Muitas histórias e uma Estónia improvável no filme de Marcelo Felix

Marcelo Felix encadeia uma série de metaficções (ou metadocumentários?) numa experiência que procura criar algo de genuinamente novo. E que é partilhado com o espectador.

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FOTO: Nuno Ferreira Santos

Se há um filme no concurso nacional do Indie que resiste a qualquer catalogação ou sequer sinopse, é Paul. A segunda longa-metragem de Marcelo Felix, depois de A Arca do Eden (2011, estreada no DocLisboa desse ano mas nunca mostrada comercialmente), é um projecto onde a pulsão documental inicial – à volta da siderurgia e do desaparecimento dessas estruturas industriais – se metamorfoseou numa série de “bonecas russas”. Paul é uma espécie de “toca do coelho” onde imagens aparentemente documentais revelam um fundo ficcional e vice-versa, onde os filmes que uma tradutora vai legendando parecem “contaminar” a sua realidade (ou serem contaminados pela realidade dela), encadeando metaficções num “catálogo de possibilidades” ou de “fragmentos”, nas palavras do realizador.

“Parte do que me leva a fazer estes projectos é tentar ver coisas que raramente vejo no cinema,” explica ao PÚBLICO Felix, cineasta para quem a expressão “cerebral” parece ter sido inventada. “É um convite para entrar num modo de desconstrução, ao mesmo tempo que existe nesse modo dum reconhecimento da própria expectativa pessoal do espectador. Demorei algum tempo a cimentar uma chave para a minha necessidade de me relacionar quer com o documentário, quer com a ficção, e não me ocorre tentar perceber quais são os pontos importantes, se é ensaio, documentário, falso documentário, ficção aberta para todos os lados.”

Embora rodado em Portugal (com o orçamento de uma curta-metragem), Paul é inteiramente falado em... estónio, língua onde os “filmes dentro do filme” parecem decorrer. A opção decorre do próprio fascínio de Felix pelo cinema da antiga URSS, onde a vanguarda artística chocou de frente com a submissão ideológica, numa situação que ressoa na personagem de um operário vidreiro cujo talento artístico o coloca numa “espécie de má consciência em relação aos seus sonhos – alguém que domina aquilo que faz mas não tem grande prazer no que faz”.

O facto de Paul nunca esclarecer verdadeiramente o que se passa nas suas múltiplas realidades reforça o estatuto de ambiguidade do projecto, uma dimensão lúdica no explorarde caminhos que não foram tomados ou algo que pode ser uma projecção da própria tradutora, explica o seu autor. “Os filmes são uma possibilidade de Estónia cinematográfica que é improbabilíssimo que tivesse tido realmente lugar. Há uma ideia de precariedade, de cerco a mundos que são frágeis, onde há uma ordem qualquer que não existe mas tem de ser procurada...”

É uma procura que Felix deixa ao critério do seu espectador, em absoluta liberdade. “Não é uma questão de convencer ou seduzir o espectador, é uma questão de partilhar – de criar um desafio, um efeito que seja capaz de o interessar por algo que não sabemos de onde vem nem para onde vai nem como é que acontece. Basta-me saber que existem, e estão ali, filmes bastante misteriosos, coisas que me deixem a pensar e que ao mesmo tempo me dêem prazer.”