Os dias com Ana Moura: Paris, Meco e Bairro Alto

Em 2009, Prince viajou expressamente para ouvir a fadista na sala La Cigale. Mas a história já vinha de trás, e teve futuro.

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RITA CARMO/SONS EM TRÂNSITO

Terá sido “culpa” de uma casa nova que Prince tinha acabado de comprar. Acompanhado da cantora Chaka Khan, peneirou uma série de CD que tinha consigo e resolveu-se a ouvir um álbum de Ana Moura. Para ele, foi um encontro quase espiritual, encontrando na música da fadista uma beleza sintonizada com aquele novo espaço. Começou aí. Ana Moura veio a saber deste encontro de Prince com a sua voz passado algum tempo. O primeiro contacto efectivo entre os dois apanhou a cantora num aeroporto, às oito da manhã. Raul, segurança de Prince, ligava-lhe para o telemóvel para a avisar que o autor de Purple rain lhe falaria em cinco minutos. Foram cinco minutos a tentar domar os nervos e a preparar-se para a chamada em que o músico lhe prometia um dia vir a explicar-lhe, em detalhe, aquilo que ouvia e sentia na sua voz grave torneada pelo fado.

O encontro entre os dois aconteceria em 2009, quando, depois de solicitar a agenda da cantora, Prince escolheu o concerto de Ana Moura na sala La Cigale e viajou expressamente para a ouvir na capital francesa. Mais um momento de nervos em franja, a expectativa quase até à última se cumpriria com a promessa: depois de ter faltado ao soundcheck, o músico norte-americano compareceu uma hora antes do início do espectáculo com a sua entourage, para delírio do público e da imprensa francesa. Terminado o espectáculo, puseram-se a caminho de um restaurante onde começaram a forjar uma amizade que teria novos capítulos pouco depois.

Ainda em 2009, Prince voou novamente na direcção de Ana Moura ao visitá-la em Lisboa, insistindo para darem um pulo até ao Bairro Alto e, em concreto, à Tasca do Chico. Acabaram por escolher outro destino quando, mesmo dentro do carro em que seguiam, Prince foi reconhecido e a loucura se instalou nas estreitas ruas lisboetas. Pararam rapidamente num bar escolhido por questões de segurança. Em vez de fado, calhou-lhes uma banda cubana atordoada com o público que lhe calhara em sorte.

Claro que o grande momento que sempre associaremos aos dois será a participação de Ana Moura no concerto de Prince que lotou e desesperou o público que acorreu ao festival Super Bock Super Rock, de 2010, tendo de enfrentar filas de várias horas para alcançar o recinto no Meco. A memorável actuação de Prince enquanto súmula perfeita de toda a música negra num só homem, em imparável modo best of, teria depois como precioso bónus a partilha de dois temas – A sós com a noite e o fado tradicional Vou dar de beber à dor – com Ana Moura.

Foi o penúltimo concerto de Prince em Portugal. Antes desse, duas outras visitas, em 1993 e 1998, no Estádio de Alvalade e no Pavilhão Atlântico, respectivamente. Após o concerto no Atlântico, reflexo de um músico eléctrico que gostava demasiado de música para se limitar a seguir as convenções da indústria, marcaria em cima da hora uma segunda actuação na discoteca Lux, em regime de jam session. Em 2013, quando soltou no Coliseu dos Recreios uma prodigiosa lição de rock’n’roll na companhia das 3rd Eye Girl, o concerto caiu também de surpresa no Verão da cidade. Dias antes, tinha assistido a uma outra actuação de Ana Moura, na Gafanha da Nazaré, e nesse mesmo ano, numa página a si associada e com a assinatura 3rdeyegirl, seria revelada uma remistura alegadamente sua para o tema da fadista Dream of fire, incluído no álbum Desfado. Foi a última vez que soubemos dos dois.

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