Não temos Deus, mas temos a nossa imaginação

Richard Ford inventou um jornalista desportivo, mudou-lhe depois a profissão para vendedor imobiliário e fez dele um observador atento capaz de provocar o riso a partir dos assuntos mais sérios. Frank Bascombe é protagonista de quatro livros. O último chama-se Francamente, Frank

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Natural do Mississípi, onde nasceu em 1944, autor de oito romances, professor de literatura na Universidade de Columbia, Nova Iorque, é um dos mais brilhantes narradores e intérpretes da América actual James Leynse/Corbis

Richard Ford é um dos escritores mais atentos à realidade norte-americana e um dos seus melhores prosadores. No final do anos 80, inventou um jornalista desportivo, mudou-lhe depois a profissão para vendedor imobiliário, e fez dele um observador atento e crítico capaz de provocar o riso a partir dos assuntos mais sérios. Frank Bascombe é protagonista de quatro livros. O último acaba de ser publicado em Portugal. Chama-se Francamente, Frank. Richard Ford fala dele no lugar onde o escreveu.  

“Já alguma vez esteve em Boothbay?”, perguntou-lhe um mediador imobiliário. Nunca. Richard Ford foi ver a casa naquele lugar idílico do Maine e decidiu ficar com ela na mesma hora. Vive ali desde 1999, junto a uma baía rodeada de árvores. “Moro num postal ilustrado”, diz, a rir, e desfazendo qualquer ideia de sagrado que pudesse classificar a sua relação com aquela paisagem enquanto activador criativo. É ali que passa a maior parte do seu tempo. O resto, divide-o entre New Orleans, Montana e Nova Iorque. Foi ali que escreveu o quarto e último livro protagonizado por Frank Bascombe, o ex-comentador desportivo que se tornou vendedor imobiliário, personagem capaz de ler a América a partir dos seus lugares mais íntimos — as casas —, e que ganhou especial protagonismo em O Da da Independência (Presença), vencedor do Pulitzer em 1995. Francamente, Frank, assim se chama em português, o mais recente trabalho de Ford, foi também finalista do Pulitzer em 2015 e traz quatro histórias que partem do mesmo acontecimento, o furacão Sandy, especialmente violento na costa de New Jersey, onde vive Frank Bascombe. 

Em Francamente, Frank, Bascombe tem 68 anos, está reformado, mas mantém a ironia crítica dos livros anteriores para retratar o território à sua volta. O efeito do imprevisível no quotidiano, a clareza da escrita, o apurado sentido estético e de humor confirmam — como se isso ainda fosse necessário — este escritor de natural do Mississipí, onde nasceu em 1944, autor de oito romances e quatro colectâneas de contos, professor de literatura na universidade da Columbia, em Nova Iorque, como um dos mais brilhantes narradores e intérpretes da América actual. Richard Ford falou do seu trabalho, de política, dos amigos — Joyce Carol Oates, Toni Morrison, James Salter — de literatura, da relação que o liga à sua personagem mais conhecida, de como conseguiu convencer a mulher, Kristina, a ir viver com ele e deixar New Orleans, das razões pelas quais não tem telemóvel nem lê críticas ao que faz, partilhando nada mais do que o seu quotidiano, e declarando que aos 72 anos a sua urgência não é escrever, mas aproveitar ao máximo a vida, porque depois dela, acredita, não há mais nada. Uma conversa de três horas, com água e sumo de cereja, onde muito do que se disse não cabe aqui. Falemos por isso, sobretudo, de Frank Bascombe. 

Depois de Canadá, romance onde elabora sobre o conceito de normalidade, volta a Frank Bascombe. Como foi voltar a lidar com este homem?
Antes de mais ele não é um homem. É uma personagem de um livro com uma história que vem de outros livros, mas não é como lidar com uma pessoa e com os imprevistos que uma relação desse tipo pressupõe. Ele não é nada além daquilo que eu o faço ser. Tenho de ser coerente com o seu passado, mas também posso fazer com que apesar disso ele seja imprevisível. Nisso, pode assemelhar-se à imagem que temos dos seres humanos, uma vez que falamos deles como se fossem mais previsíveis do que de facto são. Fazer personagens não é muito diferente de nos imaginarmos sendo outra pessoa. Como foi escrever agora sobre Bascombe? Foi um prazer. É uma personagem com a capacidade de me absorver inteiramente e de me permitir falar das coisas mais importantes que eu conheço, não sendo eu. E há também uma coisa muito importante para mim: quero ele seja ao mesmo tempo sério e divertido.

E nisso fê-lo muito flexível.
Sim. Acho que essa deve ser uma característica das grandes personagens. Não têm fronteiras muito duras, à medida que as vamos escrevendo estamos a acrescentar-lhes definição de modo a podê-las fazer surpreendentes.

Partindo do quotidiano de Frank Bascombe fala de alguns dos temas mais actuais da América, sempre numa perspectiva crítica e desafiando o riso. Como classifica esse riso, é sobretudo irónico, cínico, sarcástico ou simplesmente humorístico? 
Não acho que o Frank esteja mais cínico. Talvez mais céptico. Cínico, para mim, é um juízo duro; cínico, para mim, significa que alguém deixou de acreditar nas possibilidades ou na existência do bem. Acho que pode ser sarcástico, pode ser irónico do mesmo modo que você ou eu podemos sê-lo na nossa existência diária. Mas eu não sou fundamentalmente irónico.

Porque diz isso?
Porque acredito no bem e no valor e eficácia da literatura. Acredito, em particular, em literaturas com uma aplicação instrutiva e prazeirosa nas nossas vidas. Acho que a vida é tudo o que temos. Não temos pós-vida. Então tento que o leitor e eu próprio estejamos o mais próximos da vida que eu conseguir. Escolhi ser escritor porque acho que o objectivo é admirável e não um objectivo irónico.  A vida é melhor quando a experimentamos de modo mais pleno e quando a entendemos melhor. Todos os meus esforços — e posso usar ocasionalmente a ironia ou sarcasmo ou exageros ou estereótipos sobre as pessoas — são para aproximar o leitor da vida. 

Prefere então usar a palavra humor para definir o que faz?
Sim, coisas que nos façam rir, mas sem nunca esquecer o que é importante. Como disse, a vida é tudo o que temos. Não temos Deus mas temos a nossa imaginação. 

A imaginação enquanto  substituto ou um sinónimo de Deus?
Sim, pelo modo como a imaginação nos permite posicionar na vida e pôr na vida alguma coisa que não estava antes. É sempre tudo no contexto da vida e dela ser tudo o que temos, tentando por isso amplificar prazeres, significâncias e a nossa experiência. 

Frank Bascombe e quase todas as personagens estão neste livro num contexto de pós-ameaça de vida. As quatro histórias ocorrem depois do furacão Sandy [Outubro de 2012] num momento de destruição.
Sim. Isso não foi um esforço. Foi muito consciente. Comecei a escrever logo após o Sandy.

Foi uma reacção?
Foi (Pausa). Interroguei-me, a partir dele, sobre consequências de coisas que sem ele não teria colocado. Consequências de grandes acontecimentos. Foi um um meio para me ligar. A grandes acontecimentos naturais, como os incêndios florestais. Ou da vida, como guerras, grandes amores, grandes paixões. Esse é o meu trabalho. O furacão foi a possibilidade que vi como capaz de ligar todas estas coisas. Tentei que nas quatro histórias, pelo menos provisoriamente, os acontecimentos fossem uma consequência do furacão, mesmo quando a relação entre os acontecimentos e o Sandy fosse muito efémera. Acho que o que leva as pessoas para a ficção é aprender o que é que causa o quê. O que causa o amor, a morte. Um dos fundamentos principais de qualquer tempo é chegar a um sentido sobre o que causa o quê. O que causa o sentimento de desespero e o de alegria; o que causa a guerra e o amor. É isso que me move. Há uma frase de Emerson [Ralph Waldo Emerson, escritor, filósofo 1803-1882] em que ele diz que a natureza não gosta de ser observada. Emerson olha o mundo natural como muito misterioso e para ele o trabalho da imaginação é sobre o que a natureza pode causar. Os grandes acontecimentos — também ou sobretudo os naturais — mudam o modo como vemos, sentimos. E são transformações nas coisas mais pequenas. 

Uma das transformações maiores está no modo como Frank vê o tempo futuro e encara essa palavra — futuro —, aos 68 anos e após o furacão.
Bem… Eu estou a envelhecer, ou melhor, eu estou velho. Uma das apreciações das pessoas mais novas ao olhar para um livro como este é ver nele um livro sobre o envelhecimento, mas para mim não é sobre isso. Não estou estou a envelhecer mais depressa agora do que estava com a sua idade. Não é sobre isso. É sobre viver. Estou tão vívido hoje como antes, mais cheio de energia do que há 35 anos. Talvez se estivesse doente ou falido fosse diferente, mas tal como estou não penso na idade.

A ideia de fim, para quem não acredita noutra vida ou num Deus, não pesa no modo como vive ou escreve, não o faz, por exemplo, ter mais urgência na escrita?
Como escritor, não. Se não escrevesse mais nada ficaria muito contente na mesma. Acho que fiz bons trabalhos na minha vida e isso fez-me muito feliz. A idade faz-me sim ter urgência em ter mais prazer. Preciso de ter experiências mais intensas, de viver a vida, como se costuma dizer. Perante a pergunta meio tola “pensa que vai morrer amanhã ou que vai viver para sempre?”, acho que vivo como se fosse morrer amanhã. 

Criou Frank Bascombe com uma idade muito próxima da sua…
Sim, é um pouco mais novo.

Quando o criou pensou num alter-ego, ou em alguém com quem partilhasse o mesmo tempo numa geografia muito próxima para que isso lhe permitisse falar da experiência de viver nesse tempo e nesse espaço? 
Ao ter a mesma idade, queria que ele tivesse familiaridade com as coisas que me são familiares. Queria que vivesse os períodos da história que eu vivi, que tivesse pensamentos sobre a vida que não fossem os meus, mas cujos temas ou consequências me fossem familiares. Não sei bem o que é um alter-ego. Porque haveria de precisar de um?! Não preciso de um alter-ego. Para mim, escrever não é uma coisa muito pessoal. Escrever é algo que faço para as outras pessoas e eu sou o utensílio. Pode-se sempre dizer que Frank é um alter-ego, mas nunca serei eu a dizê-lo. Frank é um instrumento verbal através do qual eu tento fazer o trabalho da literatura. 

Ele é um observador…
Melhor do que eu. 

E um vendedor de casas, o que lhe permite ter um conhecimento íntimo dos outros.
Sim. Não pensei nessa profissão a não ser numa fase já avançada da ideia desta personagem. Em 1992 cheguei à conclusão de que iria escrever outro livro sobre ele [depois de Jornalismo Desportivo, Teorema, original de 1995] e que seria O Dia da Independência. Achei que lhe devia dar uma nova profissão. No livro anterior ele era um jornalista desportivo e eu não tinha mais nada para escrever sobre o tema, então tentei procurar para ele uma profissão que fosse plausível, que fosse possível de se ter quando se quer mudar de vida, que lhe desse independência monetária. E uma coisa que surgiu um pouco mais tarde: que tivesse um vocabulário no qual eu estivesse interessado. O facto de ele ser um observador de casas onde vivem pessoas, e das suas vidas, deu-me a possibilidade de falar de economia, de governação, de temas sociais. Não pensei que isso fosse acontecer. Depois de ter recomeçado a escrever em 1999, após uma paragem, o meu objectivo foi escrever livros que estivessem cheios, plenos, no sentido de estarem comprometidos com tudo o que eu fosse capaz de fazer enquanto escritor. Frank foi muito útil nisso, porque pode conter, pela sua inteligência e nas suas respostas, todas as coisas que acho interessantes no mundo.

Muito do que se escreveu sobre O Dia da Independência foi no sentido de o classificar como uma espécie de grande retrato social da América…
Acho que é. Não sei se pretendi fazê-lo assim, mas pode ser usado enquanto tal. É sobre uma eleição e sobre economia e de como as pessoas vivem as suas vidas no dia-a-a-dia, é sobre o casamento, sobre criar filhos.

A classe média na América.
Sim.

Volta à classe média. A uma espécie de colapso ou um aperto em que a classe média vive na América…
São sobretudo europeus quem me fala disso (pausa). Estou velho e tenho dinheiro por isso vivo muito bem. Talvez não seja tocado pela questão da classe média. Não sei. 

Mas Frank sabe.
Sim, ele sabe e eu estou atento às pessoas. Leio muito, ando pelo mundo, convivo com todo o tipo de pessoas, mas quando se compara o nível de vida da maior parte dos americanos com o da maior parte da população mundial, vê-se que vivemos muito bem por aqui. É muito difícil para mim entender a noção de colapso da classe média. Percebo que é o que os políticos andam a dizer para se fazerem eleger. Sei que há uma franja da sociedade americana que sente que não é recompensada pelos seus esforços e creio que isso é verdade. É o que faz, por exemplo, com que muitas pessoas votem em Donald Trump. Sentem que têm sido esquecidas, que as promessas do Ronald Reagan nos anos oitenta não as abrangeram, e provavelmente isso é verdade. E há uma enorme disparidade neste país, não apenas a óbvia entre ricos e pobres, mas entre os ricos e a classe média. Isso é um problema da distribuição de riqueza neste país. Mas não acredito que a classe média esteja a colapsar. Está, talvez a mudar. Talvez a passar por um enorme stress, mas não a colapsar.

O sonho americano…
É um termo que apenas os europeus usam. 

Ele está neste livro.
Sim? Onde?

Diz Frank sobre uma personagem: “Escusado será dizer que não gosta do Obama e lhe atribui a culpa de ter atirado para a merda o sonho americano ao criar uma ‘década perdida’ quando se tratava de ‘os pequenos se aguentarem’. ‘É um tipo bastante simpático’ — referindo-se ao Presidente —, ‘mas não estava preparado para assumir o papel…’ Olarila, olarila, olarila”
Ahhh, sim. É sobre Buck. É uma personagem que usa essa frase como um cliché sem saber que é um cliché, e Frank refere-se a ele de modo depreciativo. Frank zomba da ideia do sonho americano porque eu também escarneço dele porque não acredito que esse sonho seja diferente do sonho chinês ou português, ou islandês. É o sonho de uma vida melhor, de que os filhos possam crescer e ser felizes e seguros e que haja dinheiro suficiente para alimentar a família. Isso não é um sonho americano. É um sonho humano.

É a segunda vez que se refere a supostos clichés que os europeu usam para falar da América. É falsa a imagem da América na Europa?
Os europeus gostam de compor a sua versão da América. Gostam de apontar o dedo e dizer: “isso, o sonho, não está a correr muito bem, pois não?” Do meu ponto de vista o sonho está a funcionar melhor do que vocês pensam. O que não está a correr nada bem é a Palestina, e o Congo. Nesses lugares é que o sonho não está a funcionar mesmo nada. Quando os europeus me dizem que o sonho americano não está a funcionar eu digo: calem-se! (Risos) Falem-me então do sonho das pessoas que vivem na Somália. Não significa que o sonho português, ou holandês ou dinamarquês não esteja funcionar. Talvez, sim, talvez não. Mas nesse mais ou menos não significa que a vida seja menos vida, ou que a vida seja menos preciosa, que tentemos todos os dias ser úteis, fazer o mundo melhor para os que vivem nele, tentar que sejamos mais felizes nele no tempo que nos é dado e para os que vêm depois. nestes países ainda existe essa possibilidade. A ideia do sonho americano é para mim nada mais do que uma treta.

Voltemos ao humor crítico de Frank. 
Muita gente não gosta do Frank. Muitas pessoas que lêem os livros onde ele é protagonista dizem-me que não gostariam de o conhecer. 

Porquê?
Precisamente porque ele é muito crítico. Porque não encaixa nos estereótipos raciais e de classe. Porque não é muito bom pai e não é muito bom marido. Não gosta dos seus filhos de forma extremada. Nem sequer é muito simpático para alguns amigos, muitas vezes nem os suporta. Algumas pessoas dizem-me isso, que não gostam muito dele. O que é que isso importa? Leram, leram tudo? Então pronto, leram. Ele é só uma personagem, é um meio de eu usar a linguagem para chegar aos leitores, ligar-me a eles, provocá-los, faze-los rir. De si mesmos, também. Fazê-los chorar. Gostar dele ou não significa para mim menos do que gostar mais ou menos do meu vizinho do lado.

Tem falado da linguagem e do modo como a manipula para chegar a um objectivo. 
Dificilmente sei o que vou dizer até começar ou até tê-lo dito. Tenho uma espécie de regra que vem de um crítico canadiano chamado Northrop Frye [1912-1991]: a literatura é o uso desinteressado da linguagem. E desinteressado (disinterested] é uma palavra que tem de ser definida com cuidado em inglês. Não significa sem interesse, mas imparcial. Quando escrevo uma frase, posso mudá-la, alterar o verbo, o objecto a que se dirige, e muitas vezes os adjectivos e os advérbios. Não para tornar a frase mais esperta ou jeitosa para representar o que quero dizer mas para chegar a um resultado de que eu goste assim meio de repente sem saber bem o que iria resultar. Se eu gostar deixo-a estar, não importa o que ela disser. Num dado dia, ou momento em que estou a escrever, frase após frase, raramente sei o que vou escrever a seguir. Não é caótico porque sei o contexto, sei quem está a falar com quem, sei qual é o assunto, sei o que se passou antes e onde quero chegar a seguir. Não é um caos, é estar constrangido às mesmas regras que nos constrangem quando estamos a falar uns com os outros. 

Tem dito muitas vezes que é um escritor lento. Tem a ver com esse trabalho da perseguição da frase boa? 
Sou lento porque não tenho mais nada para fazer. Faço isto há quase 50 anos. Eu não penso muito depressa e não leio muito depressa, então não escrevo muito depressa. Acho que escrevo para pessoas tão lentas quanto eu. Escrevo para que a peça literária seja vívida e essencial para alguém e para que esse alguém tenha prazer. Quero que as minhas frases dêem muito prazer a quem as ler. Se fizer isso mais depressa não será nem de perto tão bom. E, de facto, não tenho mais nada para fazer. Não tenho outro trabalho, nem estudantes a aparecer em casa. Não tenho.

Mas tem alunos. É professor de literatura.
Sim, e também fui aluno. Fui para a universidade pelas mesmas razões que vão muitos candidatos a escritor. Quis-me dar dois anos para perseguir os meus desejos. Pagaram-me para ir para a escola, eu queria aprender literatura, queria estar perto de outros escritores. Era novo, tinha 24 anos e queria ver como era, o que seria ser escritor. Não há uma descrição desse tipo de ofício, não é bem uma profissão na América. 

O que se aprende e o que se pode ensinar? 
Eu não ensino as pessoas a escrever, por isso não sei. Lemos os ensaios de Emerson, lemos V. S. Naipaul, Walter Benjamin, lemos coisas muito boas. O meu grande desejo enquanto escritor é que os meus alunos levem o seu trabalho muito a sério, que a sua escrita seja o mais inteligente possível, que seja provocadora, formativa, que esteja comprometida com as coisas mais importantes do mundo e para os encorajar a fazer isso ponho-os a ler quem faz isso.

Frank fala de ser honesto, verdadeiro no que faz. O que é ser honesto em literatura?
(Pausa) Não sei bem. Acho que significa que o trabalho que faço, o que escrevo, deve encontrar um lugar na vida do seu leitor e ser coerente com a minha convicção de que a vida é tudo o que temos. Quase tudo o que escrevo tem uma matriz que diz “tenta fazer com que esse tudo que temos — e que é a vida — seja melhor”. E isso não está numa frase bonita, gloriosa, que coloquemos numa página, mas no conjunto do trabalho. 

Emerson tem estado muito presente nos seus livros e neste parece-me ainda mais…
Talvez por este livro ser mais pequeno [risos]… Mas talvez esteja mesmo mais presente. Emerson é um deísta e credita que há uma espécie de poder maior, uma espécie de Deus. Eu não. Mas para escrever sobre a nossa relação com Deus põe grande ênfase no nosso quotidiano e, para mim, isso é um modo de dignificar o quotidiano. Ele não acredita que isso é tudo o que temos, mas crê que é tudo o que temos enquanto estamos vivos. Apesar de divergirmos nesse depois, acreditamos que o que fazemos aqui importa, o que pensamos e como isso afecta os outros importa, e ele escreve isso num inglês muito preciso e bom.

Frank recorre a Emerson para expor a sua opinião de que o silêncio desconfortável pode ser perfeito”, que é uma espécie de sussurro dos deuses”. Parece-me ser também uma opinião do Richard Ford.
Sim. Emerson diz qualquer coisa como: sejamos silenciosos para conseguir ouvir o sussurro dos deuses. Eu gosto de silêncios desconfortáveis. Tive um professor que adorava e ele por vezes fazia perguntas desconfortáveis perante as quais ou ninguém sabia a resposta ou ninguém sabia bem o que dizer. Então ele punha as mãos na mesa [imita o gesto de quem se debruça de pé na secretária e olha em frente com um suspiro de desalento] e tínhamos um longo silêncio. Como professor, não tenho a paciência que ele tinha. Fico impaciente. Não quero que eles digam apenas a resposta certa se não a souberem, mas que digam alguma coisa, que avancem com o discurso. Mas os actuais estudantes nos Estados Unidos não fazem isso muito bem.  

Porquê?
Não sei. Posso dar muitas razões, mas não são bons no discurso. Dou umas aulas na Irlanda e eles falam quase sempre demais. Não têm este problema. Eu exponho-me e gostava que eles me devolvessem isso. Claro que sou mais velho e isso ajuda, mas…

V. S. Naipaul é outro autor muito presente neste livro. 
Sim. Frank brinca com a sua biografia. Nunca ouvi ninguém dizer que ele fosse uma pessoa simpática mas é um escritor brilhante. A Curva do Rio, Mr. Bishwas são livros fantásticos e não são difíceis, nem aborrecidos. Ele lembra-me o Graham Greene. Não é um herói meu, mas um modelo para mim no sentido em que está comprometido com o que faz e sempre com um resultado muito elevado.

Uma das coisas que partilha com Frank é ter vivido em muitos estados deste país. 
Sim, e na sexta-feira comprei outra casa. Tenho mesmo uma paixão por casas. Cresci sempre a mudar de sítio.

Nasceu no Mississippi…
Sim, mas cresci no Louisiana e nos Arkansas e fui para a universidade no Michigan. Ja vivi em dez casas, não sei em quantos estados. Mas se crescer onde eu cresci, no Mississippi, que é muito paroquial, vai deparar-se com tantos absurdos… Um deles é o humor. O humor do sul é assim por razões que acho que sou capaz de entender. É auto-dilacerante, é por vezes maroto, tem muito a ver com a natureza e com as questões sociais, e acho que tudo isso é causado pelo racismo. Um livro como Absalão Absalão [Porto Editora], onde Faulkner tenta escrever sobre racismo e miscigenação, história, guerra, relações de escravatura, é tão impressionante e demonstrativo de como esse exercício é terrível… Como é que uma raça, no tempos modernos, subjuga outra raça? A enormidade do racismo e da escravatura é tão desprezível e indescritível que tentar uma aproximação ou viver nesse contexto nos faz virar contra nós mesmos. Estar perante este tipo de humor absurdo, praticá-lo, no sentido em que ele deve ser feito para divertir, é uma espécie de grito de ajuda.

Como é que se sobrevive a esse humor, se é que se sobrevive, sendo de lá?
Indo embora. Eu fui. Tinha 18 anos. É um humor que tenta expressar o que não tem expressão. Tive sorte porque os meus pais não era racistas. Cresci entre negros, eles estavam a minha volta, e não me tornei racista nem fui tocado por essa maneira de olhar o mundo. Quando vim para o norte foi uma espécie de libertação. Quando estava a crescer no sul, eu tinha consciência de que vivia num sítio mau, que vivia no pós-escravatura onde o ódio estava muito presente, e nesse sentido, aquele não era um lugar muito real, tinha sido muito afectado pela escravatura e pela guerra civil. Quando cheguei ao norte foi como se o mundo se abrisse para mim. Achava que a verdadeira América não era onde eu vivia, que a verdadeira América era Nova Inglaterra, Chicago e o Pacífico Norte, onde havia árvores e a água era transparente. Ir para o Michigan aos 18 anos foi maravilhoso. 

Mas volta sempre ao sul.
Sim, porque posso. Quando Thomas Wolfe diz que não se pode voltar a casa, isso não é verdade. Pode-se. Mas vou em condições que controlo. Vou, mantendo a minha visão do mundo. Não posso ir e sentir-me constantemente em perigo. Sei que ir embora não foi uma coisa valente de se fazer. Foi, de certa forma, uma cobardia. Ficar teria sido corajoso, defendendo lá os meus princípios e promovendo-os. O que fiz, ir embora, foi fácil. Só tive de apanhar o comboio. 

Estamos em ano de eleições. Na sua opinião quais são os grandes temas que deveriam estar a ser discutidos pelos candidatos? 
A desigualdade de rendimentos, a nossa relação com os problemas globais da imigração. Ou seja, os movimentos de pessoas pobres ou em fuga do terror desde as suas terras de origem, ou de bandeira, em direcção a outros lugares onde sentem que podem ter uma vida melhor. Isso vai causar alterações sociais, claro que vai. Mas é preciso tentar acomodar estas pessoas que não têm o que precisam nas suas terras — água, saúde, mobilidade, ensino possibilidade — e encontrar nas nossas sociedades, onde queremos preservar valores essenciais que as definem, uma convivência capaz de tolerar a diferença. Pensar, ‘ok, este é o meu país, é aqui que vivo, vocês podem entrar e talvez eu não possa esperar que vocês vivam exactamente como eu, mas gostava que fossem preservado neste país coisas de que gosto, como a liberdade de expressão, igualdade de direitos…”

Frank é, politicamente, um democrata, ou um liberal.  É outro traço comum entre a personagem e o autor?
Sim, não sou um republicano.  

Como e que Frank definiria Donald Trump?
Oh, ele definiu o Chris Christie [Governador de New Jersey] como um “grande inhame caramelizado”. Acho que não seria muito diferente, de forma desprezível.

Ao olhar o horizonte, a partir da costa de New Jersey, Frank pensa: “Nada entre nós e o paraíso, para além de Portugal.”
Ahaha… É só o Frank, não eu, a ser sarcástico.  Nunca estive em Portugal por isso não posso fazer apreciações grosseiras sobre o país.

Disse-me que está a escrever uma memória sobre o seu pai.
Sim, escrevi uma sobre a minha mãe três anos depois dela morrer, nos anos oitenta. Gostei do resultado e achei que precisava de escrever um ensaio sobre o meu pai. Mas o meu pai morreu quanto eu tinha 16 anos. Quando pensei nisso eu deveria estar nos meus quarenta e nem sequer me lembrava muito bem do meu pai para escrever uma memória sobre ele. E quando ele era vivo, estava quase sempre fora, a trabalhar. Desde então passaram trinta anos e eu fui tomando notas, como faço sobre quase tudo. Escrevo e guardo-as num envelope, tudo muito caótico. Quando terminei Francamente Frank não tinha nada especial para escrever e tinha um envelope cheio de notas sobre o meu pai. Olhei para elas uma vez, mas não consegui encontrar um modo de dar coerência àquilo. Voltei a pô-las de parte, até que há cerca de um ano, em Janeiro de 2015, sentei-me no meu escritório e forcei-me a ficar ali até escrever. Está escrito. Assinei o contrato ontem.

E como foi lidar com essa memória?
Não me pôs triste, mas deixou-me num estado tumultuoso. Levou-me dois meses a escrever. Foi rápido. Não é muito grande. Acho que o sucesso de um texto literário depende inteiramente do modo como estou preparado. Eu tinha muitas notas, muito material. Pela primeira vez escrevi apenas no computador. Acho que não teria paciência de o escrever à mão como faço sempre nas primeiras versões. Gostei de o fazer.

Já tem título?
Acho que lhe vou chamar Between Them [Entre Eles] Há uma fotografia dos meus pais quando eu era bebé, a segurarem-me. Eles eram maravilhosos e amavam-me, era o seu único filho, mas eles amavam-se mais um ao outro. Eles não gostavam menos de mim, mas gostavam mais um do outro, e eu gostava muito disso neles. Não fingiam que eu era a coisa mais importante que aconteceu nas suas vidas. Quiseram muito ser pais e durante 15 anos não conseguiram ter um filho. Quando eu nasci, a minha mãe tinha 35 anos e o meu pai quase 40 e eles tinham sido felizes sem esse filho. Viajavam, tinham dinheiro. Eu chguei, eles ficaram muito felizes, mas acho que nunca se adaptaram, nunca foram realmente pais. Eles eram quem eram e tiveram-me. Mas eu estava entre eles. Eles estavam acima de tudo.