Crítica

O povo gosta do coração de Ricardo Ribeiro

Não tem truques, não tem manhas, tem apenas uma voz do tamanho do mundo. Quando a usa com inteligência, torna-se um fadista maior.

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Ricardo Ribeiro – vestido de calças, camisa e colete preto, apenas um cachecol vermelho a adornar de vaidade uma de resto sóbria figura Miguel Manso
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Miguel Manso
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Ribeiro soltou a extraordinária garganta para atacar o verso “Vou de loucura em loucura” Miguel Manso

Não tinham decorrido ainda dez minutos de concerto quando Ricardo Ribeiro – vestido de calças, camisa e colete preto, apenas um cachecol vermelho a adornar de vaidade uma de resto sóbria figura – se dirigiu ao público pela primeira vez para, num discurso trapalhão, pedir que lhe perdoassem as primeiras intervenções: “Os nervos são tantos que eu não sei o que hei-de dizer”, confessou à plateia. “Ainda me tremem as pernas”, continuou, no seu registo terra-a-terra, e o público riu-se e bateu palmas, mesmo antes de a voz do fadista brilhar graças a dotes incomuns no comum dos mortais.

Depois veio novo fado – o terceiro tema da noite, após uma introdução com cante alentejano semi-improvisado e o primeiro fado – e Ribeiro soltou a extraordinária garganta para atacar o verso “Vou de loucura em loucura”, uma daquelas orações que parecem ter sido criadas exclusivamente para quem tem um aparelho vocal que seja um portento da natureza, uma espécie de agrupamento de cordas vocais indutores do arrepio. Foi um momento de rara beleza e entre o seu discurso e o seu versejar entende-se o amor que o povo lhe tem: não há nele tiques de estrela, é um tipo com o coração na boca (ou por outra, na garganta), que a audiência – onde pontificava a fadista Mariza – vê como um dos seus; e é um tipo que facilmente deixa a voz levar-se pela emoção. É – para todos os efeitos – um puro, um “sofredor profissional”, como ele próprio se definiu, que está ali para expiar as dores de todos.

Essa naturalidade está presente em quase tudo – na decoração, por exemplo, composta apenas de cinco janelas brancas a ornar um palco despido, ou na forma como beija a testa dos seus músicos ou no à vontade com que conta como Joaquim Monchique lhe mostrou uma cantiga ou como chateou Paulo de Carvalho para este lhe fazer um fado. Mas também em pequenos esquecimentos, raros noutros profissionais, como guardar a distância exacta para o microfone de forma a controlar o volume de voz – um detalhe que não prejudicou uma actuação por demais conseguida, até porque aumenta essa impressão de autenticidade.

Com um vozeirão assim à mão, Ribeiro, volta e meia, esquece-se de o dominar – ao ponto de num par de temas quase abafar a guitarra portuguesa, a viola acústica e a viola baixo. Também se deu o caso de aqui e ali abordar com demasiada ênfase uma palavra que não pede tanto drama. De modo que é nos fados que exigem mais contenção, em que o peso das palavras se faz sentir, em que ele mede a entrega de cada sílaba, é aí que a voz de Ribeiro atinge picos emocionais extraordinários porque é aí, nos picos emocionais, que aquela imensa voz encontra palavras à sua altura.

Porta do coração é um desses exemplos, graças a um par de versos a pedir uma voz destas: “Só quem não tem coração/ é que não tem porta para dar/ entrada ao amor”. Nos dias de hoje e Soneto de mal amar foram outros fados em que o arrojo vocal de Ribeiro ganhou uma dimensão extra e ele fez juz à sua fama de sofredor profissional. Para usar uma metáfora futebolística, Ribeiro não é um daqueles jogadores profissionais que nunca esquecem a posição e dobram bem o adversário, é o número 10 que chega tarde aos treinos, anda ali de mãos nos bolsos, perde a bola um par de vezes, e depois faz uma revienga que nos deixa de queixo caído.

Ora, sendo um concerto integrado na promoção de Hoje É Assim, Amanhã Não Sei, o seu quarto álbum em 16 anos, o que nos dá uma ideia do seu processo de trabalho, o espectáculo de sábado não se deixou ficar pelo fado e serviu para mostrar mais uma vez que apesar de o fadista ser visto como um fadista tradicional na realidade ele tem mais música dentro de si. Nada que não soubéssemos, diga-se; de modo que houve lugar a canções com acordeão, com acordeão e piano, só com piano e posteriormente ainda uma incursão pela América Latina, com um par de guitarras a atacarem um flamenco e um bolero – melhor o primeiro que o segundo, mas ambos bastante apropriados para aquela voz.

Depois regressou-se ao fado para um extraordinário final, cortesia de Último Poema, mais um daqueles fados maiores que pedem uma voz como a dele e que fez com que o Coliseu – isto é, a plateia, já que os camarotes estavam vazios – render-se a um homem com uma voz abissal, sem tretas, e com o coração à vista, ali na garganta. As pessoas gostam que Ricardo Ribeiro tenha um coração tão grande assim na garganta.