O português como língua de Camões é um mito

Tese surpreendente defende que o investimento de Camões num português “castiço” é residual. O linguista Fernando Venâncio contradiz os mitos criados à volta de uma “língua de Camões”.

<i>Os Lusíadas</i>, de Luís de Camões, obra-prima da literatura renascentista europeia, aqui na primeira edição
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Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra-prima da literatura renascentista europeia, aqui na primeira edição Adriano Miranda

Em 735 adjectivos usados por Luís de Camões n’Os Lusíadas apenas um é uma criação nova do poeta, uma estreia na história da língua portuguesa. É a palavra “insofrido”, que quer dizer impaciente.

Esta contabilidade foi feita pelo linguista Fernando Venâncio, que nesta quarta-feira vai apresentar alguns resultados da sua investigação dedicada àquela que será a primeira história do léxico português numa aula do curso de Estudos Camonianos da Universidade Nova de Lisboa, às 18h. “A primeira descoberta é que Camões inovou muito pouco”, explica numa entrevista feita por telefone e e-mail a partir de Amesterdão, onde é investigador na universidade. 

“O uso que Camões faz do léxico exclusivo português já conhecido é extremamente moderado e, mais do que tudo, as exclusividades portuguesas introduzidas pela obra dele foram residuais. Dir-se-ia que Camões não acreditou numa língua portuguesa de perfil autónomo.” 

Sem ser nos Lusíadas, Fernando Venâncio encontrou apenas outro adjectivo novo de origem autóctone na lírica camoniana, desta vez “famulento”, que significa “faminto”.

Já as criações castelhanas estreadas naquele poema épico, publicado em 1572, são cinco (e estamos a contar sempre só adjectivos, palavras normalmente utilizadas para testar a inovação numa língua): alvoroçado, disfarçado, enamorado, rebelde e sotoposto. 

Depois foram ainda enumerados os adjectivos latinos exclusivos do português, que atingem o número de treze (abominoso, cintilante, celso, fulvo, humílimo, longínquo, piscoso, crástino, equório, estelante, frondente, inconcesso, prisco). Entre estes, só dois — longínquo e cintilante — são realmente importantes, “o resto é extravagante e os adjectivos não voltam praticamente a ser usados”. 

Mas os adjectivos latinos já correntes em castelhano estreados por esta obra-prima da literatura renascentista europeia, que conta em verso a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, sobem até aos 54: aéreo, aquoso, árido, aspérrimo, áureo, belígero, canino, canoro, cerúleo, ciente, cônsono, diáfano, dissonante, espumante, estipulante, estupendo, famélico, ferino, fétido, fraudulento, fugaz, fulgente, fulminante, furibundo, hispano, impudico, inerme, inerte, infido, inúmero, inusitado, lácteo, malévolo, náutico, pirático, plácido, plúmbeo, preeminente, prestante, proceloso, pudibundo, radiante, rapace, régio, rotundo, rutilante, salso, sanguinoso, sitibundo, sonoroso, truculento, vasto, vendível, virgíneo. Uma lista “extensa” que mostra que Camões transportou para a escrita portuguesa “o que de melhor, mais sólido e mais expressivo já circulava em castelhano em matéria de latinismos”. Metade destes adjectivos “revelaram-se aquisições felizes e definitivas”, tão duradouros como os outros que o poeta utiliza e que já vêm da Idade Média.

Até aqui, o que faltou numa língua que tem sido intensamente escrutinada foi estudá-la numa perspectiva histórica, “comparando-a com a dos contemporâneos e a de épocas anteriores”. O professor da Universidade de Amesterdão diz que é assim que se consegue perceber que a inovação está lá, “mas não é portuguesa”. 

“Os cultismos que Camões utiliza são já correntes em castelhano”, conhecidos na época por qualquer português instruído. “Camões não parece acreditar num português castiço, autónomo, irredutível.” Empenha-se “numa modernização do português culto”, mas “com recurso a criações castelhanas e ao latim do castelhano”. E isso é “uma absoluta novidade, que desautoriza os nossos mitos criados à volta duma ‘língua de Camões’, um mantra sem base material”. 

Se o português era a língua dos marinheiros e dos comerciantes, o castelhano era a grande língua internacional da classe culta portuguesa e europeia. “Os portugueses estavam muito familiarizados com o castelhano. Isso vale para todo o português com contactos na corte, nas universidades. A língua culta, aquela em que as classes instruídas se exprimem, é muito devedora do castelhano.” 

Fernando Venâncio dá o exemplo de Catarina de Áustria, que foi rainha de Portugal durante 53 anos e que nunca escreveu uma linha de português. “A verdade é que a língua de corte era o castelhano. Depois havia muitos professores, pregadores, confessores que vinham de Castela e isso obrigava muita gente, activamente ou passivamente, a exprimir-se ou a dominar o castelhano. Portanto a presença do castelhano é imensa. Vemos isso naquilo que ficou, nos livros de piedade, nos dicionários. Tudo isso é castelhano ou traduzido do castelhano com muitos castelhanismos.” O primeiro dicionário de português é de 1562, quando Camões já teria quase 40 anos. 
Assim, era normal que quem quisesse ser erudito e moderno o fizesse sob uma influência castelhana. A preocupação de Camões foi, então, tudo o parece indicar, “iberizar o português”, de modo a que a língua funcionasse internacionalmente. “Modernizou o português e fê-lo, inteligentemente, segundo o modelo castelhano para poder ser lido por espanhóis e pela Europa culta da época.” 

Esta influência linguística do castelhano em Camões já foi anteriormente estudada, mas de uma forma limitada, tendo sido identificado na lírica de Camões algum aproveitamento lexical de célebres poetas castelhanos, como Juan de Mena e Garcilaso de la Vega, ou ainda de Juán Boscán, nos Lusíadas. Venâncio cita o trabalho dos anos 40 de Vieira de Lemos e Martínez Almoyna e, mais recentemente, o de Nicolás Extremera Tapiá. “Mas essa é uma parte ínfima do aproveitamento lexical que Camões fez do que já estava disponível em castelhano. Esta minha investigação é realmente o Camões todo. A novidade é a espectacular extensão do fenómeno.” 

Camões não está sozinho neste projecto linguístico, como lhe chama o investigador. Fernando Venâncio encontrou no jesuíta Luís Fróis “um duplo linguístico de Camões”, porque o missionário também transpôs para português toda a riqueza latina que os castelhanos já usavam. Este homem, que sai de Lisboa aos 16 anos para nunca mais regressar depois de chegar à Ásia em 1548, é “o mais dotado ‘jornalista’ português no Oriente” e as suas cartas sobre a Índia e sobre o Japão foram durante décadas “lidas, relidas e disputadas logo que chegavam a Portugal”. Também ele, nitidamente, “investia numa ‘iberização’ da língua”.

Estão os dois a fazer o mesmo em simultâneo. Apesar de terem percursos muito diferentes, ambos passam por Goa, que era por volta de meados do século XVI “um centro cultural fortíssimo”. “De certeza que absorvem um clima cultural, a que eu chamei ‘movida’, que já não havia em Portugal. Uma imensa liberdade criativa e mundana que contrasta com o controlo social da época de D. João III e que durou até à chegada da Inquisição.” 

O investigador diz que é “impensável” que Camões e Fróis, que conviveram oito anos em Goa, entre 1554 e 1562, “não se tenham conhecido, e até culturalmente estimulado”.

Todo este projecto linguístico de Camões e de Fróis, Fernando Venâncio tinha-o mostrado a Vasco Graça Moura, antes da morte do poeta e camonista, que ficou, descreve o professor universitário, “assombrado”. 

A partir desta quarta-feira o investigador vai com certeza testar a tese com outros camonistas. A história do léxico português, diz, é provável que seja publicada já para o ano no Brasil.

Se não há quase nenhuma inovação lexical em Camões no português autóctone, isso não diminui a grandeza da sua criação literária. “E Camões é, sem a menor dúvida, um grande artista.”