Descoberta de novo Caravaggio? O debate ainda só está a começar

Judite e Holofernes é uma nova versão de uma cena bíblica apresentada na semana passada em Paris como sendo de autoria do pintor italiano. Mas há vários especialistas com dúvidas sobre esta atribuição.

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Pintura Judite e Holofernes foi revelado em Paris a 12 de Abril CHARLES PLATIAU/REUTERS

A procissão ainda vai no adro, como se costuma dizer – e promete prolongar-se por vários meses, ainda. Referimo-nos ao debate que se seguiu à suposta descoberta de um novo quadro de Caravaggio (1571-1610), anunciada com grande impacto mediático no passado dia 12 de Abril, em Paris.

A tela em causa, de grandes dimensões, é uma segunda versão de Judite e Holofernes, a cena bíblica em que a bela viúva judia decapita o general assírio, que o pintor italiano representou noutra obra sobejamente conhecida e que actualmente se encontra no Palácio Barberini, em Roma.

A descoberta agora divulgada ocorreu já em 2014, acidentalmente, no sótão de uma casa particular em Toulouse, no sul de França. O proprietário, que quis manter-se anónimo, entregou a tela, em invulgar bom estado de conservação, a um especialista francês em história de arte, Eric Turquin, que depois de dois anos de aturada investigação formou a convicção de que estava na presença de um verdadeiro Caravaggio, que terá sido pintado na primeira década do século XVII, ou seja, na fase final da vida do pintor.

“Esta iluminação peculiar, esta energia típica de Caravaggio, sem correcções, com mão segura, e também os materiais pictóricos, dizem que esta tela é genuína”, disse Turquin na conferência de imprensa da semana passada, na capital francesa. E logo foi avançada mesmo a previsão de que este Judite e Holofernes poderá valer no mercado da arte mais de 120 milhões de euros.

No próprio dia da apresentação do “novo” Caravaggio, surgiram referências a dúvidas que diferentes especialistas da história da arte e da obra do próprio pintor proto-barroco expressaram quanto à autenticidade desta assinatura. A mais citada proveio de Mina Gregori, directora da revista Paragone e responsável pela Fundação Roberto Longhi, em Florença. Esta prestigiada investigadora defende que o quadro em causa deverá ser antes obra de Louis Finson (1580-1617), pintor flamengo que se radicou em Itália no início do século XVII, onde se deixou influenciar pela obra caravagiana.

A tese de Mina Gregori foi logo secundada por outro especialista, Gianni Papi, que logo a 13 de Abril expôs na sua página no Facebook as suas reservas sobre a atribuição de Judite e Holofernes. “Eu vi o quadro três vezes em Paris, durante o ano de 2015. Não estou convencido de que seja de Caravaggio. Tem demasiados elementos estilísticos em que não encontro a mão do pintor”, escreveu este professor da Universidade de Florença – citado pelo jornal Le Figaro –, exemplificando com pormenores estilísticos como os dentes de Holofernes, a cabeça da criada, ou mesmo reflexos de luz que vê demasiado afastados da estética do autor de O sacrifício de Isaac.

Gianni Papi acrescenta que “o gesto de Judite a decapitar Holofernes não tem a energia que caracteriza Caravaggio”, usando como comparação a obra sobre o mesmo tema que se encontra em Roma. Na sua opinião, Finson – que se sabe ter possuído duas telas de Caravaggio na sua colecção pessoal pode muito bem ser o autor do quadro encontrado em Toulouse, e tê-lo pintado entre 1607-08, eventualmente mesmo influenciado por um segundo quadro que o pintor italiano fez sobre a mesma cena bíblica, mas cujo paradeiro estará ainda por descobrir.

Quem também surgiu a secundar a opinião de Papi é o crítico de arte do Guardian, Jonathan Jones, que igualmente logo a seguir à conferência de imprensa de Paris considerou essa “descoberta” como “demasiado boa para ser verdade”.

Admitindo que o tema da obra é tipicamente caravagiano, e que o quadro segue claramente o seu estilo, Jones acha que o quadro encontrado em França não tem “a intensidade psicológica” que encontramos na Judite e Holfrenes do Palácio de Barberini, que classifica como “o equivalente visual de uma tragédia de Shakespeare”.

Mas o proprietário do quadro agora revelado e Eric Turquin também têm os seus defensores, entre os quais o antigo director do Museu de Nápoles, Nicola Spinosa, e o historiador francês Emile Mourey. E, mais importante do que isso, terão agora 30 meses para defender a sua tese – o tempo que foi estipulado pela ministra francesa da Cultura e da Comunicação, Audrey Azoulay, de interdição de saída da obra do país.

“Este quadro recentemente descoberto e com um grande valor artístico, que poderá ser identificado como uma obra desaparecida de Caravaggio, conhecida até agora através de referências indirectas, merece ser mantida em território francês como um testemunho muito importante do caravagismo, cujo percurso e assinatura carecem ainda de aprofundamento”, justifica o ministério – segundo o jornal Le Point –, na expectativa de que este provável “tesouro nacional” não só possa ser autenticado como tal, mas também ser adquirido para o património do país.