Torne-se perito Opinião

Mea culpa sim, guilty pleasure é que não

Recusei, liminarmente, Showgirls, em 1995. Filme de bola preta!

Não fiz trabalho de luto, depois, nem trabalho de culto. Não senti necessidade de resgatar Verhoeven. Não tirei conclusões do "In America everyone is a gynecologist" sobre o cineasta Paul (embora a frase tenha hoje outra ressonância e por isso a ela voltarei): o tits and ass pareceu-me simplesmente básico e sem instinto, calculista, apenas.

Dois anos depois encontrei, sem ressentimento ou preconceito algum, o "meu" Verhoeven, Starship Troopers (Soldados do Universo), filme que me pareceu inacreditável ter sido feito em Hollywood - só o realizador parecia saber que estava a filmar uma aventura intergaláctica militarista e fascista contra o militarismo e o fascismo e ninguém, nem estúdio, nem actores, se tinham dado conta disso. Era um filme que estava "contra" em cada plano, por isso ainda se vê com tanto prazer e igual desconforto.

O Livro Negro (2006), filmado já no regresso do cineasta à Holanda natal, tinha um fôlego de fresco político céptico, horrorizado e desopilante que rimava com o anterior filme dos insectos, das fardas nazis e dos adolescentes perfeitos e assexuados. Tínhamos cineasta, para quê tentar justificar o acidente chamado Showgirls?

Nunca me dei conta, por isso, que Nomi Malone/Elizabeth Berkley com o seu "It's a Ver-sayce" em Las Vegas estava a ser resgatada do ridículo pelo guilty pleasure "tão mau que é bom!" (ou estava nele a ser encerrada).

Vinte anos depois - há três semanas - voltei a encontrar Showgirls. Depois da revisão e/ou descoberta dos filmes da fase holandesa: o Delícias Turcas (1973) sobreviveu com uma iconoclastia simplesmente paroquial, alimentada ainda assim pela panache de Rutger Hauer, já Spetters (1980) é a grande descoberta da retrospectiva do IndieLisboa, um filme em sintonia com os seus proletários e com os outros filmes de proletários daqueles tempos, do Saturday Night Fever (1977) de John Badham (aliás, explicitamente citado) ao injustamente desconhecido Blue Collar (1978) de Paul Schrader, personagens que, aliás, já deixaram de ter o afecto do cinema.

Revi Showgirls depois, então, dessa sensação de que os filmes holandeses de Verhoeven não só "falam" com os filmes americanos de Verhoeven como se cumprem com os filmes americanos de Verhoeven. Como se etivessem à espera da América. Como O Quarto Homem (1983) antecipa com Renée Soutendijk o Instinto Fatal (1992) com Sharon Stone - o calculismo do primeiro confirma-se no segundo, mais arty aquele, mais manhoso este (Instinto Fatal ficou mais exposto com o tempo, mais despido). Como os motards de Spetters são casualties da sua velocidade e ambição como Nomi e as showgirls nos varões de Las Vegas. Na realidade não revi Showgirls. Encontrei outro filme.

Encontrei a apoteose de um diálogo do cineasta com a América que se iniciara em 1987 com Robocop, ainda o filme de alguém que via um país desconhecido através do espectáculo da televisão e que percebeu em Las Vegas que, afinal, não havia nada mais para além do espectáculo - era isso a América - e que para existir como cineasta ali tinha de vestir essa camisola. "In America everyone is a gynecologist", diz alguém no filme. Verhoeven também pode ser acusado de ter feito planos de ginecologista. Ou de querer ser mais americano do que os americanos?

Showgirls já não é um filme de diálogo com... É um filme de imersão total em... É filme de gestos amplos, épicos: os bastidores dos shows de Las Vegas, onde se dão duelos de ambição e inveja entre coristas, são coreografados pela câmara como se ela varesse os grandes espaços, os grandes desertos. Vamos esquecer aquilo da ginecologia: o tits and ass, a crueza dos diálogos, o realismo hiperbolizado não escondem algo que se revela hoje (conseguimos ver isso mais nitidamente do que há 20 anos?), um outro e mais pungente fôlego: a fantasia, como se com Nomi - como se com a solidariedade com Nomi - Verhoeven a quisesse inscrever num essencial do maravilhoso americano de mitos e fábulas (Judy Garland a sonhar com Oz em O Feiticeiro de Oz, de Victor Fleming; Marilyn Monroe a falhar Hollywood & Vine em Bus Stop, de Joshua Logan/William Inge) e inscrever-se também ele na tradição daqueles europeus e americanos em Hollywood, que se chamaram Douglas Sirk, George Cukor ou Vincente Minnelli, que celebraram de forma apoteótica e estridente a América, logo incorporando a sua agonia, a sua destruição.

Vamos libertar Nomi e Showgirls do "tão mau que é bom!". Um grande filme: Mea culpa, sim, guilty pleasure é que não. Quinta-feira, dia 28, 19h, Cinemateca, Lisboa.

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