Aqui ensina-se jazz, com alma e muito improviso

Está na rádio, na música do elevador e nos discos mais aclamados pela crítica. O jazz ultrapassa os tempos e os lugares. A Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Club Portugal em Lisboa e a Escola de Jazz do Porto não deixam morrer o “all that jazz”.

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parte do preceito de ensinar jazz é que “os alunos saiam da escola a sentirem-se melhores do que quando entraram”, diz José Cordeiro, aluno da Escola de Jazz do Porto Público

Talvez nos corredores de uma escola de jazz a frase de um poema de Langston Hughes faça todo o sentido: “O ritmo da vida/ é um ritmo de jazz,/ querida./ Os deuses riem-se para nós”. No edifício da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Club Portugal, a “casa” é dividida com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Contudo, no segundo piso, abandona-se Mozart para dar lugar a Miles Davis. Os cartazes da década de 70 e 80 do Festival de Jazz de Cascais denunciam a maturidade da instituição, que nem o avançar da idade impede que esteja cada vez mais nova.

“Há sempre pessoas interessadas em aprender jazz. Penso que a escola começou por essa razão, havia vários músicos amadores que queriam aprender a tocar”, explica Bruno Santos, director pedagógico e professor da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas. O legado do Hot Club Portugal no jazz abriu as portas para que o ensino surgisse e crescesse de ano para ano em Lisboa. Se no passado, as aulas eram realizadas em duas ou três salas do clube de jazz, o número crescente de alunos requereu mais condições e espaço. Da Praça de Alegria, a escola de jazz “improvisada” dos finais dos anos 70 fixou-se na Travessa da Galé, na zona de Alcântara.

Bruno Santos ainda recorda os tempos em que tinha aulas no Hot Club: “Eu chegava à secretaria e diziam-me ‘O teu professor não vem dar aulas hoje, esteve a tocar toda a noite’”. O então músico amador da ilha da Madeira tornou-se professor da instituição em 2000. O “passar da pasta” aclarou as diferenças sobre o que era e o que é o ensino do jazz. Mas não só.

A experiência enquanto docente na Escola Superior de Música de Lisboa provou que o jazz se poderia tornar um método, ao invés de valorizar o improviso e a fluidez. “Quando tinha uma dúvida, os meus professores diziam-me para ouvir discos. Hoje, os estudantes estão à espera de respostas, sem que as procurem primeiro”, explica. Parte do trabalho na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas passa por contrariar esta ideia. Se o jazz vem da alma como Nina Simone tanto apregoou, há que sentir a música e fugir de normas.

Em cada sala, pode-se encontrar um aluno a tocar piano e até um professor, como Pedro Felgar, a tocar bateria. “Estou a fazer muito barulho?”, pergunta. Apenas o suficiente. Perante os ritmos, a percussão e os padrões, Pedro Felgar, professor de bateria e antigo aluno do Hot Club pretende mostrar aos alunos o “seu mundo”, ajudá-los nas suas dificuldades e exaltar o melhor do jazz. A aula de bateria é uma das expressões fiéis dos que constituem a escola: desde de alunos com 8 anos no Ateliê de Iniciação ao Jazz até aos adultos com mais de 50 anos no curso pós-laboral.

A idade pode ter mais peso do que se imagina, uma vez que indica as motivações dos que procuram a escola. A faixa etária dos 19 aos 23 anos frequenta geralmente o “percurso normal” da escola, ou seja, um curso de 4 anos com as aulas práticas, como as de instrumento e combo (pequeno grupo de músicos) e as aulas teóricas, de treino auditivo e História do jazz. Muitos pretendem tocar profissionalmente, mas há excepções. “Dos nossos 250 alunos, há mistura de pessoas que são curiosas e outras que pretendem fazer carreira”, esclarece Bruno Santos.

Sara Pestana, Nazaré Silva, Rúben Silva, Samuel Dias, João Correia e Vasco Narciso saberão melhor do que ninguém como é estudar na escola do Hot Club. São jovens, com idades entre os 18 e os 28 anos, e actuaram a 19 de Março na 14ª Festa do Jazz do São Luiz. Não partilham a mesma época de muitas músicas emblemáticas do jazz que agora ensaiam, como “Stolen Moments” ou “It Could Happen To You”. Ainda assim, algo os mantém aqui.

“Eu já tinha estudado jazz e quis voltar a fazê-lo; desta vez, queria experimentar no Hot Club”, refere Sara Pestana, de 25 anos, uma das vozes deste combo. Já para Rúben Silva, de 20 anos, o percurso no saxofone começou graças ao jazz. Se antes não conhecia o grau de exigência, hoje sabe que o sucesso depende muito de si próprio. “Jazz não é como a música em geral e não é uma ciência em que vamos às aulas e adquirimos conhecimento. Temos de viver e ouvir muita música”, explica.

A conotação de “música dos nossos pais” foi decisiva para que Vasco Narciso, de 20 anos, a guitarra do grupo, se interessasse por este mundo. “Eu sempre gostei de ouvir jazz e isso deve-se muito aos meus pais que compravam e ouviam muitos discos”, diz.

Ouvir jazz poderia resultar de uma maturidade musical, principalmente junto das gerações mais novas. Mas o tema não é consensual entre o grupo. Samuel Dias, de 19 anos, ainda com as baquetas na mão, acredita que há diferenças entre uma pessoa que compreende a linguagem musical e outra que não. “Se estiver a ver um sunset com os meus amigos, eles vão adorar a It Could Happen To You, mas um músico de jazz vai ouvir aquilo de uma forma diferente”, defende.

A segurar no contrabaixo, João Correia, de 28 anos, dá o seu contributo: “É a mesma coisa que ir a um concerto de ópera, as pessoas gostam, mas não entendem a música”. A unanimidade surge com a confirmação do que o jazz significa para cada pessoa, onde não há certos ou errados. E como Nazaré Silva, a benjamim de 18 anos do grupo, realça: “o gosto por ouvir, pode evoluir para o interesse de compreender a música”.

Muito mais do que jazz, uma escola de música improvisada

O jazz não fica refém de lugares e também ecoa pelas paredes da Invicta, pelo menos tal acontece na Escola de Jazz do Porto, na freguesia do Bonfim. Os papéis de masterclasses, workshops e os anúncios de elementos para uma banda mostram que a música exige esforço e conhecimento. O improviso e a criatividade, uma frequente aposta das jam sessions das quartas-feiras à noite, são os ingredientes que fazem a cereja no topo do bolo.

“Às vezes, a palavra ‘jazz’ vem acrescentar ruído. É mais interessante falarmos de uma escola de música improvisada, porque é uma tradição pouco usual em Portugal”, esclarece Pedro Barreiros, um dos fundadores da Escola de Jazz do Porto e actual professor. Mais do que replicar as interpretações de outros, a aposta passa por fomentar o raciocínio dos alunos, o que implica uma “falar” jazz e não “ler” jazz.

José Cordeiro, de 26 anos, que o diga. Tem aulas individuais de baixo eléctrico e a cada instante é desafiado a descobrir os próprios erros e a ter uma posição crítica. Pode acontecer o eventual “já me perdi” nas notas, no entanto insiste com os dedos nas cordas, até que o difícil se torne mais fácil. Como Pedro Barreiros salienta: “É mais importante a atitude do aluno do que do professor”.

A caminho dos 31 anos de ensino, a Escola de Jazz do Porto contempla alguns tipos de matrículas: desde as aulas em grupo de formação musical e combo até às aulas individuais de contrabaixo ou canto. Os objetivos são dos alunos, que ditam o percurso e a flexibilidade na escola. José Cordeiro entrou na escola para ingressar no curso de Produção de Música e Tecnologia da ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo). Depois de cumprir o feito, decidiu continuar. “Agora trata-se de melhorar, porque isto é uma luta sem fim”, afirma.

A música improvisada como um valor acrescentado na vida pessoal e profissional é já uma realidade para cerca de 90 alunos da escola. E o professor explica porquê: “O facto de improvisarmos tem muito mais a ver connosco do que desempenhar uma prosa com 200 anos”. Já o aluno de baixo elétrico, que olha para o saxofonista Kamasi Washington e para o baixista Thundercat como inspirações, acredita que “o jazz é colocado em prateleiras”, mas isso não significa que a música tenha de ficar restrita a comprimentos e larguras.

Tal como tudo o que vem da alma, parte do preceito de ensinar jazz é que “os alunos saiam da escola a sentirem-se melhores do que quando entraram”. Seja por motivos profissionais ou por curiosidade, o bichinho estará sempre lá. Não fosse o jazz, “o ritmo da vida”.

Texto editado por Ana Fernandes