Opinião

Uma concordância com o mundo

Contra o não-sentido que é a morte de alguém ficamos legatários do sentido que deu à vida.

No dia em que se soube que tinha morrido o Paulo Varela Gomes fiquei até altas horas a ler, de uma vez só, o seu último romance — Passos Perdidos. O que mais me impressionou foi o que já me impressionara no seu primeiro romance, O Verão de 2012: o autor dizia aquilo que queria dizer, da maneira como queria dizer.

Isto é a coisa mais difícil do mundo. É raro o autor que não cede a umas regras da arte que não estão escritas em lugar nenhum mas a que servilmente emprestamos o sentido daquilo que é um romance ou um conto ou um ensaio ou uma crónica. Não neste caso. Quando ele desejava saltar a descrição da fisionomia de um personagem dizia “é parecido com o ator x cujas fotografias toda a gente encontrará facilmente na internet”. Quando desejava falar de ideias ou contar a história de um lugar, falava de ideias ou contava o que tinha a contar, deixando as personagens e os leitores à espera o tempo que for preciso. Quando e como queria dizer, dizia.

Pode talvez achar-se que foi a circunstância em que o Paulo Varela Gomes escreveu os seus livros — doente, com um cancro a avançar para uma morte imparável — que o levou a escrever assim. Mas eu tenho ideia (tendo-o encontrado bastantes vezes sem nunca o ter conhecido bem) de que ele foi sempre assim. Desde um artigo sobre literatura cyberpunk na Vértice, o primeiro que li dele, e que fazia estranha figura naquela vetusta publicação, passando pel’A Confissão de Cyrillo, um livro de ensaios sobre a história da historiografia da arte, até às suas crónicas de-concordar-ou-discordar, e terminando nestes quatro romances que fazem dele um grande escritor simplesmente, o Paulo Varela Gomes pareceu estar sempre sem medo: sem medo de falhar, sem medo de acertar, sem medo de mudar.

Sabe-se que as suas ideias foram do comunismo ao cristianismo; que passou por revolucionário e reacionário. Há uma maneira superficial de ver isto, que é chamá-lo de contraditório. E uma outra, que é dizer que ele tinha uma profunda concordância com o mundo. Que era essa concordância com o mundo que explicava as suas discordâncias com as nossas imperfeições. Não sei explicar melhor.

Uma vez, num círculo fechado, escrevi uma crítica vigorosa a um texto dele. Um dos seus melhores amigos, o Ivan Nunes, reenviou-a ao Paulo. Nem tive tempo de me preocupar. O Paulo ficou contentíssimo e respondeu com mais vigor ainda (há dezenas de histórias assim com ele). O tema era o futuro contra o passado (não era bem isso, mas no fundo era). Ele era do lado do passado, mas não contra o futuro (eu era, e sou, ao contrário). É que a zanga dele com o futuro era fruto de uma grande empatia com a vida que já foi vivida, com as pessoas que a viveram e com a cultura que deixaram. Uma consonância com a natureza que já cá estava antes de chegarmos, e portanto uma certa dose de ira contra tudo o que de mal se lhe pode fazer agora. Um reconhecimento dos sentimentos que demoraram a ser decantados — a honradez, a amizade, a coragem — e uma oposição à rapidez com que podem ser envilecidos.

Isto está para lá da concordância e da discordância. Contra o não-sentido que é a morte de alguém ficamos legatários do sentido que deu à vida.