Paula Rego regressou a Eça de Queirós e nós vamos ver

Nova exposição na Casa das Histórias, em Cascais, abre a 25 de Maio. Em Old meets New a pintora mostra obras inspiradas n'A Relíquia e n'O Primo Basílio.

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Breakfast, 2015, pertence à série O Primo Basílio, feita a partir do romance de Eça de Queirós com o mesmo nome Cortesia: Galeria Marlborough Fine Arts, Londres
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Meeting Adelia, d'A Relíquia Cortesia: Galeria Marlborough Fine Arts, Londres
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Magpie está integrada na série de D. Manuel II Cortesia: Galeria Marlborough Fine Arts, Londres
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The Kign's Death, com D. Manuel II de pijama às riscas Cortesia: Galeria Marlborough Fine Arts, Londres

A Casa das Histórias, em Cascais, museu dedicado à pintora portuguesa Paula Rego, radicada em Londres há décadas, vai inaugurar a 25 de Maio uma exposição em que mostra boa parte da produção mais recente da artista, feita entre 2013 e 2015.

Old Meets New, assim se chama a exposição comissariada por Catarina Alfaro e que se prolonga até 30 de Outubro, mostra pela primeira vez em Portugal as séries de pintura D. Manuel, o Último Rei de Portugal (2014) e as que baseou nos romances de Eça de Queirós A Relíquia (2013) e O Primo Basílio (2015). Algumas destas obras foram já mostradas na galeria que representa a artista, a Marlborough Fine Arts, em Londres, em 2014.

“Tudo no Eça a fascina, sobretudo a crítica que ele faz à sociedade portuguesa, carregada de ironia”, diz ao Ípsilon a comissária, explicando por que razão Paula Rego está sempre disposta a regressar às narrativas deste grade escritor do século XIX, autor de um dos títulos de que a artista se apropriou numa das suas séries mais aclamadas, O Crime do Padre Amaro (1997-98).

Pintar a partir de palavras ou de uma história – de uma boa história – é algo a que Paula Rego se habituou desde os seus anos de formação na londrina Slade School of Arts (1952-1956). Lembra a comissária no pequeno texto de apresentação de Old Meets New que foi com um trabalho feito a partir de um poema de Dylan Thomas, Under Milk Wood, que começou a dar nas vistas quando era ainda aluna da Slade, em 1954. E que a aproximação aos temas históricos - aqui explorando os anos finais do rei português no Reino Unido, para onde fugiu com a instauração da República, em 1910 - também não lhe é estranha (recorde-se a tapeçaria Alcácer-Quibir, de 1966, e a tela Regicídio, um ano antes).

D. Manuel II atraiu-a, admitiu a artista quando mostrou as pinturas na Marlborough, porque, tal como ela, o monarca era um “exilado”, não havendo nesta série qualquer intenção de o homenagear, algo impensável para a neta de um republicano entusiasmado.

Com Eça, passa-se o contrário. Paula Rego admira-o "mais do que a qualquer outro escritor português". Pelo seu humor, pela maneira que tem de olhar para o que o rodeia. "Ele descreve os portugueses de uma forma que eu ainda hoje reconheço”, disse à Lusa em 2014. “Estas histórias inspiram-me."

A pintura de Paula Rego volta a ter nestas novas obras em que regressa a Eça “um lado narrativo muito presente”, afirma Catarina Alfaro, acrescentando que “este lado serial a seduz porque lhe permite contar a história toda, à sua maneira, com elementos que vêm, como sempre, da sua própria história, do que viveu, das suas memórias”.

Nestas novas pinturas – em que se destaca ainda, fora das séries, um auto-retrato em tríptico, em que a pintora aparece com o marido, Victor Willing, que morreu em 1988, e o filho, num “registo de grande intimidade” – denota-se uma “evolução técnica na simplificação dos planos” e uma atenção maior aos detalhes da decoração de interiores, expressa, por exemplo, na representação dos papéis e tecidos que cobriam as paredes no século XIX.

Dado curioso: a exposição de Cascais vai recriar um dos cenários que a pintora usou para executar a série d’O Primo Basílio, romance que teve a sua primeira edição em 1878.