Vamos ter muitas saudades dele

1. Ontem, em Londres, durante uma conversa com um auditório cheio de jovens de todas as proveniências e todos os credos, Obama demonstrou uma vez mais o que significou para o mundo. Quase oito anos depois da sua extraordinária eleição, o Presidente consegue ser ainda uma esperança e uma inspiração. Teve de lidar com um mundo em desordem, mergulhado em crises e em conflitos, e redefinir em parte o papel dos Estados Unidos na cena internacional. Teve de tomar decisões muito difíceis, em que a realidade se impôs aos valores. Teve de enfrentar um clima político em Washington dominado por uma única vontade dos republicanos: já que não conseguiram fazer dele um Presidente de um só mandato, obstruíram tudo aquilo que quis mudar internamente. Enfrentou a progressiva transformação do GOP num partido dominado pelo Tea-Party, a versão americana do populismo radical a cuja ascensão também assistimos na Europa. As primárias republicanas, que seguimos quase sem ter tempo de fechar a boca do espanto, são a imagem oposta de tudo aquilo que ele simbolizou para a América e para o mundo, deixando-nos uma pungente interrogação: como é possível que o país de Obama seja também o país de Trump ou de Cruz?

2. O seu encontro com os jovens de Londres devolveu-nos a memória da sua primeira visita à Europa, em Junho de 2009, para participar em Londres na reunião do G20 e, logo a seguir, em Estrasburgo, na cimeira da NATO. Que me lembre, nunca uma assembleia de jornalistas, por sinal dos mais reputados órgãos de informação ocidentais, não conseguiu resistir a uma salva de palmas no fim de uma conferência de imprensa. Não era só o apreço por aquele Presidente, cuja eleição só por si fazia História. A diferença esteve na forma como respondeu às suas questões. Sem a rapidez de uma frase feita ou uma ideia vaga e não comprometedora, mas com o rigor e o tempo a que um raciocínio obriga. Ontem, em Londres, falando com os jovens britânicos, mostrou-lhes que as suas perguntas estavam mesmo a ser ouvidas. No seu discurso de posse, em Janeiro de 2009, tinha prometido afastar o cinismo da política. A obsessão dos republicanos contra ele acabou por gerar as sementes do que hoje são as primárias republicanas. Lá como cá, a radicalização política à direita e à esquerda (ainda que muito diferentes no seu conteúdo) está a abrir um vazio ao centro que antecipa problemas sérios com que as democracias ocidentais vão ter de lidar. Como noutros momentos da História americana, o nativismo, o proteccionismo, a xenofobia, o isolacionismo podem transformar-se em tendências dominantes. Trump foi dado como acabado mesmo antes do início da campanha, talvez porque ninguém estava preparado para ele, nem sequer o Partido Republicano. Do lado democrata, a selecção das primárias é menos controversa, mas igualmente inesperada. Hillary Clinton voltou a ser vista como imbatível, tal como aconteceu em 2008. Agora, teve de se esforçar muito para evitar uma surpresa como a anterior.

Tenho na minha estante alguns livros sobre as razões pelas quais a esquerda socialista à moda europeia nunca teve sucesso na América. Bernie Sanders não se coíbe de defender o modelo social europeu, de querer desligar a política do dinheiro, de colocar a desigualdade em confronto com a liberdade individual. A forma como atrai os jovens de todas as origens (Obama também conseguiu esse efeito há oito anos) é um aviso de que a fome de esperança por uma sociedade mais justa e mais decente é uma realidade capaz de subverter algumas certezas políticas. Mas há um traço comum nesta nova realidade americana: a visão de uma América farta do mundo, da liberalização do comércio, que não quer mais imigrantes muçulmanos ou mexicanos (não é o caso de Sanders), nem mais produtos chineses, que lhe rouba os empregos. Hillary acabará por ser a salvação, mas não poderá ignorar esta nova realidade. Ela própria sempre soube que tudo quanto parecia fácil para Bill era difícil para ela. Aprendeu a resistir a todas as adversidades e isso dá-lhe força.

3. Voltemos a Obama e à sua despedida europeia. Ficámos ontem com o retrato de um Presidente do qual já temos saudades. A sua popularidade na Europa continua altíssima. Na África do Sul, na despedida de Mandela, não houve ninguém, mas ninguém, que conseguisse disputar com ele o entusiasmo e os holofotes. Em Cuba foi a mesma coisa. Acaba de dar uma machadada preciosa nos defensores do "Brexit", sem medo das palavras para descrever as consequências. Disse aos jovens que toda a gente deve estar preparada para ouvir os argumentos dos outros, sobretudo quando são diferentes dos nossos. Foi o que fez em Londres. A frase mais dura foi direita ao que dói mais aos britânicos: fora da Europa, teriam de ir para “o fim da fila” em eventuais negociações comerciais com os EUA. Os defensores da “esplêndida solidão” britânica acusaram o toque. Boris Jonhson, o mayor de Londres e rival conservador de Cameron, com as suas originalidades sumamente irritantes e classistas, foi ao ponto de dizer que Obama era apenas meio americano, um tema que a direita radical americana utilizou até à exaustão.

4. E é aqui que chego ao pedido de desculpa que devo aos leitores. Escrevi na sexta-feira sobre a “relação especial”, que Obama teria mandado tirar da Sala Oval o busto de Churchill que Blair oferecera a Bush. No afã de ser rigorosa sobre as incompreensões de Obama sobre a Europa, deixei-me levar por um facto que afinal era falso (ver texto de Ana Fonseca Pereira no PÚBLICO de sexta-feira), que fora lançado há já algum tempo por Ted Cruz e retomado por Boris Jonhson. Bastava ter pensado duas vezes. Devo, no entanto, confessar que nunca tive tanto prazer em corrigir um erro. Continuo a considerar que Obama foi das melhores coisas que aconteceram ao mundo nos últimos tempos. Quase oito anos depois de entrar na Casa Branca, o Presidente ainda consegue manter praticamente intacto o apreço de “todos os homens de boa vontade”, como disse Pierre Hassner na altura da sua eleição. Mesmo jovem, era demasiado culto e conhecedor da História do seu país para não compreender a extraordinária grandeza de Churchill. Forjou laços de amizade com muitos dos líderes europeus. Percebe hoje melhor uma Europa onde a História continua a pesar sobre o destino dos povos. A Rainha, símbolo dessa História que ultrapassa o tempo, convidou-o para o seu aniversário, multiplicando os sinais de simpatia, mesmo os que vão para além do protocolo. A sua fotografia, curvado à altura de um príncipe George de pijama e roupão, antes de um jantar no N.º10, oferece a Cameron uma imagem mais humana e mais próxima do Presidente que ainda vive na Casa Branca. Obama vai hoje almoçar à chancelaria de Berlim (Merkel tem certamente um dos números de telefone para onde mais liga) e encontra-se mais tarde com Cameron, Hollande e Renzi. A Europa decepcionou-o muitas vezes, mas continua a ser um parceiro indispensável. Os problemas que o seu país enfrenta não são muito diferentes dos nossos. Precisamos que continue a ser uma inspiração.