Metade das 15 mil queixas de espectadores da RTP foi sobre touradas

Há quem “proteste diariamente sobre o serviço que a RTP presta”, disse o provedor do Telespectador aos deputados, lamentando que o canal público esteja “sistematicamente” a perder audiências.

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No ano passado, a RTP1 não teve qualquer infracção Pedro Cunha

A transmissão de touradas pelo principal canal de serviço público, a RTP1, foi o principal assunto que motivou queixas dos telespectadores ao provedor durante o ano de 2015. Jaime Fernandes diz mesmo que há uma “militância” contra a emissão destes programas no canal de serviço público.

Das 14.935 mensagens que recebeu durante o ano de 2015 – mais do dobro das 7111 do ano anterior – 8280 foram sobre touradas, ou seja, 55% do total de queixas anual.

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O provedor do Telespectador, que está esta terça-feira ser ouvido pelos deputados da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto sobre o seu relatório de actividades em 2015, admite que na sua opinião a “transmissão de touradas não é serviço público”, e também disse aos deputados que “tem sido muito difícil consensualizar um pequeno texto que defina o que deve ser o serviço público de televisão”.

Se as touradas não cabem na definição de serviço público, Jaime Fernandes considera, no entanto, que “o futebol já cabe”. Esse é, aliás, um tema sobre o qual o provedor recebe também muitos reparos, alguns “zangadíssimos”, sobre o português escrito nos rodapés dos programas de informação e o que se lê nos programas. Acrescentou que há mesmo espectadores que se queixam sobre questões de futebol e que são “particularmente agressivos e até grosseiros”, acusando-o de “estar vendido” a alguns clubes de futebol. São sobretudo protestos sobre os programas em que se comentam os jogos de futebol.

O provedor do Telespectador prefere usar o termo “reparos” em vez de protestos, mas contou que “há espectadores que protestam diariamente sobre o serviço que a RTP presta”. Realçou que o facto interessante da sua função é constatar que “há muita gente que se interessa no bom sentido pela empresa, que gostava que a empresa fosse diferente e melhor”. Outra questão que suscita reparos dos espectadores são os horários de alguns programas e a falta de sequência da emissão de séries.

Jaime Fernandes considerou que “a defesa do serviço público só se pode fazer se a RTP, objectivamente, marcar a diferença”. No entanto, também diz que a RTP tem tido uma “grande dificuldade” em “marcar a diferença absoluta entre o que são conteúdos de serviço público e os que não são”.

Outra preocupação “acrescida” assinalada por Jaime Fernandes é com as audiências. O provedor assinalou a existência de uma “sistemática e preocupante quebra de audiências na RTP”. A televisão pública está a ficar com uma audiência “particularmente envelhecida; os jovens fogem da RTP como o diabo da cruz”. E por isso mesmo vai dedicar um dos próximos programas ao assunto, tentando perceber as razões para a quebra acentuada das audiências, registado quando a medição deixou de ser feita pela Marktest e passou para a alçada da GfK – um processo que, aliás, envolveu grande polémica entre as várias televisões.

“Não há espectadores de serviço público e de privado. Há espectadores. Se a RTP está a tentar competir com os privados, não está a conseguir, porque está diariamente a perder audiências”, insistiu Jaime Fernandes. O provedor defendeu que a RTP devia ter um canal internacional “feito como tal”, ou seja, que “não se limite a fazer uma programação perfeitamente descontinuada”, como aquela de que as comunidades portuguesas se queixam ao provedor. “Sem sequência, sem orientação, sem estratégia específica e não vocacionada para quem vive fora de Portugal”, criticou o provedor. “A RTP Internacional não é para quem viaja, mas deve ser direccionada para quem vive fora”, afirmou Jaime Fernandes. 

RTP3 “não tem grande razão de ser”

Ainda no rol das queixas está a RTP3, sobre a qual os telespectadores dizem não haver diferença acentuada em relação à RTP Informação, que a antecedeu. Jaime Fernandes defendeu mesmo que, na sua opinião pessoal, a RTP3 “não tem grande razão de ser” e que mantê-la é “gastar recursos”. Acrescentou que a televisão pública devia “concentrar recursos nos novos meios e na web – onde está a fazer um bom investimento – mas não no free to air” e argumentou ser “evidente que não há serviço público sem audiências”, mas para isso são necessários recursos e eles são escassos na empresa pública de rádio e televisão. “Interrogo-me se a melhor maneira de resolver o problema não é questionar se a RTP não terá actividade a mais.”

Questionado pelos deputados, Jaime Fernandes considerou “adequado” que a RTP esteja agora sob a tutela do Ministério da Cultura, depois de ter estado sucessivamente sob a alçada de outros ministérios. “A RTP nunca teve a tutela adequada, não em termos políticos, mas em termos práticos. A Cultura é adequada, porque tem capacidade para influenciar positivamente alguma postura da própria RTP”, defendeu o provedor. Disse ainda que a estação pública “descuida muito (…) a cultura, o património e algumas tradições” e que, por isso, vê “com bons olhos que seja uma tutela mais activa, mais presente e mais técnica do que foi anteriormente”.

Ouvintes da rádio também se queixam mais

Também a provedora do Ouvinte registou um aumento de queixas do público – mais 25% do que em 2014, num total de 791, especificou Paula Cordeiro aos deputados, mas a responsável descartou a possibilidade de isso se dever a um pior desempenho da rádio pública, preferindo acreditar antes que foi devido ao apelo à participação dos ouvintes.

O canal alvo de mais queixas (51,3%) foi a Antena 1, a rádio noticiosa do grupo público, e os temas mais frequentes foram a informação (sobretudo acerca do pretenso posicionamento mais à direita ou mais à esquerda da cobertura noticiosa); a música (pelo alegado excesso de música estrangeira, mas a provedora diz que 97% é de origem portuguesa); o futebol (uns queixam-se que há excesso, outros que é escasso, mas também por confundirem os jornalistas com os comentadores); e a falta de actualização de programas no serviço RTP Play.

O relatório da provedora foi também alvo de críticas de alguns deputados pelo tom ligeiro que usou e pela falta de informação sobre a tipologia das queixas dos ouvintes, mas Paula Cordeiro acabou por não responder a esses comentários alegando que o documento é apenas um resumo – por ser obrigada por lei – do que tenciona entregar em Junho, quando terminar o seu mandato.