Quando Sá-Carneiro mostrou o caminho a Pessoa

No deve-e-haver entre as duas principais figuras do primeiro modernismo português, o poeta de Indícios de Ouro talvez não tenha afinal dado menos do que recebeu. O documentário com que a RTP2 assinala o centenário da morte do poeta vem reequilibrar as contas.

Um século depois do seu suicídio em Paris, aos 25 anos, Mário de Sá-Carneiro ainda não se libertou inteiramente da gigantesca sombra de Fernando Pessoa, continuando muitas vezes a ser visto como o amigo extravagante do grande poeta universal, uma espécie de número dois do nosso primeiro modernismo. No entanto, se o poeta de Indícios de Oiro foi o primeiro a reconhecer a supremacia artística de Pessoa, é bem possível que nessa amizade tão criativamente fecunda para ambos, a dívida do poeta dos heterónimos a Sá-Carneiro tenho sido ainda mais decisiva do que a inversa.

Um dos méritos do documentário O Estranho Caso do Mário de Sá-Carneiro, com realização de Paulo Seabra e argumento de José Mendes, que a RTP2 estreia esta terça-feira às 23h20, é o de vir reequilibrar, através dos comentários de um bem escolhido painel de especialistas - que inclui, entre outros, Eduardo Lourenço, Fernando Cabral Martins, Richard Zenith e Jeronimo Pizarro – esse deve-e-haver literário entre os dois principais obreiros do tsunami modernista de Orpheu. Sim, Pessoa estimulou o ficcionista e dramaturgo Mário de Sá-Carneiro a tornar-se poeta, mas este, que no seu privilegiado posto de observação parisiense assistia à explosão do futurismo e do cubismo, convenceu o amigo de que a vanguarda era para levar a sério. E sem esse clique, talvez a obra de Fernando Pessoa e o seu próprio desdobramento heteronímico tivessem seguido outros caminhos.

Autor de Estética, Propaganda e Utopia no Portugal de António Ferro (2012) e de vários outros documentários, Paulo Seabra diz ter enfrentado desta vez uma limitação que não sentira em trabalhos anteriores: a de ter “pouca matéria-prima”. A vida de Sá-Carneiro foi curta – ainda não tinha feito 26 anos quando se matou –, e o que havia, em termos documentais, era um conjunto de fotografias, as cartas do autor a Fernando Pessoa, outra correspondência com familiares e amigos e, claro, a sua obra literária.

Esta relativa escassez permitiu ao documentário dar espaço e tempo à obra, com leituras, por diversas vozes, de poemas marcantes no percurso de Sá-Carneiro, às vezes acompanhadas de uma criativa e divertida selecção de imagens que quase as transforma em pequenos videoclips, ou curtas-metragens autonomizáveis.

Uma das cenas mais fortes do filme é a expressiva leitura de Eduardo Lourenço do poema Feminina, no qual Sá-Carneiro escreve: “(…) Eu queria ser mulher para ter muitos amantes/ E enganá-los a todos – mesmo ao predilecto –/ Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,/ Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…”. No início do documentário, é já Lourenço que dá o mote para uma série de comentadores que depois irão sublinhar a intensidade de Sá-Carneiro, também sugerida visualmente através das imagens de uma fornalha ardente. “É aquele que levou o mito da poesia mais longe, e morreu em função desse mito”, diz o ensaísta, observando que Sá-Carneiro “não se define por nada”, se não por encarnar a ideia da “poesia como quinta-essência da realidade humana”.

Desenvolvendo em conversa com o PÚBLICO o que defende em várias intervenções ao longo do filme, Fernando Cabral Martins nota que, ao contrário de Pessoa, “que é um homem de projectos, de vastas arquitecturas mentais, Sá-Carneiro é força, energia, intuição”. E quando essas duas personalidades tão distintas se encontram o efeito é explosivo. “A relação entre eles é muito forte, e foi naquele ricochete, naquela ponte que estabeleceram um para o outro, que começaram a passar-se coisas que só a existência desses dois pólos permitiu que se desencadeassem”, diz Cabral Martins, responsável por várias edições da poesia e prosa de Sá-Carneiro, coordenador do Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português e autor de O Modernismo em Mário de Sá-Carneiro (1997).

“E dos dois, o primeiro a ter grandes ideias é Sá-Carneiro, como a ideia de vanguarda, à qual aderiu antes de Fernando Pessoa, que era muito mais conservador”, defende Cabral Martins. “Ele estava em Paris, então a capital do mundo cultural, e teve essa capacidade de perceber que a vanguarda era a sério, e não uma brincadeira de mau gosto com a qual não valia a pena perder tempo, como na época pensaram muitos, e consegue passar essa convicção a Pessoa, que não estava de todo virado para isso."

Diferenças de velocidade

A consagração de Fernando Pessoa ao longo das últimas décadas como um dos nomes centrais da literatura ocidental do século XX, e até a circunstância de ser dois anos mais velho do que Sá-Carneiro, tornam compreensível que se tenda a presumir que o autor da Mensagem tivesse um claro ascendente nesta amizade literária. Mas é preciso ter em conta que em 1912, quando os futuros cúmplices de Orpheu se conhecem – a correspondência entre ambos inaugura-se em Outubro desse ano, quando Sá-Carneiro parte pela primeira vez sozinho para Paris –, Pessoa não é ainda o autor da Mensagem, que só sairia mais de 20 anos depois. Nem sequer é ainda o autor dos opúsculos de poesia em língua inglesa que publicará a partir de 1918, ou dos poemas que em 1915 dará a conhecer em Orpheu. Em termos públicos, é apenas o crítico que escrevera nesse mesmo ano uma série de artigos sobre a nova poesia portuguesa para a revista Águia.

Já Sá-Carneiro era, para todos os efeitos, um escritor com obra publicada. Em 1912 editara Amizade, a peça que escreveu com Tomás Cabreira Júnior – um seu condiscípulo que se suicidara no ano anterior, com um tiro de pistola, em plena escadaria do Liceu Camões (não o actual, mas o que então se localizava no Largo de S. Domingos, e do qual aparecem imagens no documentário) –, e ainda o volume de contos Princípio. E pelos finais de 1913 saíram os poemas de Dispersão e a narrativa A Confissão de Lúcio. Em vida, Sá-Carneiro publicará apenas mais um livro, Céu em Fogo (1915), e deixará inédito o livro de poemas Indícios de Oiro, que a Presença editará em 1937.

No entanto, se alguém reconheceu nesse Fernando Pessoa virtualmente inédito de 24 ou 25 anos o génio que hoje todos lhe atribuímos foi precisamente Mário de Sá-Carneiro. Quando Pessoa adere à vanguarda, “vai a uma velocidade incrível e cria coisas do outro mundo”, descreve Cabral Martins, “e Sá-Carneiro, que é uma pessoa diferente e não pode acompanhar aquela velocidade, tem a lucidez de o saber e a grandeza de não se sentir esmagado”.

O momento em que esta incapacidade de seguir a vertigem criativa do amigo se lhe torna completamente óbvia foi provavelmente o da leitura da Ode Triunfal assinada por Álvaro de Campos. Numa carta a Pessoa de 13 de Julho de 1914, escreve: “(…) sinto que nunca poderia ter escrito a ode do Álvaro de Campos porque em todo o caso não amo tudo que ele canta suficientemente para assim o fixar… Sinto menos do que ele, amo menos do que ele, estrebucho menos do que ele as avenidas da ópera, os automóveis, os derbies, as cocottes, os grandes boulevards… E eu amo isso tudo portanto de tal ânsia (…)”.

O pessoano Richard Zenith, outro dos entrevistados pelos autores deste documentário, chama a atenção para o facto de esta ser também “a primeira carta em que Sá-Carneiro fala a sério em suicídio”, referindo-se à passagem em que o poeta pergunta: “(…) qual será o meu fim real? Não sei. Mas, mais do que nunca acredito, o suicídio…”. E é arrepiante constatar que, se trocarmos “abraço” por “adeus”, a fórmula que Sá-Carneiro usa para se despedir nesta carta de Julho de 1915 – “um grande, grande abraço do seu pobre Mário de Sá-Carneiro” – corresponde exactamente, letra a letra, ao bilhete de suicídio que deixará a 26 de Abril do ano seguinte, antes de ingerir cinco frascos de arseniato de estricnina num quarto do Hotel de Nice, junto à Place Pigalle.

Cabral Martins acredita que foi também no momento em que leu a Ode Triunfal que, “em certo sentido, Sá-Carneiro percebeu que ele e Fernando Pessoa se tinham afastado: até aí estavam juntos, mas agora Pessoa tinha o seu caminho, que não podia ser o dele, porque o Sá-Carneiro não se desdobrava”.

Não escapou a si próprio

Mas ainda antes de seduzir Pessoa para as virtualidades dos movimentos de vanguarda que estavam a explodir na Europa, como o futurismo e o cubismo, a influência de Sá-Carneiro na obra pessoana já se teria feito sentir, defende neste documentário Jeronimo Pizarro, lembrando que a correspondência e a escrita do Livro do Desassossego “começam em simultâneo”, e que “a primeira pessoa que lê páginas do Livro do Desassossego na sua primeira fase mais decadentista é Mário de Sá-Carneiro”. E Pizarro, que organizou recentemente com Ricardo Vasconcelos a edição crítica das cartas de Sá-Carneiro a Pessoa, está convencido de que essa obra fundamental "talvez não tivesse existido, ou existido da mesma forma, sem o diálogo com Sá-Carneiro”.

Também Richard Zenith acha que nessa fase inicial da correspondência, em que “há uma grande troca de poemas e textos em prosa” entre ambos, “a influência de Sá-Carneiro em Pessoa é muito nítida”. A poética do paulismo, “com as suas descrições requintadas e o seu ultra-simbolismo”, vem directa de Sá-Carneiro, argumenta, mas admite que “havia ali uma troca tão forte que o que escreviam também era um pouco a dois, quer no início do Livro do Desassossego, quer noutros textos, como O Marinheiro. Zenith já tem mais dúvidas de que tenha sido mesmo Sá-Carneiro a despertar Pessoa para as vanguardas. “Sei que se diz isso, mas não sei se estou de acordo: Pessoa tinha uma capacidade incrível de estar a par de tudo o que se fazia lá fora”. E acha, de resto, que o autor de Indícios de Oiro “não estava assim tão preocupado com as vanguardas”, e que estas importavam mais a Santa-Rita e Almada Negreiros.

Se não duvida da grandeza de Sá-Carneiro, Zenith também concorda com o juízo do próprio Pessoa, que deixou escrito que o amigo era genial e tinha a capacidade de abstrair, mas não de universalizar. “Acho que está bem dito”, afirma. “Mário de Sá-Carneiro não escapou a si próprio, a sua obra é genial, mas anda sempre ali a rodar em torno do seu eu perturbado, do seu corpo, do drama da busca da beleza."

Um drama que, como se sabe, acaba literalmente com o seu suicídio, o que contaminou irremediavelmente a leitura da sua obra. O filme de Paulo Seabra não propõe nenhuma tese particular acerca do suicídio de Sá-Carneiro, mas é um tema que divide alguns dos especialistas ouvidos. Pizarro, no prefácio à edição crítica das cartas a Pessoa que co-assina com Ricardo Vasconcelos, tenta afastar-se da imagem do poeta fadado para o suicídio, considerando que não faltava a Sá-Carneiro o gosto da vida, e que o seu último gesto pode ter sido fruto de circunstâncias e contingências, e não uma fatalidade anunciada.

Cabral Martins recorda que “o tema do suicídio é muito frequente na sua obra desde o princípio”, que no fim do século XIX e no início do seguinte vários poetas e intelectuais portugueses se tinham suicidado – “havia uma aura, uma moda do suicídio” –, e que Sá-Carneiro viveu tempos “de uma violência desatada: a época das vanguardas, da revolução, da guerra”. Mas previne que “uma coisa é a literatura e outra é ele ter acabado por se matar”, e que “há aí um bypass que não se pode fazer”.

Zenith admite que o suicídio de Mário de Sá-Carneiro “tem um lado circunstancial”, como todos, mas não se deixa convencer excessivamente pelo argumento da falta de dinheiro: “Ele estava em apuros, sim, mas porque gastou rios de dinheiro nessas últimas semanas em Paris; não acredito que se tivesse mais dinheiro vivesse até aos 80 anos."