Opinião

Mobilidade social: um desígnio para o PSD pós-troika (2)

 1. Na semana passada, e em parte por causa das suas intenções iniciais, qualifiquei, ainda que de passagem, o PSD como um partido de massas. Mas basta ler com atenção o que escrevi para ver que, mesmo à data da sua implantação e afirmação no sistema partidário, ele comportou-se mais como um partido de eleitores, um catch-all party, do que como um convencional partido de massas. E isto apesar da sua forte e estabelecida militância e, bem assim, do controlo que ela e o aparelho que ela produziu exercem sobre as grandes determinantes da vida do partido. A qualificação como partido de eleitores vem, por um lado, da grande abertura e adaptabilidade do seu espectro ou leque ideológico e, por outro, aspecto seguramente mais importante, da primazia da sua composição sociológica sobre a respectiva carta programática. E a ser assim, não pode estranhar-se que as prioridades ideológicas sejam essencialmente definidas por esse “magma” ou “tecido” social em que se consubstancia o PSD. De algum modo, são mais as pessoas – os eleitores e os militantes – que fazem o programa do que o programa que suscita a adesão ou a afeição das pessoas. Os eleitores e militantes não são propriamente atraídos por um programa; eles foram e são – e, questão decisiva no futuro, devem novamente ser – os produtores de um programa que os atrai. Dito de um modo mais apelativo: no PSD, os simpatizantes e os militantes não vêem um programa, eles revêem-se no programa. Porque o programa é, pela própria elasticidade genética ou constitucional (constitutiva) do partido, de algum modo, um reflexo ou uma refracção da afinidade sociológica da sua composição.

2. As coisas ditas e escritas assim podem fácil e enganosamente atirar-nos para a caracterização do partido como um partido de classe. Seria a tal classe “média”, de feição pequeno e médio burguesa ou de pequena e média propriedade rural e de uma boa parte das profissões liberais ou com formação universitária, que teria constituído uma federação política de interesses. Ou quando muito, de interesses e valores. E o PSD – seria um pouco à guisa da análise de Marx – a instituição encarregada de politicamente zelar e velar por esse agregado de interesses e valores. Sem nunca desdenhar da pertinência de uma análise social e até da categoria “marxiana” da classe social – análise, em todo o caso, sempre parcelar, relativa e redutora –, não é esse o traço que aqui se pretende realçar. Por mais dialéctica que se reclame, uma análise de classe seria, hoje e irremediavelmente, uma análise estática, conservadora, imobilizadora. O ponto que esta caracterização quer fazer emergir é o ponto móvel, dinâmico, irrequieto – socialmente irrequieto. O que aquela composição sociológica revela, desde os tempos fundacionais até ao presente, mais do que a afinação por um status é a afinidade por uma aspiração ou vocação. Ou, se se quiser, para usar gratuitamente uma velha parelha conceitual da psicologia, aqueles eleitores, simpatizantes e militantes identificam-se, mais do que pela comunhão de “estatuto” (que, em rigor, é tão plural e heterogéneo que não subsiste), pela comunidade de “papel”. Era – e é ou deverá tendencialmente ser ou voltar a ser – um agregado social que possuía uma vontade de liberalização de uma sociedade estatizada, estratificada e petrificada e uma vontade de garantia de um padrão médio de dignidade social. A liberalização – que era económica, mas também política e até moral – era também e ainda a condição de criação de riqueza que garantisse os padrões satisfatórios de dignidade social (em especial, aos mais desfavorecidos enquanto o fossem). Esta comunidade de aspiração ou de vocação – a tal afinidade de “papel”, da missão ou função político-social – explica muito bem aquela correspondência quase automática, aquele laço íntimo, entre uma certa “composição sociológica” e uma dada “programação” ideológica”.

3. Durante os anos de ajustamento, o PSD foi chamado – liderando um governo de coligação com o CDS – a executar um duríssimo programa de austeridade e uma vasta lista de reformas, algumas especialmente dolorosas. Muitos foram os que quiseram, de um modo simplista, associar a política desses anos ao programa do PSD. Ou que, pelo menos e usando de igual demagogia, disseram que o PSD, tivesse outro ou tivesse esse, aderiu, de alma e coração, ao programa de ajustamento (geralmente, através da expressão, muito glosada, “querer ir para além da troika”). Não se tratou, na verdade, de nenhuma adesão ou colagem; tratou-se tão-só e simplesmente do reconhecimento de que o país estava em “estado de necessidade”, em “estado de emergência financeira”. E que, portanto, o leque de alternativas existente era praticamente nulo. Imposto ou não imposto pela troika, uma vez reconhecida a situação de falência ou bancarrota dos cofres do Estado, a margem de manobra era reduzidíssima e o programa a executar implicaria sempre custos e sacrifícios brutais.

Ultrapassado com sucesso este contexto, como ainda recentemente sublinhou, em pleno Conselho de Estado, o Presidente do BCE, o PSD venceu as eleições. Venceu as eleições, mas não logrou atingir uma maioria que lhe permitisse formar governo. E, por conseguinte, é o maior partido português, mas é também o maior partido da oposição. Cabe-lhe, pois, analisar, criticar e controlar a actuação do Governo do PS e da esquerda radical. E cabe-lhe também construir uma alternativa de Governo que possa concitar o apoio maioritário dos portugueses e que possa mostrar o que seriam as políticas do PSD num tempo em que, apesar das fragilidades evidentes da economia portuguesa, possa já falar-se de normalidade (e não de “excepcionalidade”) financeira e económica. 

4. Com aquela história e aquele capital social e ideológico, verdadeiro património genético do PSD, e com esta experiência de liderar o país numa época de excepção, que grandes causas deve agora protagonizar o PSD?

SIM

Mario Draghi. O discurso no Conselho de Estado revelou mais uma vez a coragem e a frontalidade deste líder europeu, reconhecendo os sucessos do anterior governo e deixando avisos sérios ao Governo Costa.

NÃO

António Costa. O diálogo com Tsipras é positivo e o apoio na política de refugiados é devido. Já o frentismo de esquerda na economia pode dar jeito à coligação interna, mas fragiliza Portugal perante a Europa e os mercados. 

Eurodeputado (PSD). Escreve à terça-feira. [email protected]

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