Nuno Ferreira Santos
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Entrevista

Hugo tinha saudades da “Cavaca” e ofereceu primeira-dama a Marcelo

É uma "fumadora crónica", tem uma assistente chamada Dona Coisa e ainda está a tentar lidar com a colecção de presépios da sua antecessora. Brites de Almeida é uma criação de Hugo van der Ding, o mesmo autor de “Cavaca para Presidenta” e “A Criada Malcriada”.

Um cartoonista que não sabe desenhar? Hugo van der Ding apresenta-se assim. Começou por desenhar “A Criada Malcriada” com uma caneta Bic. Sete páginas de Facebook com cartoons e um programa de televisão depois, idealizou uma primeira-dama oficial para Marcelo Rebelo de Sousa, desta feita já com “marcadores de dez euros”. Hugo, 39 anos e apelido artístico van der Ding, sentia-se órfão de primeira-dama. Não vivia bem com a partida de Maria Cavaco Silva do Palácio de Belém, findo o segundo mandato do antigo Presidente da República. “Portugal não tem primeira-dama. Não tinha. Agora já tem: Brites de Almeida, a primeira primeira-dama independente da história.” Foi com estas palavras que a apresentou ao Facebook — e ao mundo —, dois dias depois da tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, a 9 de Março último. A “Cavaca para Presidenta”, página com mais de 44 mil seguidores, deixou de fazer sentido. “Agora é uma maldade porque ela já não é primeira-dama, assim não dá direito a ‘bullying’”, justifica o também tradutor.

Hugo van der Ding, que só há pouco tempo resolveu sair do anonimato que o caracterizava, passa os dias a fazer cartoons. A série que a sua primogénita "A Criada Malcriada" tem na Fox Comedy é coisa para lhe ocupar muito tempo. Arquivados estão mais de dois mil cartoons, “numa caixa de cartão gigante”. Na parede, assegura, não tem nenhum. “Todos os meus amigos têm, eles pedem-me e eu dou-lhes no Natal e nos aniversários. É uma prenda a custo zero. Mas se me fizessem o mesmo ia ficar muito chateado.”

Não acreditas num Presidente da República solteiro?
Depois da "Cavaca" ficámos um bocadinho órfãos de primeira-dama, não é? Fiquei muito triste. Adorava continuar a página da “Cavaca para Presidenta” mas agora é uma maldade porque ela já não é primeira-dama. Assim não dá direito a “bullying”.

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Achas que uma primeira-dama oficial tornaria Marcelo Rebelo de Sousa menos hiperactivo?
Ele tem uma primeira-dama, mas não oficialmente. Se calhar ajudava um bocadinho a decidir as coisas mais protocolares. Agora falando um bocadinho a sério: acho o papel de primeira-dama ridículo. Hoje em dia já não se justifica uma mulher ter uma função só por ser casada com quem quer que seja.

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Porquê o nome da Padeira de Aljubarrota?
Estive a pensar num nome e não queria arranjar um que pudesse lembrar outra pessoa qualquer — daí a Brites de Almeida.

Acreditas que a Brites de Almeida deve seguir os passos de Hillary Clinton e candidatar-se à presidência, no final do mandato do marido?
A ideia é essa — e já daqui a cinco anos. Com a “Cavaca” não correu muito bem, não conseguimos recolher as assinaturas suficientes. Vou criar uma petição online para as arranjar. Eu ainda não decidi muito bem qual é o caminho da Brites de Almeida, mesmo em termos de personalidade. Ainda está a nascer, não percebi se ela vai interagir com Marcelo, se vai ser mais independente ou andar nos mesmos sítios que ele.

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Já deu para perceber que fuma.
Ela é fumadora crónica e está a tentar apagar a herança da “Cavaca” no Palácio de Belém, em termos de decoração. Está muito ocupada com essa parte. E, sobretudo, com os presépios. A prioridade é pôr em caixas.

Brites e “Cavaca”: quem teria mais potencial?
Gosto mesmo muito da "Cavaca". Criei uma relação afectiva com ela. Acho que podia existir uma coisa tipo o Papa: uma delas era emérita, como o Bento VXI.

Tens alguma dificuldade em dizer adeus à “Cavaca”, não tens?
Completamente. Ainda não me consegui libertar dela. É a única primeira-dama que não deixou uma obra que dura, deixou-nos os presépios. É fascinante: uma primeira-dama que deixa como herança, ao fim de dez anos, uma colecção interminável de presépios. Só se pode adorar.

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Brites de Almeida e Hugo van der Ding Nuno Ferreira Santos

Que diferenças há entre as personalidades destas duas primeiras-damas?
A “Cavaca” gostava muito de ser primeira-dama. A Brites é mais pelo sentimento patriótico como, aliás, a sua homónima precedente. Como não podíamos estar sem primeira-dama, a Brites sacrificou-se para fazer uma coisa que até nem gosta muito. Já a “Cavaca” fez imensas coisas: ia a escolas, entregava uns prémios. E os presépios, claro. Aquilo devia ser um “excitex”: “Deixa ver que presépio é que me vão dar hoje na Missão Sorriso do Continente”. A Brites não liga muito a essa parte dos presentes.

Como é que a Brites vai lidar com o cão oficial do Presidente da República?
O cão vai ficar ao cuidado da assistente, a Dona Coisa, porque a Brites não gosta muito de acordar cedo e os cães vão à rua logo de manhã. A Brites funciona mais da parte da tarde; para já, pelo menos.

Há alguma relação entre a Brites de Almeida e a Criada Malcriada?
Têm ambas uma personalidade um bocadinho pespineta, não é? Mas é um registo diferente. Acho que elas se conhecem, já se cruzaram num sítio qualquer. Mas não são primas nem nada.

O que é que a Brites de Almeida fazia antes de ser primeira-dama?
A Brites de Almeida vive um bocadinho de esquemas. Ela fazia coisas por conta própria, uns negócios com umas amigas. Mas é melhor não falar muito nisso porque é capaz de ser chato para a primeira-dama …