Crítica

Uma inesquecível obra-testamento de Beyoncé

Álbum e filme de uma vida, íntimo e universal, social e político: com Lemonade, Beyoncé ascende ao grupo restrito das celebridades pop que triunfa através de gestos artísticos ousados.
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Ela gosta de separar com nitidez a vida profissional da privada. Não admira. Desde a infância que as câmaras e os olhares a perseguem. Começou a pisar os palcos aos sete anos. Desde os 14, com as Destiny’s Child, que aquilo que faz gera interesse.

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Em 2003, quando já era uma celebridade global e se emancipava das Destiny’s Child, lançando o seu primeiro álbum a solo, dizia-nos que a privacidade era a faceta mais difícil de gerir em tudo o que fazia. “Sinto-me grata por tudo o que alcancei até agora, mas às vezes é duro. Quando se está comer um gelado no parque não se deseja ser fotografada a todo o momento”, afirmava então.

Na altura iniciava uma relação com Jay-Z – o álbum chamava-se Dangerously In Love – mas não mostrava interesse em comentar o assunto. Treze anos depois, quando já não é apenas mais uma celebridade, mas provavelmente a maior do circuito pop, lança um álbum em que supostamente revela mais do que alguma vez o fez na sua carreira inteira, aludindo a uma possível traição do marido, o rapper Jay-Z, e à sua superação. Fá-lo à sua maneira, controlando o que expor, mas sem deixar de ser reveladora, num disco que é também um filme.

Existe um risco. Ouvir este álbum, e ver o filme que o acompanha, como quem olha para a capa de um jornal tablóide. Seria um erro. É verdade que nunca ouvimos e vimos Beyoncé tão emocional, mas este é apenas um gesto artístico que, como quase todos, mistura autobiografia e encenação. Não interessa se o que nos é transmitido aconteceu mesmo na vida da cantora. Esse mistério faz parte do próprio processo. Interessa, sim, se aquilo que nos é dado a ouvir e a ver nos interpela, provoca, toca. Não porque Beyoncé queira fugir do acesso a uma verdade qualquer, mas porque precisamente essa é a sua forma de aceder a ela.

É um álbum, e um filme, a todos os níveis admirável. É verdade que o anterior Beyoncé (2013), também ele um “álbum visual”, já era uma respeitável obra total, mas depois de ouvido e visto Lemonade parece ter sido apenas uma espécie de aquecimento.

Mais uma vez, num tempo em que temos a ilusão de acompanhar todos os passos das celebridades, ela lança uma obra de surpresa. Por aí se pode medir o controlo que detém sobre o que faz. É incrível como é que uma obra destas – com uma ficha técnica que mais parece um filme de Hollywood – consegue ser executada no maior dos secretismos, sem que houvesse fugas de informação.

Outro paradoxo é o facto de ela, ao longo dos anos, ser vista por muitos sectores como cantora descartável, artista de canções efémeras, incapaz de exibir profundidade, e em dois álbuns visuais cria obras conceituais que se ouvem do princípio ao fim como se fossem um filme. Vamos ser claros: não existe ninguém que comunique para grandes multidões e não utilize por vezes o traço grosso. É esse o preço a pagar por quem está no seu panteão.  

A questão é que, neste momento, no lugar onde se encontra não existe ninguém a fazê-lo como ela. Basta pensarmos que Rihanna e Kanye West lançaram álbuns este ano que também pretendiam ser gestos artísticos arriscados, mas ficaram-se pelas intenções ou por uma certa baralhação. Lemonade está noutro patamar. É o álbum definidor de uma carreira, como Purple Rain foi para Prince, Thriller para Michael Jackson, Like A Prayer para Madonna ou Yeezus para Kanye West.

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É uma obra que traça uma história de adultério, decepção, zanga e reconciliação, misturando uma história individual (a de Beyonce? Ou a de qualquer ser humano na procura da transcendência e do conhecimento?) com a das mulheres negras nos Estados Unidos de diferentes gerações. Uma história de sobreviventes, mas também de quem não desiste de celebrar a vida.

O filme está estruturado a partir de excertos de poemas de Warsan Shire, ditos por Beyoncé, criando um ambiente etéreo e sulista, mas também simbólico e incendiário, dualidade de amor e ódio, fazendo recordar algumas obras de Terrence Malick.  

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Começa com Beyoncé a questionar a sua relação. “Are you cheating on me?”, interpela. Quando a infidelidade se torna evidente, protesta: "They don't love you like i love you", canta em Hold up, num refrão que alude à canção Maps dos Yeah Yeah Yeahs, seguindo-se a zanga: “i’m gonna fuck me up a bitch”, canta, de taco de basebol na mão, descarregando a fúria em tudo o que lhe aparece à frente. Mais tarde dirá: “You ain’t married to an average bitch, boy!”, enquanto em Don’t hurt yourself, com Jack White, canta de forma distorcida, como a própria música: “This is your final warning / you know i give you life / If you try this shit again / You gon lose your wife."

A canção 6 inch (com The Weeknd) é a primeira do álbum que não é directamente sobre a infidelidade, mas sobre como deter o controlo sobre a sua existência, a identidade, o negócio. E depois existe Daddy lessons, que marca uma viragem na obra, com um som pop de fanfarra a preparar o ouvinte para uma segunda parte marcada pelo perdão, pela recuperação e pela esperança.   

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A digressão emocional individual mistura-se com a experiência das mulheres negras americanas. Há mesmo um excerto de um discurso de Malcolm X (“The most disrespected person in America is the black woman. The most unprotected person in America is the black woman. The most neglected person in America is the black woman.") e ao longo do filme grupos de mulheres negras vão aparecendo, como se fossem uma frente unida de solidariedade.  

Na realização, para além da própria Beyoncé, encontramos nomes como Jonas Akerlund, Mark Romanek, Kahlil Joseph, Melina Matsoukas, Todd Tourso ou Rikayl. E na performance vemos nomes como o da tenista Serena Williams, das actrizes Quvenzhané Wallis e Amandla Stenberg, ou das mães (Lesley McSpadden e Sybrina Fulton) dos dois jovens negros que foram mortos pelas forças policiais nos EUA e que dariam origem a sublevações raciais. Também a mãe de Beyoncé, o marido Jay-Z, e a filha de ambos, Blue Ivy, surgem no final, quando a história se foca na reconciliação. O mesmo acontecendo com a avó de Jay-Z. É dela a frase que daria origem ao título da obra, quando reflecte sobre a sua vida: “I was given lemons and I made lemonade.”

Com tantos intervenientes e possibilidades de leitura poder-se-ia imaginar uma grande dispersão. Mas não. No meio de tantos estímulos fica a ideia que é ela sempre que controla, girando tudo à sua volta de uma forma tão imperial quanto vulnerável. E o mesmo sucede quando se ouve o álbum isoladamente, apesar de mesmo aí ser perceptível que estamos perante uma narrativa.

Também aí as colaborações na voz, produção e composição (Jack White, Kendrick Lamar, The Weeknd, James Blake, Diplo, Father John Misty, Jon Brion, Ezra Koenig) ou as alusões através de fragmentos sonoros ou excertos de letras (Isaac Hayes, Nina Simone, Led Zeppelin, Yeah Yeah Yeahs, Animal Collective, OutKast) são inúmeros e no entanto a coerência e a solidez mantém-se, numa obra onde é nítido o seu cunho autoral.

Do ponto de vista sonoro é obra ecléctica. Quando revela fúria (Don’t hurt yourself) existem aproximações roqueiras, ou ao hip-hop tingindo de gospel ou psicadelismo, como acontece na incendiária Freedom, com Kendrick Lamar, ou em Formation, quando assume um papel mais politizado. Quando os ambientes são mais lascivos (6 inch) há acessos ao R&B mais sombrio e na balada para piano Sandcastles canta à flor-da-pele, como Janis Joplin ou Fiona Apple, enquanto All night é uma calorosa canção pop de amor.

Lemonade é singular. É uma peça musical e visual. É uma experiência total de alguém conotada com as estratégias mais comerciais da indústria da música, mas que supera essas leituras mais fáceis. É uma ambiciosa obra-testamento. É daqueles discos que acontecem uma ou duas vezes no percurso de quem opera no centro do mercado. Parece representar o culminar de um estágio maior na sua carreira e vida. É um álbum que só visto. E ouvido.