Em Cabo Verde os músicos nascem ensinados, mas também se ensinam

O ensino formal de música pode parecer despropositado num país que sempre se saiu bem sem ele. Mas o paradigma do autodidacta formado em casa, na rua, na noite, está a mudar – e em Setembro abre o Conservatório Nacional.

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A caminho das oficinas a cargo dos professores que o Berklee College of Music de Boston fez deslocar à Cidade da Praia José Sérgio
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Numa das sessões da formação relâmpago que juntou o Berklee College ao Kriol Jazz José Sérgio
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Numa das sessões da formação relâmpago que juntou o Berklee College ao Kriol Jazz José Sérgio
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Chico Serra, o autodidacta que nunca deixará de tocar de ouvido José Sérgio
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Jo di Bango, professor de violão, harmonia e prática de conjunto José Sérgio

O mito urbano de que todos os cabo-verdianos são músicos parece ser mais do que apenas um mito urbano dentro do pequeno gabinete que Jo di Bango ocupa na Casa da Música, logo a seguir à sala onde estão guardados os instrumentos doados pela Fundação Calouste Gulbenkian. A dois dias do início dos cursos livres que aquele centro de formação artística da Universidade de Cabo Verde (UNI-CV) organiza para crianças a partir dos seis anos e adultos de todas as idades, é normal que os telefonemas se sucedam mas talvez seja menos normal que acabem sempre da mesma maneira: “Se já toca, tem de vir fazer teste de nível.”

É o “se” que está a mais na frase anterior – ou então é especialmente impossível resistir à tentação do mito urbano no final de uma semana em que a esmagadora avalanche de concertos, showcases, jam sessions, ensaios e demais formatos não-identificados de quatro dias da Atlantic Music Expo (AME) mais três do Kriol Jazz Festival tornou ainda mais desumana a agenda musical da Cidade da Praia. E mais inoportuno o “se” com que Jo di Bango acaba cada telefonema.

Haverá, claro, alguns milhares de cabo-verdianos adultos que nunca pegaram num instrumento, mas os 25 mil empregos que a música representa neste arquipélago de 500 mil habitantes, proporção que não será das mais habituais, sugerem a possibilidade de um ADN particular, amplificado por uma fortíssima tradição de transmissão comunitária que continua a ser “a forma mais contínua de aprendizagem musical”, diz Lúcia Cardoso, responsável pela cátedra de Música no Conservatório Nacional de Artes que abrirá em Setembro e directora artística da Orquestra Nacional de Cabo Verde. “As pessoas aprendem a tocar informalmente: em casa, na rua, nas rodas de tocatina, embora estas comecem a desaparecer em cidades grandes como a Praia. Há uma transmissão intergeracional que a própria comunidade assegura, e é por isso que toda a gente toca violão ou canta. Outras vias que sempre funcionaram: as igrejas e as bandas filarmónicas municipais, que são até hoje centros de formação vivos”, explica. Músicos formados como ela, que foi ao Brasil fazer a licenciatura na Universidade Federal do Ceará, são “uma raridade”: “Por isso é que o pessoal aqui confunde e diz que eu sou musicóloga.”

Ainda que a passagem pelo ensino formal a tenha desviado do circuito comunitário, às vezes mesmo familiar, de aprendizagem e transmissão que caracteriza – e singulariza – a música popular cabo-verdiana, Lúcia é a primeira a afirmar que não há nada de errado nesse sistema – tirando o facto de ser profundamente deficitário. Ela própria, aliás, se aproximou da música “como toda a gente”: em casa, onde o pai tocava violão. “Há sempre alguém que toca violão na família ou na vizinhança, e isso forma o ouvido. O que distingue os músicos cabo-verdianos é precisamente o treino auditivo: nem sabem os nomes dos acordes, mas basta ouvirem a música e logo descobrem como hão-de a tocar.”

É o caso (e é um caso bastante impressionante) de Chico Serra, o virtuoso pianista autodidacta do Mindelo que esteve em algumas formações históricas da música cabo-verdiana (Ritmos Cabo-Verdianos, entre 1965 e 1968, Voz de Cabo Verde depois) e que o Kriol Jazz Festival homenageou este ano. “Dizem que aos quatro anos eu já tocava: as pessoas com mais posses tinham piano em casa e eu lá me aventurei. Com seis fui tocar pela primeira vez ao Café Royal. Normalmente pagavam em chocolates e laranjadas, mas nessa noite estavam muitos marinheiros americanos que puseram alguns dólares num boné e mo enfiaram na cabeça. A minha mãe diz que nunca tinha visto tanto dinheiro junto na vida”, conta numa esplanada em frente ao Restaurante Gamboa, bastião benfiquista da Cidade da Praia onde horas mais tarde tocará até depois das duas da madrugada.

Ao contrário da generalidade dos músicos cabo-verdianos, que são autodidactas acidentais, Chico Serra é um autodidacta militante. Tudo o que aprendeu a tocar no piano desde miúdo, e depois no saxofone, quando teve de substituir Humbertona nos Ritmos Cabo-Verdianos, foi de ouvido – e só não evoluiu mais no violão e no cavaquinho porque o tio, com quem passou parte da infância em Santo Antão, o queria longe de “instrumentos de vagabundos” (só o piano e o violino, esclarece, “eram instrumentos de gente fina”). Recusou todas as oportunidades de aprendizagem formal com que os pais tentaram fazê-lo deparar-se mas garante que isso não lhe arruinou, pelo contrário, uma carreira que até foi bastante internacional, nesses anos em que a enorme diáspora cabo-verdiana já alimentava digressões de vários meses pela Europa. “Mandaram-me para a escola do professor Alves Reis, que tinha feito o conservatório em Portugal e estudado música em Roma”, conta, “só que eu não tinha paciência para ler as notas na partitura, queria era tocar. Então ele queixava-se aos meus pais: ‘Aquele miúdo dava um músico excepcional, mas vocês deixaram-no aprender de ouvido e agora é um caso perdido’.”

Um fosso por tapar

Não saber ler uma pauta não impediu Chico Serra de ser um grande pianista de mornas, coladeiras, boleros e “música romântica”, mas impediu-o de ter carteira profissional. Falhou, mas falhou em estilo, o exame a que teve de submeter-se em Lisboa, quando estava na calha um contrato para uma temporada dos Voz de Cabo Verde no Casino Estoril. “O Luís Morais e o Morgadinho lá tocaram porreiros da vida, tinham sido músicos da banda municipal. Quando chegou a minha vez o Luís ainda me sussurrou o tom em que estava a partitura, que eu sabia tocar – e muito bem! – mas não sabia ler, aquilo para mim era chinês. No final o examinador disse-me que eu tinha tocado maravilhosamente, até tinha acrescentado acordes que não estavam na pauta. Não me pôde passar a carteira.”

No seu caso, não foi muito grave: a música foi sempre uma ocupação paralela ao trabalho a tempo inteiro na Electra, a companhia nacional de água e electricidade, mesmo quando abriu o mítico Piano Bar onde era pianista residente. Mas para Lúcia Cardoso aqui está um dos melhores argumentos em favor de um ensino formal e estruturado da música num país como Cabo Verde – independentemente de a música cabo-verdiana se ter dado bem sem ele. “A falta de escolas impede a comunidade de valorizar a música como área de estudo, o que prejudica a profissionalização: se não se respeita uma arte, não se paga por ela. Não nos permite evoluir enquanto músicos porque não vamos além do que podemos aprender com o senhor da comunidade, e compromete a diversificação de instrumentos e de géneros – por isso é que temos uma grande carência de cordas clássicas e de madeiras”, argumenta, esclarecendo que nessas áreas a Orquestra Nacional se viu obrigada a recrutar no estrangeiro.

O currículo de seis anos do futuro Conservatório, onde também leccionarão dez professores portugueses ­– ao abrigo de um acordo de cooperação bilateral que inclui o Conservatório de Música de Coimbra, mas também a Orquestra Geração, que intervirá nos bairros – tratará de ultrapassar esses e outros handicaps, tapando o fosso entre a educação musical informal e descontínua que a comunidade e algumas escolas e professores particulares foram assegurando (Lúcia frequentou uma delas, a Pentagrama) e o clímax que pode ser uma licenciatura e que até agora muito poucos além dela terão atingido.

Acordar para a vida

Basta que voltemos à Casa da Música, seguindo o trânsito de instrumentos que é agora bem mais intenso nas imediações da Praça Luís de Camões porque os cursos livres estão mesmo a começar, para termos um exemplo vivo do fosso de que Lúcia nos fala. Jo di Bango, agora responsável por este centro de formação artística, e também professor de violão, harmonia e prática de conjunto, foi um dos 27 alunos que em 2011 se inscreveram no primeiro Curso de Estudos Superiores Profissionalizantes (CESP) de Performance Musical com que a UNI-CV quis preparar músicos para o mercado. Além dele, só mais três o concluíram (todos no violão), o que levou a universidade a redireccionar o seu investimento para a formação de base que as aulas a funcionar desde sexta-feira e o trabalho à distância com outros concelhos querem consolidar – o próximo CESP só será lançado quando houver massa crítica suficiente (Di Bango prevê que se atinja esse ponto o mais tardar no ano lectivo de 2018/2019), e até lá ainda decorrerá uma fase intensiva de formação de professores porque “num país insular com poucos músicos com formação académica, e ainda por cima dispersos, é difícil compor um corpo docente”.

“Esse primeiro CESP foi um choque”, recorda ao PÚBLICO. “Foi mesmo para acordar para a vida. Muitos não conseguiram acompanhar. E eu só não desisti porque tinha tido umas aulas particulares que me deram uma preparação mínima. Aqui ainda predomina a ideia de que a música é uma coisa empírica: basta aprender dois acordes e já está.”

Autodidacta como Chico Serra (apesar de 40 anos mais novo), aprendeu a tocar violão com os mais velhos na Brava: “Nas ilhas mais pequenas, os miúdos ou vão para a praia, ou brincam de esconde-esconde, ou vão buscar um instrumento. Desde que sou gente que me lembro de ter um violão na mão. Com a Internet tudo começa a mudar, mas na minha infância não havia nada – a minha casa foi a primeira a ter TV colorida…” Práticas seculares de rua como as serenatas e as tocatinas, esses fins-de-tarde de socialização nos terreiros que continuam inscritos no imaginário popular, constituem ainda, sublinha, “ambientes propícios para aprender música”, mas uma educação formal “abre os horizontes” e garante um upgrade técnico “considerável”. Sobretudo, induz o “espírito de formação contínua” que é essencial a um músico que queira progredir: “É sempre preciso estudar mais, trabalhar mais, nem tudo está nas escolas.”

Justamente porque há toda uma vida lá fora, os cursos de vários níveis – alfabetização musical, básico e intermediário – que a UNI-CV agora abriu, e que apontam claramente à formação de instrumentistas para o circuito da música popular, terão como professores convidados logo ao nível da iniciação os mesmos mestres autodidactas com que di Bango aprendeu. “Com a tónica na formação erudita que um conservatório pode oferecer, estamos a esquecer esses músicos tradicionais que nos ensinaram tudo e que produziram boa parte da cultura musical cabo-verdiana; não podemos deixar isso morrer. Aqui, quando estamos a trabalhar a morna, vamos buscar os músicos da noite que melhor a podem ensinar. Há muita gente formada que quando se senta para tocar não consegue porque não conhece os bordões…”, diz, defendendo “o meio-termo entre o erudito e o popular, entre a disciplina dos músicos clássicos e a desenvoltura dos músicos tradicionais”. Os primeiros dias de aulas, com as oficinas a cargo dos professores que o Berklee College of Music de Boston fez deslocar à Cidade da Praia para uma formação-relâmpago em parceria com o Kriol Jazz, estão dentro desse espírito.

Entretanto, Lúcia Cardoso acredita que daqui a 15 anos o paradigma do músico autodidacta que uma figura como Chico Serra tão excepcionalmente encarna deixará de ser dominante. E não, isso não descaracterizará a música cabo-verdiana; pelo contrário, enriquecerá o seu vocabulário. “Não é por aprenderes a escrever depois de já saberes falar que passas a falar pior, certo?” Certo. Mas não para Chico Serra, pelo menos nesta encarnação: “Nasci para tocar de ouvido e vou morrer a tocar de ouvido.”

O PÚBLICO viajou a convite da Tumbao

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