Crítica

Um barítono de excepção e um maestro inspirador

No último concerto da Orquestra Gulbenkian tivemos a oportunidade de ouvir o sueco Peter Mattei, num programa com obras de Mahler, Wagner e Beethoven.

Peter Mattei, barítono
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Peter Mattei, barítono Cortesia: Fundação Gulbenkian

No último concerto da Orquestra Gulbenkian tivemos a oportunidade de ouvir um barítono de excepção: o sueco Peter Mattei, que começou a sua carreira como um consumado intérprete de Mozart e que nos últimos tempos tem brilhado no repertório wagneriano, bem como num amplo conjunto de papéis criados por compositores como Rossini, Verdi, Tchaikovsky e Janacék.  Em Lisboa, onde interpretou As Canções de um Viandante de Mahler, esteve em boa companhia, já que a direcção musical coube a Karl-Heinz Steffens, um maestro que talvez não seja ainda muito conhecido do grande público (só começou a dedicar-se em pleno à direcção de orquestra em 2007, após uma bem sucedida carreira de clarinetista na Sinfónica da Baviera e na Filarmónica de Berlim), mas que possui um altíssimo nível artístico e realizou um excelente trabalho com a Orquestra Gulbenkian.

O programa iniciou-se com O Ídilio de Siegfried, a composição que Wagner ofereceu em 1870 a Cosima Liszt no seu aniversário, inspirada pelo nascimento do filho de ambos, Siegfried, e que partilha material temático com o drama musical homónimo. Estreada por um grupo de câmara de 13 instrumentistas na casa de campo que o compositor tinha alugado em Tribschen, perto de Lucerna, a peça continua a manter um certo carácter de intimismo e forte dimensão poética quando é apresentada na versão sinfónica. Karl-Heinz Steffens manteve esse espírito e conseguiu extrair uma bela sonoridade da orquestra no âmbito de um discurso de grande fluidez e equilíbrio.

Seguiram-se as As Canções de um Viandante, de Mahler, um ciclo marcado por uma forte intensidade emocional que, de certo modo, reflete um dos períodos conturbados do compositor a nível profissional e afectivo. O canto de Peter Mattei fascina de imediato pela beleza do timbre ao longo de toda a tessitura, pela imponência (a sua voz tem um volume considerável, mas soa sempre redonda e polida) e pela clareza da dicção e da articulação. A essas características une-se uma abordagem interpretativa plena de profundidade e acentuados contrastes, mas também de pequenas subtilezas ao nível do colorido e da dinâmica, que seguem de perto o conteúdo semântico do texto.

Mattei transmitiu a multiplicidade de estados de alma do viandante não como uma reminiscência, mas vestindo a personagem e alcançando um momento dramático que raia o desespero na terceira canção (“Ich hab’ ein glühend Messer”/Tenho uma faca em brasa), antes de reencontrar a serenidade e alguns raios de esperança na tocante página final (“Die zwei blauen Augen von meinem Schatz”/Os dois olhos azuis do meu tesouro). A textura e os timbres orquestrais têm um papel fundamental na criação do universo de cada canção e os instrumentistas da Orquestra Gulbenkian estiveram à altura o desafio, com destaque para o naipe de sopros da família das madeiras.

Se Karl-Heinz Steffens tinha já deixado uma boa impressão como maestro, confirmou-a e suplantou-a na célebre Sinfonia n.º6, Pastoral, de Beethoven. Foi uma interpretação exemplar, muito sugestiva na dimensão programática da obra que envolve a evocação sonora da natureza (incluindo o murmúrio do regato e o canto dos pássaros no 2.º andamento ou a estrondosa tempestade do 4.º andamento), mas também digna de nota pelo apurado desempenho de todos os naipes. Steffens consegui uma nítida transparência de planos sonoros e da arquitectura da obra, imprimiu sedutora elegância aos fraseados em cantabile, mas também uma energia rítmica dançante e considerável veemência dinâmica quando necessário, fazendo justiça ao génio de Beethoven.

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