Opinião

Podem os hábitos alimentares influenciar a alteração climática?

Paremos de usar as políticas (ou a falta delas) para justificar os 60% de emissões atribuídos aos consumidores.

Este ano o dia internacional do Planeta Terra tem duplo significado. Relembra os riscos que todos os dias infligimos ao planeta e marca a data a partir da qual o acordo estabelecido em Paris, de impedir um aumento do aquecimento global superior a 1,5°C, em relação ao nível pré-industrial, passa a vigorar. No entanto, este acordo só poderá entrar em vigor se a adesão for assumida, no mínimo, por países responsáveis por 55% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa (GEE). Isto significa que os diferentes países terão de propor medidas de mitigação que permitam a redução das emissões em pelo menos 40% até 2030. Para além destas, com reflexo global, deverão ser desenvolvidas estratégias de adaptação, com e para a sociedade, para minimizar os efeitos das alterações climáticas.

Os portugueses identificam as alterações climáticas como problema ambiental futuro, concordam com a necessidade de se investir nas energias renováveis, mas mantêm um comportamento evasivo para justificar e manter estilos de vida e de consumo. A sociedade, cada vez mais urbana, vive refém da comodidade de uma certa qualidade de vida. Desenvolve um discurso “verde” superficial, do politicamente correcto, ao assumir que usa lâmpadas amigas do ambiente, que utiliza mais os transportes públicos e ao colocar o ónus no governo para legislar e regular em prol da redução das emissões de GEE.

Importa, porém, lembrar que o “problema” das alterações climáticas e suas consequências para o planeta não está apenas relacionado com a questão energética e de transportes. É mais complexo do que isto. A estabilidade futura do planeta para o homem depende do tipo de energia que se usa, sim, mas também da segurança alimentar, da qualidade da água e da sustentabilidade ambiental. Ou seja, a agricultura e as alterações climáticas, assim como a segurança alimentar e a quantidade de proteína ingerida estão indissoluvelmente ligados. Por isso, as medidas de adaptação a implementar não podem omitir as questões ligadas à produção de alimento e aos hábitos alimentares.

Durante o séc. XX o homem duplicou a produção vegetal à custa da introdução maciça de azoto e fósforo, aumentou a proporção de animais domésticos (175 milhões de toneladas de carbono) em relação aos animais selvagens (5 milhões de toneladas), utilizou 11% da superfície terrestre para a produção agrícola e projecta aumentar (1,4%) a ocupação de solo para a agricultura até 2030. Em termos de actividade, só a produção de carne e o seu processamento representam 45% das emissões de GEE. No entanto, pouco se relaciona a produção de alimento, e consequentemente as actividades agrícolas e pecuárias, com as alterações climáticas.

O problema não está em saber, mas sim no que fazer com este conhecimento. Nos países desenvolvidos ingere-se cerca de seis a sete quilogramas de azoto proteico per capita quando o aconselhado é quatro. Por isso, diversificar a dieta e diminuir a ingestão de proteína animal reduz o risco de incidência de doenças cardíacas e cancerígenas para além de minimizar a quantidade de emissão de GEE, decorrentes da produção pecuária. Ajuda ainda a diminuir a taxa de pessoas obesas que é já um problema de saúde pública. Por outro lado, procurar produtos locais da época e não tanto exóticos, do outro lado do mundo, diminui o impacto ambiental negativo dos transportes comerciais de longo curso. O desenvolvimento de técnicas agrícolas de conservação de solo pode aumentar a produção de alimento com vantagens óbvias para a segurança alimentar e qualidade dos produtos. Combater, ainda, os desperdícios pode permitir alcançar índices globais de desenvolvimento mais sustentáveis: actualmente cerca de 30% de todo o alimento produzido é desperdiçado. Os GEE decorrentes correspondem a 3,3 mil milhões de toneladas de CO2 ao ano. 

Paremos, por isso, de usar as políticas (ou a falta delas) para justificar os 60% de emissões atribuídos aos consumidores. Terá de ser o cidadão a assumir a mudança para promover efeitos globais e inter-geracionais. Só quando existir vontade de alterar radicalmente o estilo consumista se poderá reduzir a pressão exercida sobre o planeta e permitir maior equidade social. Seremos capazes de mudar os hábitos alimentares e assumir este compromisso perante as gerações vindouras? Esta é a grande questão.

Bióloga. Professora Catedrática Universidade de Lisboa

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