Willis Earl Beal à procura da terra prometida

Vindo das ruas de Albuquerque, Willis Earl Beal pareceu criar um género de blues só seu – antes de atirar tudo às malvas, voltar às ruas e dedicar-se à soul sinfónica.

Foto

Não deve haver dúvidas quanto a isto: Willis Earl Beal é um ser humano e possivelmente um ser humano normal – tem dois braços, duas perninhas, um cérebro e uma garganta sombria de onde sai uma voz capaz de levantar um morto. (Passe o exagero.) Bom, normal não será a palavra certa. Experimentemos estranho – se bem que, ainda assim, “estranho” possa ser eufemismo. Sujeito com o coração perto da boca, responde de forma original após ouvir-nos perguntar-lhe como está:

“Sei lá. Como é que eu sei como é que estou? Há uma tabela para isso? Como é que se sabe uma coisa dessas?”

Beal entrega esta sequência de palavras num registo seco, disparado e rítmico, próprio de um velhote que passa um raspanete aos netos que o acordaram da sesta. Neste momento já estamos à beira do riso.

“Perdi os 30 dólares que tinha”, continua ele. “Ganhei 30 dólares e perdi-os. E depois tive de estar à espera do teu telefonema. Isto é demasiado para mim. Sei lá como estou. Mas agora tenho de estar sempre a ponderar o meu estado de espírito? Não podemos falar sobre música?”

Não temos estatísticas sobre o assunto, mas admitamos que nem toda a gente reage assim a um simples “Olá, como está?”.

“Como é que eu sei se estou bem? O céu é azul e é bonito mas não dá para eu o levar no bolso, pois não?”, atira o homem. “Por mais bonito que o céu esteja, serei sempre pobre. Dou entrevistas mas ontem no concerto que dei só estiveram 15 pessoas. Ganhei 30 dólares – e perdi-os, estou irritado, claro”, ouvimo-lo dizer, no remate da sua desafortunada rábula.

E assim chegamos ao que interessa, sem que para isso tenhamos tido que fazer uma pergunta sequer: Willis Earl Beal é pobre – tremendamente pobre – e faz música. Ouvimo-lo em disco desde 2012 e vimo-lo ao vivo na passada quarta, dia 13, no Musicbox, em Lisboa. Caso não tenham estado lá, poderão saber o que perderam porocurando na net – o exemplo mais recente da composição de Beal está ainda bem fresquinho, acabado de colher: há coisa de 15 dias ele lançou o EP Through the Dark, em que se aproxima de novo da soul sinfónica que neste momento o obceca. Edita sempre um EP entre cada longa-duração, pondo música cá para fora a um ritmo alucinante. Não lhe digam é que a música dele tem alguma relação com o blues, que ele não gosta.

“Blues? Não acredito no blues. Não sou um artista de blues”, diz em tom crispado, tom que se acentuaria logo a seguir: “A música que lancei inicialmente até tinha alguma coisa de blues, mas as pessoas só dizem que eu sou um bluesman porque sou negro – se eu fosse branco chamavam-lhe indie music”, ouvimo-lo dizer. Tudo é um motivo para Willis disparatar. E no entanto, há algo de fofinho nas suas reclamações. Ele expõe-se ao reagir assim e as suas revoltas não são uma posição de força, antes surgem de um lugar de fragilidade, de quem tem pouco mas vai morrer a dizê-lo a toda a gente.

“É muito frustrante, isto. Há demasiadas facetas no que faço, tenho muitos interesses. Gosto de música clássica, de ouvir sinfonias, e gostava de criar uma combinação de sinfonias com a minha voz, que tem algo de soul. Soul, ok? Soul e não blues. Queria uma voz soul com cordas, mas não tenho dinheiro para cordas, tenho de usar sintetizadores para emular as cordas.”

Narcísico?

Sem dúvida que essa soul sinfónica marca Noctunes, o seu último álbum, de 2015, e o EP Through the Dark; em que a sua voz grandiosa ganhar um lugar central – mas dêem um salto ao Youtube e oiçam (por exemplo) Too dry to cry, tema de Nobody knows (álbum de 2013). É blues, sim senhor, blues chapado ainda que um pouco reminiscente de Tom Waits, um blues sujo e avariado e fascinante, presente não só nesse disco como também em Acousmatic Sourcery, este de 2012.

PÚBLICO -
Foto

A aparição de Acousmatic Sourcery pareceu um pequeno milagre – não só por causa da música (uma espécie de blues feito da tralha que os restantes humanos deitaram fora e Bearl recuperou no lixo) mas também pelo simples facto de ter sido editada e existir. É que Beal nessa altura vivia nas ruas de Albuquerque, no Novo México.

“Tu conheces a minha história, não te armes em fingindo”, diz a dada altura. “Não a vou contar outra vez. O que eu faço é tão narcísico e absorvido em mim mesmo que chego a cansar-me de mim próprio”. Eis uma novidade: podemos pensar que um tipo que vive no limiar da sobrevivência não tem tempo para coisas menores como pensar em si próprio, mas segundo Willis é só nisso que ele pensa e está farto de pensar nisso.

Nascido em Chicago, Willis diz não ter tido tanto azar assim: “Muita gente no gueto [de onde veio] acaba a matar ou agarrado a drogas, porque não tem oportunidades. Tive muita sorte em no ficar no Southbank de Chicago”, admite. Bom, foi depois de Chicago que ele deu por si nas ruas de Albuquerque, à procura da sua obsessão: a liberdade, palavra que repete umas dez vezes a cada três minutos.

“O meu crescimento não foi assim tão difícil”, continua, numa precária tentativa de desmistificação da sua biografia – e se dizemos precária é porque ele fala sempre disto nas entrevistas que dá e o assunto – a infância, a sobrevivência, a (lá está) liberdade – está-lhe à flor da pele. Ao ponto de logo no início da conversa sair-se com uma tirada admirável, logo depois da rábula sobre os trinta dólares: “O meu plano”, explica, sem que lhe tivéssemos perguntado nada, “é ter dinheiro para comprar terra e auto-sustentar-me. Plantar umas merdas, ter uns animais”. Depois dirá: “Hey, eu sou um capitalista, tenho de vender as minhas coisas”. É como se tivéssemos descoberto o Larry David da comunidade negra de Chicago.

“Os meus pai discutiam muito, todos os dias, a todas as horas, mas discutiam entre si, não era comigo.” Willis parece não saber que uma criança que cresce com discussões violentas é considerada vítima de abuso – crianças pequenas não distinguem se a discussão é com elas ou com os pais, internalizam a culpa. Por uns instantes ponderamos se devemos ou não dizer-lhe isto. Mas claro que não dizemos. Até porque ele está a falar de si a todo o vapor – e precisa disso: “Isto acontece com todos os miúdos, em particular os negros. Num minuto estás na casa de um e noutro na casa de outro. E se eles não se tivessem separado eu seria pior pessoa”.

Willis ainda hoje tem uma valente dose de ansiedade, sempre a teve, mas ela diminui desde que ele começou a fumar marijuana. Razão pela qual a dada altura nos pergunta se há boa erva em Portugal, que usa, diz, para relaxar. “A minha ansiedade pode vir de imensas coisas. A minha mãe era bipolar. O meu pai é um tipo normal.”

Os pais, diga-se, ficaram “estupefactos” por o verem ter uma carreira musical, tendo em conta que até aos vinte e tal nunca havia feito música. De repente deu-lhe para isso e começou a espalhar flyers por Albuquerque – também na esperança de encontrar namorada. A revista Found Magazine descobriu-o e pô-lo na capa e foi a partir daqui que nasceu a sua carreira musical, começada com o admirável Acousmatic Sourcery.

Ele poderia ter encontrado nesse registo, que agradava particularmente aos críticos, mas ao fim de um par de discos acabou por se viciar em mudar constantemente de registo. A relação que mantém com a sua persona musical é, no mínimo, ambígua.

“Não gosto de tocar ao vivo”, diz a certo momento, o que não deixa de ser curioso num tipo que veio cá dar um concerto. Um pouco mais à frente contradiz-se , o que para sermos honestos é uma constante: “Quer dizer, gosto de dar concertos, mas antes era uma coisa que eu gostava mesmo e agora faço-o porque preciso, porque tenho terra para comprar”. (Willis ainda vive na rua. Ou melhor, ele e a namorada vivem em casa de amigos.) “A minha relação com o público não é boa, porque eu me alheio. Tudo o que faço é sobre alheamento. Sinto que ao vivo tenho de fabricar emoções que já senti. Encorporo o que já senti nessas canções e não sei se isso é honesto”.

Não é fácil ser Willis, mas, hey, como ele gosta de dizer: “Ao menos não sou um assassino profissional”, numa tirada que lhe proporciona uma série de outras tiradas: “Não deve ser um mau emprego. Deves trabalhar umas três ou quatro vezes por ano e ainda por cima, como eles são profissionais, não ficam com sangue em cima. A pessoa que matam provavelmente até merece. O chato é que não há muitas escolas para aprender nem um sítio onde um tipo se possa inscrever”.

Enquanto não consegue dinheiro para comprar o seu pedaço de terra Willis permanece na esperança de que os portugueses apreciem a sua soul melancólica e vai fazendo canções. Por uma simples razão: “Não tenho mais nada para fazer. Não aguento um emprego. Passo o tempo a passear, beber café e fumar marijuana. A minha vida é aborrecida. Só posso documentar a minha vida. É como um diário.”

No fim da conversa ele perde-se um pouco: menciona Cristo e os outcasts deste mundo, compara-se a Michael Jordan, diz ser perseguido pela sociedade, perde algum tempo a explicar que ainda sente muita raiva e confessa não gostar de ter de pedir dinheiro. A dada altura diz que “às vezes preferia não existir”, mas a sua auto-consciência não lhe permite ser auto-indulgente sem de imediato o punir, de modo que afirma logo que “ninguém devia sentir pena [de si] porque muita gente se sente assim nos seus empregos e toda a gente tem problemas e vir à europa tocar já é um luxo”.

Há-de haver uma terra em que Willis Earl Beal encontre paz. Enquanto ele não o descobre, descubram vocês a sua dorida garganta.