bravura, uma conspurcação desse ideal. Se repararmos, é muito mais comum ouvirmos casos de homofobia relativos a gays do que a lésbicas dentro do exército. Se recordarmos a nossa infância e adolescência recordaremos sempre um caso (ou até mais) da “maria-rapaz” e o rapaz efeminado da nossa escola/turma. Qual deles é que sofria mais preconceito? Exato, o rapaz. A rapariga até podia ser vista como “desarranjada”, e não muito atrativa, mas era muito social, nem que fosse só com os rapazes. Mas e o “larilas”? Esse era o alvo de chacota e de piadas todos os dias porque se atreveu a prevaricar todo um género de homens “fortes” com os seus tiques de mulher “frágil e inferior”.

Em suma, os tempos do “Don’t ask, don’t tell” há muito que passaram (ou que deveriam ter passado) até porque discriminação também é omitir e fechar os olhos a uma realidade comum. É preciso encarar o problema de frente e isso só será possível através da educação e do exemplo superior. Se queremos que estes futuros militares sejam aceites devemos focar-nos neles mesmos e na educação e não em aparências sexistas.