Explicado o mistério da herança familiar dos gémeos não idênticos

Descobertos dois genes associados a mulheres que têm gémeos não idênticos. Diferentes variantes influenciam a produção de uma hormona feminina e a sensibilidade dos ovários a ela.

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Em cada cem gravidezes, uma dá origem a gémeos Mário Augusto Carneiro

Na maioria das gravidezes humanas desenvolve-se apenas um embrião. Este número é condicionado pela mulher, que normalmente liberta um ovócito por ciclo menstrual. Uma fecundação deixa para trás milhões de espermatozóides. Mais ovócitos houvesse, mais seriam fecundados. De vez em quando isso acontece: uma mulher ovula duas vezes ao mesmo tempo, e os dois ovócitos são fecundados por espermatozóides diferentes, originando os gémeos dizigóticos, tão diferentes entre si como irmãos de gravidezes distintas.

Há muito tempo que se notou que certas famílias tinham mais tendência para ter gémeos dizigóticos, o que levou os cientistas a atribuir este fenómeno à genética. Ainda que nada estivesse provado. Agora, uma equipa internacional analisou o genoma de 1980 mulheres que tiveram gémeos dizigóticos e encontrou dois genes associados a esta característica. Quando uma mulher tem uma determinada variante de cada um dos dois genes tem 27% de hipóteses acrescidas de ter gémeos dizigóticos, conclui um estudo publicado na revista científica The American Journal of Human Genetics.

“Há muito que era esperada a descoberta dos genes principais por trás do mistério de gémeos dizigóticos espontâneos”, diz Dorret Boomsma, da Universidade Vrije, em Amsterdão, uma das cientistas responsáveis pelo trabalho que contou com 38 cientistas de vários países (Austrália, Estados Unidos, Finlândia, Islândia, Reino Unido, Suécia, Singapura e Suécia). A descoberta “é de grande interesse científico e importância clínica ”, acrescentou a investigadora, citada num comunicado da universidade. 

Em cada cem mulheres grávidas, uma estará à espera de gémeos. Dois terços destas gravidezes são gémeos dizigóticos, apenas um terço é de monozigóticos. Mas o que está na origem dos dois tipos de gémeos são fenómenos completamente diferentes. Enquanto nos gémeos dizigóticos há uma dupla ovulação por parte da mulher, os monozigóticos surgem quando o embrião, por alguma razão, se divide no início da gravidez, dando origem a dois embriões geneticamente idênticos e que se desenvolvem separadamente.

O novo trabalho ajuda a explicar a razão da dupla ovulação. A equipa começou por fazer um grande estudo de associação genética, comparando o genoma das tais 1980 mulheres (de vários países) que tiveram gémeos dizigóticos – mas que não fizeram tratamentos de reprodução assistida –, com 12.953 pessoas que serviram de grupo de controlo. Este tipo de estudo procura encontrar na população-alvo variantes genéticas que, a nível estatístico, estão associadas à característica que se está a estudar.

Os cientistas encontraram vários genes que poderiam estar associados à tendência de uma mulher ter gémeos dizigóticos. Depois, a equipa fez uma análise semelhante na população islandesa para confirmar os resultados anteriores, que incluiu 3597 mulheres que tiveram gémeos dizigóticos e um grupo controlo de 297.348 pessoas. Do grupo de genes candidatos, os investigadores encontraram dois que a análise da população islandesa confirmou estarem definitivamente associados ao fenómeno.

Todas as pessoas têm os mesmos genes no seu genoma, mas cada gene tem diversas variantes, que surgem em percentagens diferentes na população. Estas variantes são uma fonte importante de variedade natural nas espécies e fazem com que uma pessoa seja mais alta do que outra, ou tenha uma cor de cabelos diferente.

Os dois genes agora identificados chamam-se FSHB e SMAD3. Os cientistas encontraram nas mulheres que têm gémeos dizigóticos uma variante do gene FSHB que está associada a níveis sanguíneos mais altos da hormona estimulante dos folículos. Esta hormona é responsável por fazer amadurecer os ovócitos nos ovários. Com níveis mais altos desta hormona, podem ser libertados vários ovócitos ao mesmo tempo, o que facilita a existência de gémeos dizigóticos.

No caso do gene SMAD3, envolvido na sinalização celular, foi encontrada uma variante que provavelmente terá um papel na sensibilidade do ovário na resposta à hormona estimulante dos folículos. “Esta variante genética é totalmente nova”, diz Hamdi Mbarek, geneticista da mesma universidade de Dorret Boomsma, citado num comunicado da editora da The American Journal of Human Genetics. Os cientistas pensam que esta variante poderá tornar os ovários mais sensíveis à hormona. Nesse caso, uma concentração média da hormona poderá ter um efeito maior nas mulheres com esta variante, activando o desenvolvimento de mais folículos, e promovendo a existência de gémeos dizigóticos.

Outros genes por descobrir

Segundo os cálculos da equipa, uma mulher com aquela variante do gene FSHB terá 18% de hipóteses acrescidas de ter gémeos dizigóticos, enquanto outra mulher com a nova variante do gene SMAD3 terá 9%. No caso de uma mulher ter as duas variantes no genoma, então as percentagens somam-se e a possibilidade de uma gravidez dupla aumenta em 27%.

Esta descoberta tem implicações para o estudo e o tratamento da infertilidade. Nestes tratamentos usa-se a hormona estimulante dos folículos. Algumas mulheres, dependendo do seu genoma, poderão estar a responder demasiado bem à hormona. “Com este tipo de informação, pode ser possível prever até um certo ponto como é que as mulheres vão responder à injecção da hormona”, diz Cornelis Lambalk, um ginecologista da Universidade Vrije, também envolvido no projecto.

Mas a investigação não acaba aqui, explica Dorret Boomsma: “Há uma sugestão muito clara de que mais [genes] também estão a contribuir para se terem gémeos dizigóticos.” Nalguns países de África há uma maior percentagem de nascimentos de gémeos dizigóticos, enquanto em países como o Japão a percentagem é menor. Quando se conhecer todos os genes envolvidos neste processo, talvez seja possível explicar a origem desta variação que torna a realidade complexa.