Travões de disco: usar ou não usar, eis a questão

O acidente sofrido por Francisco Ventoso levou a UCI a suspender o uso do mecanismo. O PÚBLICO falou com três ciclistas portugueses, que identificam mais ameaças do que vantagens no sistema.

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Os travões de disco que têm gerado polémica, neste caso montados numa bicicleta da Direct Energie Kenzo Tribouillard/AFP

Era o momento de sorte de Francisco Ventoso. No dia de todas as quedas no Paris-Roubaix, à entrada do quilómetro 130, num dos 27 sectores de “pavé”, escapou da “montonera” e prosseguiu o seu caminho, sem tocar no chão. Mas a sorte que sentiu naquela fracção de segundo rapidamente se transformou em azar. Ao olhar para a perna, descobriu uma cratera ensanguentada, de onde espreitava o periósteo que lhe cobria a tíbia.

Em estado de choque, o ciclista da Movistar encostou-se à berma, caiu na relva, sentindo o mundo girar à sua volta. Naqueles segundos de espera pela equipa médica, percebeu que o breve encosto dado a outro corredor para escapar à queda era a causa do buraco que tinha na perna. Ou melhor, era-o o travão de disco da bicicleta em que este seguia. Operado de urgência, obrigado a uma paragem forçada, o espanhol não esperou muito para escrever uma carta de coração aberto ao pelotão. E à União Ciclista Internacional (UCI), que, numa reacção quase imediata, suspendeu o uso dos novos travões.

A decisão mereceu aplausos unânimes dos ciclistas profissionais. Há muito que os travões de disco, a última evolução tecnológica numa modalidade em permanente mutação, eram uma temática recorrente nos bastidores. Os corredores temiam que os discos dos travões se transformassem em verdadeiras lâminas ambulantes — talvez por isso, apenas duas equipas (a Lampre-Merida e a Direct Energy) das 25 que alinharam na rainha das “clássicas” tenham recorrido a eles.

“Quando um ciclista corre sozinho, não há perigo. O problema está num pelotão de 200 unidades, porque os discos são verdadeiras navalhas. Eu não tenho nada contra os travões de disco, se forem usados na BTT ou nas outras modalidades”, sublinhou ao PÚBLICO o colega português de Ventoso. Nelson Oliveira é peremptório: não é por travarem mais rápido do que os travões de pastilhas que os novos travões vão evitar quedas. “São bons para o mercado de bicicletas, para os amadores, agora para ciclistas profissionais não têm grande interesse. As vantagens esfumam-se numa descida de 15, 20 quilómetros. Quando chegamos lá abaixo, o disco está a ferver e se temos o azar de cair ou tocar noutro colega, além de cortados podemos ficar queimados”.

Curiosamente, Oliveira até beneficiou da “ajuda” de um travão de disco na sua queda no Paris-Roubaix. Atrás de si, seguia Mário Costa, um dos 16 ciclistas do pelotão que naquele domingo pedalavam numa bicicleta equipada com os perigosos discos. Com o bicampeão nacional de contra-relógio sentado no chão, agarrado ao ombro esquerdo, o corredor da Lampre-Merida travou de imediato para evitar o choque.

“As grandes vantagens do travão de disco são, acima de tudo, o poder de travagem, que é muito maior, principalmente em estrada molhada, e a maior precisão ao travar”. No entanto, o ciclista poveiro, que só se estreou com a Merida Scultura Disk no Inferno do Norte, sabe os perigos que estão à espreita na sua bicicleta.

“Eu concordo que os discos são lâminas e que em quedas colectivas o risco de cair em cima deles é grande”. E Mário Costa sabe do que fala: na pele, tem gravada outra queda, ainda na era pré-discos, na Volta à Turquia, na qual os dentes da cremalheira da frente da bicicleta, bastante semelhante aos discos, rasgaram “um bom bocado de pele” do seu antebraço.

Cá dentro como lá fora

Mas talvez o mais antigo e veemente opositor aos discos, pelo menos nas redes sociais, seja Filipe Cardoso. “Mais uma vez, parece que todos percebem muito de bicicletas e ciclismo menos os ciclistas profissionais, que simplesmente não são ouvidos. Podem vir mil entendidos, mas nenhum deles sabe o que é cair a 80km/h no meio de um pelotão. Adicionar a isso uma lâmina quente? Óbvio que já se estava à espera que acontecesse algo assim [como o acidente de Ventoso]”.

O ciclista da Efapel, que é conhecido como o Peter Sagan português, há muito que alerta para os perigos de uma tecnologia que adora. “Seria o primeiro a ter uma bicicleta em casa com este sistema. É mais suave para os dedos, tem uma resposta ligeiramente mais rápida e potente, em dias de chuva continua a travar sem problemas mesmo com as mãos geladas. Mas acham mesmo que se as bicicletas ficassem mais rápidas, mais seguras, o disco não andava em 100% do pelotão?”, interrogou.

Para Cardoso, a chave do insucesso dos travões de disco no pelotão profissional (em Portugal não há nenhuma equipa a correr com eles) está nos pneus. “Por exemplo, se montássemos os pneus de um Ford Fiesta num Ferrari, o Ferrari, que é tão potente, quer na aceleração quer na travagem, ia estar sempre a patinar. Tanto faz ao Ferrari ter o melhor travão do mundo, se o pneu não aguenta esse poder de travagem”.

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