O gesto é tudo na programação portuguesa do IndieLisboa

Num ano em que o cinema feito em Portugal tem estado muito presente internacionalmente, as escolhas do festival reforçam a dimensão de artesanato da produção.

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Campo de Víboras, de Cristèle Alves Meira
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Campo de Víboras, de Cristèle Alves Meira
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Ascensão, de Pedro Peralta
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Ascensão, de Pedro Peralta

Não está a ser nada mau ano para o cinema feito em Portugal. Já tivemos Leonor Teles a vencer o Urso de Ouro das curtas em Berlim com Balada de um Batráquio, numa edição que mostrou sete outros títulos nacionais (a curta, a partir de quinta-feira nas salas em abertura de Todos Querem o Mesmo de Richard Linklater, venceu igualmente no festival de Hong Kong). Entretanto, houve sete filmes portugueses em Roterdão, Sérgio Tréfaut, Cláudia Varejão e a dupla Karen Ackerman/Miguel Seabra Lopes estiveram no recém-terminado Visions du Réel em Nyon, e, dentro de semanas, Cannes vai mostrar, na sua Semana da Crítica, curtas de Cristèle Alves Meira e Pedro Peralta

O que é que a edição 2016 do IndieLisboa, paragem obrigatória da produção nacional e ponto de encontro e passagem para programadores e observadores internacionais, traz a esta paisagem? Uma competição portuguesa de volume assinalável  quatro longas, 17 curtas – e algumas sessões especiais (Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, passa esta segunda-feira às 18h30 na Culturgest, por exemplo) que confirmam uma certa ideia lusa do cinema como um espaço artístico activo de reflexão, livre das restrições impostas pelas regras da indústria e do mercado. Filmes feitos “contra tudo e contra todos” por cineastas que já têm nome e currículo, a par de outros que ainda dão os primeiros passos. Todos representando um desejo, uma vontade de resistir ao “estado das coisas” que é a dificuldade de filmar em Portugal. 

Mas o gesto não é por si só garante de um discurso coerente ou de um filme conseguido. E é, por natureza, único, irrepetível; pode não se transportar de um filme para outro. A curta-metragem é o formato ideal do gesto, com tanto de táctica de sobrevivência como de espaço de exploração; e se o Curtas Vila do Conde ainda é o rendez-vous nacional do formato por excelência, o Indie nunca escondeu a sua vontade de o “apanhar”. Este ano, para lá da Balada de um Batráquio, o concurso nacional mostra as duas curtas seleccionadas para a Semana da Crítica de Cannes (São Jorge, quinta, 28, às 19h, e sábado, 30, às 21h30). Que, paradoxalmente, entroncam também numa outra dimensão recorrente da actual produção nacional: a “ligação à terra” do Portugal profundo. 

Campo de Víboras, segunda ficção curta da encenadora e actriz luso-descendente Cristèle Alves Meira, usa como pano de fundo aquela aldeia do Vimioso para esboçar com assinalável elegância a história de uma mulher (Ana Padrão) aprisionada na pequenez de uma mentalidade rural. Ascensão, segunda assinatura de Pedro Peralta, é um gesto formalista em estado puro: um tour de force sem diálogo, rodado em três planos-sequência, a meio caminho entre o paisagismo metafórico e a metafísica religiosa, entre Oliveira e Malick. Em ambos os casos, o trabalho de imagem é soberbo (Rui Poças em Campo de Víboras, João Ribeiro em Ascensão), e a inteligência dos seus realizadores é evidente, justificando a atenção ao que fizerem em seguida, mas sem que o que aqui vemos possa antecipar o que quer que seja. 

No espaço dos cineastas de nome feito no formato curto, encontramos dois artistas idiossincráticos que fazem a ponte com o meio das artes plásticas e performativas. Filipa César (cujo Mined Soil venceu o Curtas 2015) continua a investigar o passado colonial com Transmission from the Liberated Zones (São Jorge, segunda, 25, às 18h e quarta, 27, às 21h45). Estreado no Forum de Berlim, é um estonteante ensaio formal, no seu habitual meio-termo entre a vídeo-arte e o documento histórico, a partir das memórias da visita de um grupo de jornalistas suecos aos resistentes da Guiné-Bissau numa missão das Nações Unidas. Não sabemos bem que tipo de cinema é este (nem instalação pura nem cinema puro), mas gostamos.  

Por seu lado, Gabriel Abrantes, “afilhado” do festival e coqueluche do cinema global não-alinhado, traz o seu filme mais interessante (e mais “cinema”) em muito tempo: The Hunchback (São Jorge, quarta, 27, às 19h e sexta, 29, às 21h30). Nesta colaboração com o britânico Ben Rivers apropria-se do conceito futurista do clássico de culto O Mundo do Oeste para criar uma meditação escarninha sobre o nosso mundo tecnológico; há que dizer, no entanto, que The Hunchback está mais próximo do díptico que Rivers rodou em 2015 inspirado por Paul Bowles do que do vale-tudo que tem sido o percurso de Abrantes, e que a juvenilia transgressiva em que este teima em insistir já perdeu a graça.

O vale-tudo é o que, ao mesmo tempo, ganha e perde a longa ensaística de Pedro Filipe Marques, O Lugar que Ocupas (Culturgest, sexta, 29 às 21h15), em nosso entender a mais estimulante das quatro longas no concurso nacional. É verdade que as expectativas criadas pela surpresa da estreia do cineasta, A Nossa Forma de Vida, pesam significativamente sobre um filme muito diferente do anterior, espécie de ensaio documental montado a partir de imagens recolhidas em camarins de teatro.

Só a ideia de filmar a cultura como uma espécie de jardim zoológico onde existir constitui já em si uma performance é espantosa; no modo como observa a dúvida constante de insistir na arte e na cultura num país que não a valoriza, há muito de interessante em O Lugar que Ocupas, que cristaliza em si essa noção do gesto artístico que subjaz a muito do cinema que se faz cá. Mas, talvez contaminado pela dúvida metódica dos actores que filma, o seu gesto metatextual de pensar o gesto em si estende-se, repete-se, entra em redundância  e nesse processo Pedro Marques perde o seu filme.

Não haverá, por isso, em toda a programação nacional do Indie gesto mais inteiro e mais português do que o filme que João Botelho dedicou a Manoel de Oliveira. Alma gémea do João Bénard da Costa de Manuel Mozos, O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (Culturgest, quinta, 28, às 14h30) assume publicamente a dívida do realizador de Os Maias ao mestre portuense e propõe, na sua primeira parte, uma “introdução a Oliveira” capaz de convencer até os mais recalcitrantes. Podemos ter dúvidas sobre a segunda parte do filme – em que Botelho ousa filmar, “à maneira do mestre” mas sem o igualar, um projecto que Oliveira nunca chegou a rodar, A Rapariga das Luvas.

Mas não há como questionar a sinceridade e a entrega de Botelho a este filme que não é documentário nem ensaio nem ficção sendo um pouco de tudo isso, marimbando-se liminarmente para as etiquetas. É, apenas, uma expressão de amor ao cinema – e, já agora, ao gesto artístico que ele implica – que, independentemente dos resultados, atravessa por inteiro as escolhas nacionais do Indie.

 

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