Editorial

Cala-te, Sócrates

Alguma cerimónia a comentar a vida portuguesa fazia bem a todos. A Sócrates e aos portugueses.

José Sócrates tem todo o direito a usar o espaço público para contestar o processo judicial no qual é arguido, dando entrevistas a rádios e jornais, e publicando artigos de opinião. Podia até ter um blogue pessoal.

É apenas lamentável que não faça uso de um freio mínimo para conter os mil pensamentos que tem sobre a actualidade política portuguesa.

Não se trata de não ter legitimidade para o fazer. Este é um país livre, onde a liberdade de expressão é sagrada. Trata-se de um pudor, de uma certa cerimónia, que o antigo primeiro-ministro está decidido a não praticar.

Esta quinta-feira, José Sócrates voltou a falar a uma rádio sobre tudo e mais alguma coisa, como se nada tivesse acontecido na sua vida e atrás do microfone estivesse apenas um ex-primeiro-ministro tornado comentador político. Ficámos a saber a opinião de Sócrates sobre o perfil ideal de um Presidente da República; sobre o que teria feito se tivesse ficado em segundo lugar nas eleições legislativas; sobre os Panama Papers, e até sobre a aprovação da desblindagem dos estatutos dos bancos.

Em 2007, Juan Carlos perguntou a Hugo Chávez: “Porque não te calas?”. Hoje, perguntamos o mesmo a Sócrates, com um asterisco: porque não limita a intervenção na esfera pública ao seu caso judicial? Ganhávamos todos. Os seus fiéis seguidores (que não o viam neste papel artificial e desacreditado), os seus arqui-inimigos (que não ganhavam munições para o atacar) e sobretudo todos os portugueses que, simplesmente, gostavam que Sócrates aceitasse que este não é o momento para fazer de conta que o Sócrates de hoje é o Sócrates de ontem. Isto não é condenar antes de tempo. Nem é exigir uma auto-reclusão, como se um arguido tivesse de se auto-congelar no tempo. Isto é pedir bom senso. Nestas entrevistas aparentemente banais, não há nada de banal. E todos notamos.

Não deixa de ser irónico que, ao microfone da Antena 1, Sócrates tenha criticado Marcelo Rebelo de Sousa por ter “transformado” a presidência “neste alvoroço”. O Presidente da República “deve ser mais reservado”, disse Sócrates, “deve ter um gravitas político um pouco mais distante e não aparecer na televisão todos os dias a comentar os mais diversos assuntos”. Um bom conselho.