Opinião

Expansão da Rede do Metro de Lisboa: poupem-nos!

Em matéria de obras públicas, é tempo de acabar com as decisões levianas.

Com grande aparato mediático, foi há dias inaugurado pelo primeiro-ministro António Costa, o prolongamento da linha Azul do Metro de Lisboa à Reboleira, concelho da Amadora.

Embora a decisão de realização desta obra não seja deste governo mas sim de um outro governo socialista, na altura chefiado por José Sócrates, esta obra é um erro em termos de planeamento da rede de transportes da região de Lisboa e mostra bem a leviandade com que se gasta dinheiro em obras públicas em Portugal.

Ora, segundo foi anunciado, a obra custou 60 milhões de euros (uma fortuna para uma extensão de menos de um quilómetro), sendo destinada a ligar a referida linha do Metro ao comboio da linha de Sintra, na estação da Amadora.

Na cerimónia, o gáudio da comitiva era patente: “agora quem sair da Reboleira de Metro chega à Baixa em 24 minutos”. É surpreendente: os passageiros que vêm de comboio na linha de Sintra são “convidados” a sair na Reboleira, apanham o Metro e demoram mais tempo a chegar ao centro da cidade que se continuarem no comboio, que leva apenas 16 minutos dali até ao Rossio. Aliás, se os passageiros alinharem nesta “conversa”, então o melhor será os comboios da linha de Sintra terminarem na Amadora; sempre se poupa a sua deslocação até ao Rossio. E isto, depois de se terem gasto recentemente dezenas de milhões de euros na reabilitação do túnel do Rossio, para melhorar a segurança da linha.

Mas as surpresas não se ficaram por aqui. Segundo afirmou na ocasião o primeiro-ministro, agora a prioridade na expansão da rede do Metro de Lisboa vai ser a linha Amarela (que, presentemente vai té ao Rato) e prolongá-la até ao Cais do Sodré, ligando-a à linha Verde, de modo a criar uma “linha circular”, antevendo que seja “o grande sistema distribuidor da cidade”.

Ora, esta opção é outro erro. O prolongamento da linha Amarela desta forma será uma obra muito arriscada e cara, já que atravessa áreas urbanas extremamente sensíveis, o vale da rua de São Bento, por baixo de edificações muito frágeis, para depois atravessar os aterros “gelatinosos” da zona da Boavista, obviamente de muito fraca qualidade.

Ainda está na memória o que se passou com a obra do prolongamento da linha Azul do Metro, dos Restauradores ao Terreiro do Paço, que, apesar de os terrenos serem incomparavelmente melhores, provocou danos na maior dos edifícios onde passa, designadamente no convento do Carmo e no convento de São Francisco (onde está instalada a Faculdade de Belas-Artes), sem esquecer o edifício do Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço, que, passados dezasseis anos, ainda continua à espera de ser reparado.

Mas, os problemas não são apenas de engenharia, são também de ordenamento. Basta olhar para um mapa de Lisboa com a rede do Metro para se constatar que essa rede está desequilibrada, abrange apenas a metade oriental da cidade. Além disso, linhas circulares entrelaçadas podem melhorar o serviço prestado, mas não aumentam o número de passageiros (e as receitas). Para haver equilíbrio espacial na cidade e o aumento das receitas, o futuro prolongamento da rede do Metro deve ser para ocidente, para Alcântara, e depois para Santo Amaro, Ajuda e Restelo, isto é, procurar novos passageiros.

Conforme venho defendendo publicamente há quase uma década, a linha Amarela deve ser prolongada do Rato em direção a Alcântara, indo por baixo da avenida Álvares Cabral e do jardim da Estrela, com uma estação no início da avenida Infante Santo, continuando sob essa avenida e rodando depois para a tapada das Necessidades até chegar a Alcântara-Terra, à zona da estação da Refer, onde deverá haver uma estação aérea, tal como foi feito no Campo Grande. Além de não haver praticamente interferência com edifícios existentes nem com o Caneiro de Alcântara, uma estação aérea é muito mais barata do que uma estação enterrada, minimizando assim os impactes económicos, sociais e ambientais.

Poupem-nos: em matéria de obras públicas, é tempo de acabar com as decisões levianas.

Engenheiro civil