Rebecca Solnit escreve contra o ultraje

O desejo de andar pela rua em paz esteve na origem da sua consciência feminista. Rebecca Solnit, jornalista, historiadora, ensaísta faz da escrita um exercício de criatividade onde assume o seu activismo político e social. Publica-se dela em Portugal As Coisas Que Os Homens Me Explicam

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Os olhos azuis, grandes, dão-lhe um ar intemporal. Fala sem a hesitação de quem não parou muito tempo para pensar

Um professor de jornalismo em Berkeley disse-lhe que se a objectividade não é possível, é possível ser-se justo. A frase serviu como guia de conduta para Rebecca Solnit, escritora e jornalista de causas que traz a subjectividade para territórios onde nem sempre é bem vista. Quando escreve sobre política, história, ambiente, relações amorosas, arte, actualidade o eu de Solnit, muito mais do que exposição pessoal, é uma ferramenta para activar empatia, um dos temas que a autora explorou em Esta Distante Proximidade (Quetzal), livro que começou por ser um ajuste de contas com a mãe, então em fase terminal de Alzheimer. Publicado em Portugal no Verão, apresentou aos portugueses uma das vozes mais activas e intervenientes sempre que se fala de igualdade de género, defesa do ambiente, justiça social e arte de narrar nos EUA. Escrevia que o acto de contar uma história passa antes de mais por estabelecer uma ligação com o outro a partir da experiência pessoal. “Empatia é antes de mais nada um acto de imaginação, uma arte de contar histórias, e ainda um modo de viajar de um lugar para o outro”. Não será isso também o princípio da ficção? 

Conectar

A pergunta atravessou uma conversa com Rebecca em San Francisco, a cidade onde nasceu em 1961, numa tarde de domingo com chuva, na livraria de um amigo onde se sente como em casa e em véspera de ser publicado em Portugal As Coisas Que Os Homens Me Explicam, conjunto de ensaios irónicos, indignados, poéticos, de denúncia, sobre o modo como a linguagem determina o que somos, literários e onde mais uma vez a primeira pessoa surge como reacção a um pressuposto que a autora quer desmontar: o saber enquanto domínio masculino. De tudo isto surgiu uma expressão, mansplaining, que se aplica sempre que um homem explica algo a uma mulher assumindo, por princípio, que ela precisa que ele lhe explique essa coisa mesmo que tal não lhe tenha sido pedido. “Os homens explicam-me coisas, ainda hoje. E nunca nenhum homem pediu desculpa por me explicar, erradamente, coisas que eu sei e ele não. Ainda não, mas, segundo as estatísticas, posso viver mais quarenta e tantos anos, por isso há esperança. Embora me pareça melhor esperar sentada…”, escreve no primeiro dos ensaios, originalmente publicado em 2008 e que deu origem ao título livro. 

“Acho sempre que quando escrevo o faço contra alguma coisa, em vez de a favor de algo. Quando escrevi Esta Distante Proximidade estava a reagir contra a ideia de que a empatia é apenas um sentimento. É também um acto imaginativo, como nos imaginamos na vida de outra pessoa. É por isso que a empatia um é tremendo acto criativo, muito ligado à habilidade de contar histórias, de entender histórias. Uma falha de empatia é sempre uma falha da capacidade imaginativa. Por exemplo, nesta pré-campanha vemos as pessoas à volta de [Donald] Trump e da sua falta de imaginação sobre o que é ser negro, o que é ser pobre, o que é ser imigrante, como é ser todas essas categorias de pessoas e encorajar a violência em relação a eles. É quase como um acto ritual, linchar todo o velho sul, um acto de não empatia. Empatia é o sentido de que não estamos separados; eu sinto por ti o que acontece contigo. Isso torna-nos vulneráveis e por isso as pessoas tentam de tantas formas não ser empáticas.”

E se fosse eu, e se fosse comigo, e se aquela dor fosse minha ou — no caso dos “homens que explicam coisas às mulheres” — e se eu fosse um mulher? São questões de partida para estabelecer um conjunto complexo de relações, ou como Solnit prefere dizer, para fazer aquilo que realmente lhe interessa quando escreve: conectar. Para isso parte da sua história pessoal para depois a abandonar. Ela não é o propósito, mas o activador. “A história de quem nós somos é pobre. O interessante é que a nossa história está ligada sempre a muitas coisas. Liga-se a outras vidas através de analogias, encontros, relações, metáforas, influências. Muito do livro que escrevo não é sobre mim; é sobre o Ártico, é sobre Mary Shelley, é sobre uma mulher no Níneve. Mas todas estas histórias sou eu, porque as ouvi, porque me afectaram, porque as escolhi, porque indirectamente quero encorajar as pessoas a verem-se a elas mesmas dessa maneira e isso não sou só eu, de modo egoísta, a dizer que isso é meu. O que me interessa é o tremendo sentido de ligação, o modo como estamos ligados por certas coisas. Como a Argentina e Cuba estão ligadas com as mulheres indígenas no ártico, por exemplo. As nossas vidas estão cheias destas pequenas vibrações.” 

O livro tem nove ensaios, ou capítulos, escritos entre 2008 e 2014 e todos antecedidos por pinturas da artista plástica mexicana Ana Teresa Fernandez. Numa, vê-se uma uma mulheres de saltos altos envolvida por um lençol que tenta prender num estendal. É a imagem do capítulo 5, A Avó Aranha. “É o acto mais banal e mais extraordinário, estender roupa… e pintar. Pintar faz o que fazem os sem palavras: invoca tudo sem dizer nada, convida ao sentido sem se comprometer com nenhum em especial, dá-nos uma pergunta em aberto em vez de respostas. Aqui, neste quadro de Ana Teresa Fernandez, uma mulher existe e é obliterada.” É um texto sobre a obliteração do feminino contada a partir de exemplos concretos e do que nos molda, as influências que realmente importam na formação de uma identidade, artística ou outra qualquer, mas onde o trabalho manual, doméstico é quase sempre esquecido, não evocado. “Toda a gente é influenciada por coisas que precedem a educação formal, que saem do nada e da vida do dia a dia. A essas influências excluídas, chamo avós”, escreve, antes de falar do que a moldou. 

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A escrita tem-lhe dado respostas sobre quem é. Jornalista, escritora, activista, autora de 15 livros que despertou cedo para a sua condição de mulher

Andar em paz

Rebecca Solnit está sentada numa poltrona. Tira o gorro de lã e solta o longo cabelo ondulado, louro grisalho. Os olhos azuis, grandes, dão-lhe um ar intemporal. Fala sem a hesitação de quem não parou muito tempo para pensar. A escrita tem-lhe dado respostas sobre quem é. Jornalista, escritora, activista, autora de 15 livros que despertou cedo para a sua condição de mulher. Era a única rapariga entre três irmãos. “Eles gozavam comigo sempre que eu fazia coisas de menina.” A mãe educou-os entre conceitos tradicionais e outras mais progressistas. “Ela assinava uma das revistas feministas mais conhecidas nos EUA e eu devorava aquilo, como consumia tudo o que aparecia para ler. Passei uma fase sem qualquer tipo de guia nessas leituras. Li muita porcaria, ninguém me dizia o que valia ou não a pena.”

Não foi para o liceu. Assumiu que não era boa aluna, não queria ser massacrada com mais aulas, achava-se sem graça, muito magra, sem dinheiro para roupas e só mais tarde se inscreveu numa escola alternativa. Aos 17 anos foi estudar para Paris. Voltou à Califórnia, retomou a faculdade, formou-se em Inglês e finalmente, sabia o que deveria ler e queria realizar o sonho que tinha desde os seis anos: ser escritora. Publicou os primeiros textos aos 22 anos. Conta que até aí fora muito pobre. São estas as suas “influências avós”. As que, acima de todas, a fizeram ter uma consciência feminista de que este livro se tornou uma espécie de símbolo. Pergunta-se-lhe o que é ter uma consciência feminista? Rebecca Solnit olha para o lado e interpela uma mulher que acaba de entrar na livraria. “Olá. É feminista?”, pergunta-lhe. “Sou”, diz-lhe a mulher. E depois… “O difícil mesmo é ir formulando a pergunta de modo a que nos faça ir pensando. É preciso saber responder ao que é ser feminista. Quero uma vida independente, ter uma voz, ser livre desde as minhas memórias mais antigas. Desde muito cedo sabia que não queria casar e seguir uma vida de todas as convenções. Mas talvez o que mais me tornou consciente dessa condição feminista foi a minha experiência em Paris, nos anos oitenta. Andava pelas ruas e nunca senti perigo. Quando voltei para San Francisco fui viver para um bairro onde quando saia ouvia obscenidades e a possibilidade de ser violada ou morta ou torturada ou ferida existia. Sofri uma espécie de choque. Tudo aquilo era uma enorme violação. Temos o direito de andar na rua não importa de que cor sejamos ou que o levamos vestido. ‘Talvez não devas por tanta maquilhagem, talvez devas ter esse penteado estão sempre a dizer isso às mulheres’. Toda a gente achava que o problema era meu e não um tema de justiça social. Senti-me ultrajada. O que me fez realmente feminista foi o desejo de andar pela rua em paz. Isso faz parte do meu feminismo.” No capítulo 9 resume uma intenção colectiva: “O feminismo é um esforço para mudar algo muito antigo, disseminado e profundamente enraizado em muitas culturas – talvez em quase todas – espalhadas pelo mundo fora, em inúmeras instituições e na maior parte dos lares da terra; e nas nossas mentes, onde tudo começa e acaba.”

Escrever sobre o feminismo foi uma reacção ao ultraje. Mais uma vez uma reacção contra. É também nesse sentido que o eu de Solnit se manifesta. Quando escreveu Dois Mundos Colidem numa Suíte de Luxo, o terceiro ensaio da colectânea fê-lo contra o que chamou de “injustiça mundial”. Na génese do texto esteve a indignação. “Logo que comecei a ler a história fiquei tão zangada…  Foi uma espécie de impulso. Acho que os melhores ensaios que escrevi vêm disso; é como uma urgência, como se sentisse electricidade a subir pelos meus dedos e tenho de escrever para poder seguir o meu caminho.” Nesse caso, uma reacção contra um modo de contar onde Solnit via evidenciados os preconceitos de uma sociedade, e que envolvia o então presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, e Nafissatou Diallo, uma imigrante da Guiné. “Este homem pensou que podia fazer isto e muita gente disse coisas horríveis àquela mulher para a humilhar, só por acharam mais fácil imaginar que era uma prostituta em vez de o imaginarem como violador. Uma mulher sai de um quarto de hotel a dizer que foi violada e há evidências do ADN do autor na análise ao sémen. Houve um encontro sexual ela reclama não ter sido consentido. Mas porque é que uma mulher de 35 anos, africana, imigrante, voluntariamente não teria feito aquilo? Foi a pergunta que se ouviu. Porque é que a ideia de ele ser um violador parece ser a mais difícil de conceber para toda a gente? Há muitas histórias de gente que não se consegue identificar com mulheres ou com mulheres pobres e há um défice de empatia em relação a mulheres negras. O modo como a história estava a ser contada foi o que me enfureceu e me fez escrever. Talvez esteja aí uma das razões pelas quais eu não escrevi ficção. Seria um romance ridículo entre uma figura como Strauss-Khan e uma mulher que sofreu de mutilação genital no seu país e vem para os Estados Unidos para ser livre. É muito óbvio para a ficção, mas acontece na vida real, o que é que vamos fazer com isto?”

Entre tudo o que Rebecca Solnit publicou não há um conto ou um romance. O seu estilo foge a catalogações. Os ingleses chamaram-lhe anti-memória. Solnit gosta da palavra enquanto confessa que apesar de nunca ter passado nada ao papel, já escreveu muita ficção na sua cabeça e talvez um dia isso se materialize. Não é um objectivo, contudo. “Falamos de inspiração e das musas clássicas que são umas mulheres bonitas que inspiram escritores, homens heterossexuais. Talvez para si e para mim sejam então uns homens lindos num pedestal”, ri. “Já tenho escrito muitas vezes que algumas das minhas musas são as coisas terríveis que acontecem. Dante teve Beatriz. Orwell teve Estaline. Não é que goste delas e me sinta agradecida por existirem. Mas são essas coisas más que me inspiram, e os horrores. E isso não me faz querer escrever ficção.” 

O que se lê nestes textos é uma continuidade face ao que tem sido a escrita de Solnit. Repleta de referências da arte e da literatura, politica e socialmente comprometida, dispersa na temática — “não me consigo fixar só num assunto, a minha atenção é muito pouco selectiva”, refere — a desafiar convenções, desmontar clichés, mas curiosamente fixada numa geografia ou partindo dela. San Francisco e a Califórnia são o seu território, com o qual tem uma relação tão crítica quanto afectiva. Escolhe estar na cidade pela diversidade que lhe dá, por nela poder fazer a sua vida a caminhar. Num dos seus textos mais estimulantes deste livro — e que continua o tema de outro publicado em 2001, Wunderlust: The History of Walking — estabelece a ligação entre o acto de andar e a introspecção criativa, falando desse exercício como um acto político e estético. Mas há também a cidade que está a perder uma essência: a de “atrair quem defende ideais e não quem persegue riqueza” (refere-se aqui às alterações que Silicon Valley está a trazer a toda a baía de San Francisco). E confessa que não gosta quando a comparam com Joan Didion. “Eu não gosto muito da Joan Didion. É tão upper class e desprezava os mais pobres. As pessoas admiram-na muito, mas o que ela escreve é tudo muito igual, uma espécie de desespero elegante. Há uma frase dela no terceiro parágrafo de Esta Distante Proximidade, a famosa ‘contamos histórias para não morrermos’ — que é bonito, mas a maior parte das histórias dela fazem-nos querer morrer —  quer quis de algum modo tornar minha, fazer a minha  desesperança elegante. Acho que só me comparam com ela porque ela também é mulher, também é californiana, jornalista e também escreveu sobretudo não ficção. Raramente sou comparada a escritores masculinos, como se escrever fosse ser também segregado pelo género.”

Se é para ir buscar referências, Solnit vai a Virginia Woolf. Uma frase de Woolf está, aliás, na origem do capítulo 6, A Escuridão de Woolf. “O Futuro é sombrio e no fim de contas é o que o futuro tem de melhor, acho eu”. E sobre isso, diz Solnit no texto: “É uma declaração extraordinária, afirmando que o desconhecido não tem de ser transformado no conhecido através de falsa adivinhação ou da projeção de soturnas narrativas políticas ou ideológicas; é uma celebração da escuridão, desejando – como esse ‘acho eu’ indica – não ter a certeza sequer sobre a própria afirmação.” O rosto de Solnit ilumina-se. “É uma das grandes vozes feministas. De uma imensa clareza, e humor e ferocidade, força, beleza, insanidade. Não é apenas uma das mais magnificas escritoras, também confirma que se se queremos falar de política o podemos fazer de forma poética. Consegue escrever sobre política de forma objectiva e subjectiva; não se sente confinada a um assunto nem a um modo. É uma inspiração.” Volta ao jornalismo, regressa à conversa sobre objectividade, à presença do eu, às fronteiras da literatura. “Quando eu era mais nova não se ensinava não-ficção e ensaio nos programas de escrita porque se achava que não era criativo nem imaginativo. Do mesmo modo que não se ensinava fotografia nas escolas de arte. Mas o acto de interpretar e relacionar é tremendamente imaginativo. Com o que seleccionamos trazemos tanto de novo, pelo modo como descrevemos, editamos, pelo que deixamos de fora. Muito do que considero mais imaginativamente interessante está não ficção, que nos dá novas visões sobre quem somos. Pode-se contar estas historias de uma maneira nova e fazer da linguagem algo de belo. E a beleza da linguagem acontece tanto na ficção, na não-ficção como na poesia.”

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E um dia, tinha uns 15 anos, tudo isso lhe pareceu estar num único escritor: Jorge Luís Borges. “Mostrou que se poder ser incrivelmente criativo, imaginativo, mesmo num ensaio.”

A conversa com Solnit anda tão à deriva quanto os seus textos. É difícil confiná-la. E há uma enorme coerência quando afirma que o que lhe interessa são as ligações que se fazem porque tudo volta ao início. Empatia, o lugar do outro, a narrativa como grande exercício de imaginação, único. É domingo e no dia seguinte volta ao tribunal para assistir, como jornalista, a mais uma sessão do julgamento entre a família de um rapaz de 14 anos, filho de imigrantes mexicanos, e os polícias que dispararam 59 balas na sua direcção, alegando que o fizeram em legítima defesa. O rapaz não estava armado e morreu na hora.  

Notícia corrigida : Numa versão anterior deste texto, o livro As Coisas Que Os Homens Me Explicam aparecia referido com um título incorrecto.