Panama monkey paper, o artigo que anuncia uma nova espécie de macaco

Descobertos sete dentes com mais de 20 milhões de anos.

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Molar da nova espécie de macaco encontrada no Panamá Aldo Rincon
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Las Cascadas, nas margens do Canal do Panamá, onde foram encontrados os fósseis da nova espécie de macaco Jason Head
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Macaco-capuchinho: a nova espécie, que viveu há 21 milhões de anos, seria parecida com estes macacos actuais Kristen Grace

Macacos parecidos com os actuais macacos-capuchinhos conseguiram a extraordinária proeza de atravessarem pelo menos 160 quilómetros de oceano aberto há 21 milhões de anos, para irem da América do Sul para a América do Norte, muito antes de os dois continentes estarem unidos. Esta conclusão baseia-se na descoberta de sete pequenos dentes encontrados em escavações durante as obras de alargamento do Canal do Panamá e que permitem revelar que os macacos chegaram à América do Norte muito mais cedo do que se pensava.

Os dentes pertencem ao Panamacebus transitus, o nome científico atribuído à espécie de macaco descoberta no panamá e até agora desconhecida, cujo artigo científico (ou paper, na gíria dos cientistas) que a descreve foi publicado recentemente na revista Nature.

Naquela altura, a América do Sul estava isolada de outros continentes, tendo um conjunto de mamíferos estranhos a evoluírem, no que o paleontólogo norte-americano George Gaylord Simpson designou por “isolamento esplêndido”.

Como é que o Panamacebus transitus foi capaz de tal feito é um mistério. Afinal de contas, a existência de símios marítimos parece um pouco duvidosa. “Naquela altura, o Panamá representa o extremo mais a sul do continente da América do Norte”, diz Jonathan Bloch, conservador de paleontologia de vertebrados do Museu de História Natural da Florida no campus da Universidade da Florida, nos Estados Unidos. “Pode ter nadado, mas isto teria exigido a cobertura de mais de 160 quilómetros, uma proeza difícil de certeza. É mais provável que tenha acidentalmente atravessado numa jangada de vegetação”, acrescenta Jonathan Bloch, um dos autores do artigo científico na Nature. “Como é que estes macacos conseguiram fazer isto? Esperemos que descobertas futuras de fósseis nos ajudem a compreender melhor esta história extraordinária”, diz ainda o paleontólogo, citado num comunicado da Universidade da Florida.

Tanto quanto se sabe, estes macacos foram os únicos mamíferos da América do Sul que conseguiram atravessar a passagem marítima de águas profundas, que separava os dois continentes e ligava o Atlântico e o Pacífico, alcançando o território que hoje é o Panamá, sublinha o paleontólogo.

Embora as preguiças gigantes terrestres da América do Sul tenham conseguido chegar à América do Norte há cerca de nove milhões de anos, a maioria dos cientistas considera que o istmo do Panamá apenas se formou há cerca de 3,5 milhões de anos, permitindo então aos animais caminharem em grande número entre os dois continentes, naquela que foi uma das grandes misturas de espécies de que há registo – o Grande Intercâmbio Biológico Americano. No entanto, outro trabalho recente sobre a altura em que se formou a ponte de terra entre os dois continentes, uma questão que tem sido alvo de um debate, concluía que a América do Norte e da América do Sul se tinham juntado há mais tempo do que se pensava, tendo em conta provas dessa ligação em rochas resultantes da sedimentação de um antigo rio na Colômbia. Essa ponte, dizia essa equipa na revista Science em 2015, tinha surgido há pelo menos 13 milhões de anos. Ou seja, dez milhões de anos antes do que se calculava. Ainda assim, estes resultados não contradizem as conclusões da equipa de Jonathan Bloch, uma vez que os dentes dos macacos têm 21 milhões de anos.

Para Jonathan Bloch, saber-se que os macacos viveram naqueles tempos na América do Norte foi uma “descoberta desafiante”, porque há muito tempo que se considera que simplesmente não existiam ali nessa altura. Seria semelhante a sabermos que os cangurus da Austrália e os coalas viviam hoje na natureza na Ásia.

Os macacos tiveram origem em África e depois espalharam-se para outras partes do mundo. Os cientistas acreditam que os macacos fizeram uma viagem transoceânica até maior do que a passagem marítima entre a América do Sul e a América do Norte, talvez há 37 milhões de anos, quando transitaram de África para a América do Sul, também provavelmente em destroços flutuantes.

Os sete dentes – os maiores são molares com cerca de cinco milímetros –, encontrados em Las Cascadas, pertencem indubitavelmente a um macaco sul-americano e a sua forma mostra que o Panamacebus tinha uma dieta à base de frutas num ambiente de floresta tropical, acrescenta ainda o paleontólogo.