De Rhode Island à Buraca, uma história alternativa da música africana

Sem diáspora, não teria havido Cesária Évora – e também não haveria Buraka Som Sistema. A quarta edição do Atlantic Music Expo quis testar esta teoria: é quando está lá fora, na emigração, a milhares de quilómetros de casa, que a música africana dá por si a mudar mais livremente por dentro.

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Chachi Carvalho e Conductor no o Atlantic Music Expo (AME) José Sérgio

Aos 35 anos, Andro Carvalho (aka Conductor) já não tem como fazer reset à sua história e portanto é difícil imaginar o que estaria a fazer agora se tivesse ficado em Cuba, onde nasceu, ou em Angola, onde cresceu para várias coisas (é um rapaz grande), mas sobretudo para o hip-hop (é assim apresentado num blogue de Luanda: “o nosso Timbaland”). Bem mais fácil, sabendo o que sabemos hoje, é imaginar o que se teria perdido: sem a vaga de emigração angolana que pôs a família de Conductor a aterrar na Grande Lisboa, não teria havido Buraka Som Sistema. A música portuguesa não seria a mesma, seguramente – mas e o que dizer da música africana?

À quarta edição, essa foi uma das perguntas que o Atlantic Music Expo (AME) – o mercado profissional com que Cabo Verde tenta impor-se desde 2013 tanto na agenda, como no mapa da indústria musical – quis pôr em cima de uma das mesas-redondas do seu impetuoso programa.

Além de Conductor, que por estes dias se passeia na Cidade da Praia não só com a aura global dos Buraka Som Sistema, mas com a sua própria aura de produtor a cintilar num raio de vários metros à volta, também Djô da Silva, o agente histórico da internacionalização da música cabo-verdiana, sem o qual não teria havido o fenómeno Cesária Évora, e Binetou Sylla, descendente directa do “Quincy Jones africano”, que, ao gravar o mítico Soro de Salif Keïta, em Paris, reinventou irreversivelmente a discografia senegalesa e maliana, vieram dar corpo à teoria de que a música africana é uma aventura colectiva e poderosamente multipolar, que muitas vezes se escreve a milhares de quilómetros de distância de casa, reconfigurada, como as próprias comunidades emigradas, sob a influência de infinitas variáveis cruzadas.

Mas talvez a verdadeira moral do painel sobre O papel das diásporas, que fechou o segundo dos três dias de mesas-redondas do AME no Palácio de Cultura Ildo Lobo, esteja naquele momento em que Chachi Carvalho pega no microfone para rapar um excerto do seu Cape Verdean in America – explicando como um rapper de Rhode Island descobre tardiamente que o país de onde os pais emigraram será uma das forças, não uma das fraquezas, do lugar que tem a fazer no hip-hop. Não é um sonho africano, é um sonho afro-americano (que ele diz estar mal contado num livro de que foi capa, Necessarily Black: Cape Verdean Youth, Hip-Hop Culture, and a Critique of Identity): em 2013, Chachi Carvalho chegou ao festival One Mic, organizado pelo Kennedy Center.

Tópico genericamente relevante num continente que continua, por razões políticas e económicas, condenado à diáspora – e reduzido a poder exportar apenas a pequeníssima parte da sua produção musical que cabe no formato um tanto colonialista da world music –, a tensão entre o país de origem e a emigração diz especialmente respeito a um país que, como Cabo Verde, está mais fora do que dentro das suas próprias fronteiras (498 mil habitantes no arquipélago, um milhão de emigrantes). De resto, como sublinhou a moderadora Gláucia Nogueira, que acaba de lançar Cabo Verde & A Música – Dicionário de Personagens, o impacto da diáspora na música cabo-verdiana sempre foi “enorme”: os primeiros discos de músicos cabo-verdianos de que há registo foram gravados na década de 1920 nos Estados Unidos, e só meio século depois, com a independência, o país passou a estar em condições de gerar a sua própria discografia sem ter de passar pelo estrangeiro (Portugal nos anos 50, a Holanda nos anos 60).

Sem essa autodeterminação logística e tecnológica, Conductor não teria podido usar os tempos mortos da sua agenda na Cidade da Praia para produzir um disco que também pode ficar na pequena história da música cabo-verdiana – o primeiro a solo de Cíntia Ramos, aliás Nitry, que com as Esposas do Rap co-fundou em 2014 aquela que terá sido a primeira banda de hip-hop feminina do país. Uma rapper em Cabo Verde (e a gravar com um produtor que foi a sítios aonde não se imaginava que a música urbana portuguesa alguma vez pudesse chegar)?

 

Os tempos estão definitivamente a mudar, apesar do peso – que Conductor diz ser tão “asfixiante” na Cidade da Praia como em Luanda – da tradição musical. É uma história em que ele se vê ao espelho (uma banda de kuduro na Buraca, e a gravar com M.I.A.?), e não gosta lá muito da imagem: “O que eu sinto muito em Cabo Verde, sobretudo sendo um meio tão pequeno, em que é muito difícil não incomodares o teu inimigo, é que há muitos jovens a fazerem coisas incríveis que não encontram aqui plataformas adequadas ao seu percurso musical. Demasiados artistas bons precisam de penar muito”, conta ao PÚBLICO num intervalo antes de voltar ao estúdio local onde está a trabalhar com Nitry.

Também tem sido uma luta a autodeterminação do hip-hop contra a barreira invisível dos géneros que constituem para todos os efeitos o cânone da música cabo-verdiana (morna, coladeira, funaná, batuque). E Conductor, que horas antes tinha muito frontalmente declarado a uma plateia internacional que os Buraka Som Sistema apareceram para “fazer música que não encaixasse no conceito podre e mau da world music e do homenzinho a tocar com um côco”, diz-nos agora que adora estar na luta – em Cabo Verde como em Angola e em Portugal, onde tem desenvolvido imenso trabalho de produção com a restante equipa dos estúdios Mo’Kubiko. “Em Angola tens muitos exemplos de músicos que ficam entalados nessa bolha. Se não fazes semba nem quizomba nem kuduro, a indústria diz-te para ires morrer longe. Vir para Portugal permitiu-me crescer fora dessa bolha e ficar desbloqueado para todas as redes – e nesse sentido, sim, sou um privilegiado.”

Rap meets coladeira

Ao contrário de Conductor, que “não tem país” (“A minha mãe é cubana, o meu pai é angolano; em Cuba sou angolano, em Angola sou cubano, em Portugal sou mais um preto imigrante”), Chachi Carvalho superou a “crise de identidade” da adolescência e passou os últimos cinco anos a usufruir das alegrias da dupla nacionalidade, o lugar onde verdadeiramente se sente em casa. Viver em Rhode Island permite-lhe não ter de passar pela extenuante disputa de território que suga parte da energia do hip-hop cabo-verdiano (o pai atirou-lhe muitas cassetes de N.W.A. pela janela do carro fora, sim, mas foi por causa da f*** word, esclarece ao PÚBLICO, não por ofender a longa linhagem de músicos tradicionais de que descende); ter raízes em Cabo Verde permite-lhe ser “um rapper mais cool”, um rapper com a ginga da coladeira, a base musical que passou a usar desde que se intensificaram as suas idas e vindas.

Por andar entre cá e lá, Chachi tem bem noção de que o estatuto do hip-hop em Cabo Verde está muito a leste daquele que o género tem no país onde nasceu – a uns milhares de quilómetros de distância, pelo menos. Até porque a comunidade da diáspora, naturalmente nostálgica, não é necessariamente mais aberta: ele próprio vem de uma dessas famílias cabo-verdianas radicadas na América que nunca deixou de falar crioulo em casa, nem de comer cachupa aos domingos. “Para conseguir o meu primeiro concerto nos Estados Unidos, como banda de suporte dos Ferro Gaita, tive de dizer ao agente, o [produtor cabo-verdiano] Gugas Veiga, que, ponto um, a minha banda tocava ao vivo e, ponto dois, ia encher o recinto de brancos”, contou na sessão do Palácio da Cultura Ildo Lobo.

Depois desse concerto, teve convites para actuar em vários festivais de Cabo Verde, incluindo o da Baía das Gatas, remisturou uma das suas canções favoritas (Sabim, de Grace Évora) e gravou um vídeo em que vive o tal sonho afro-americano com todo o bling a que tem direito (spa, champanhe, aviões, hotel com piscina). O happy end, com os maravilhosos Ferro Gaita e uma garrafa de grogue, é cabo-verdiano.

O PÚBLICO viajou a convite da Tumbao