Opinião

Mais do que o “benefício da dúvida”

Convidado para Ministro da Cultura, Castro Mendes é credor de mais que o “benefício da dúvida”, antes havendo razões que permitem suscitar expectativa.

Com uma consumada capacidade política que nem mesmo os adversários deverão deixar de lhe reconhecer, o primeiro-ministro, António Costa, procedeu muito bem em todo o episódio das “bofetadas” e seus sucedâneos políticos. Esteve bem em, para todos os efeitos, ter desautorizado publicamente o seu ministro autor dos insultos e ameaças; esteve bem porque, dizendo que nos próximos dias, que não de imediato, se ocuparia da nova nomeação, ainda assim tendo-a concretizado com brevidade; e, ao convidar o embaixador Luís Filipe Castro Mendes, ter contornado os nomes que em situações destas sempre surgem como potenciais sucessores.

Castro Mendes é credor de mais que o “benefício da dúvida”, antes havendo razões que permitem suscitar expectativa. Como diplomata de carreira, é um homem dos meandros da política, mas é também um homem de cultura, escritor e designadamente poeta. Tem o óbice de, por força das suas continuadas funções diplomáticas, estar há anos arredado de um real conhecimento sobre o estado das actividades e instituições culturais que vai tutelar. Mas também por essa distância é, como poucos, credor de um período de “estado de graça”, que em qualquer caso a surpresa da sua nomeação potencia, e que é necessário, mais que necessário, para fazer um diagnóstico da situação e começar então a tomar medidas.

Por isso, e só por isso, importa retomar factos que ocorreram com o seu predecessor.

Um tem estritamente a ver com as suas políticas e nomeações. É irónico que, se à dicotomia política consagrada de direita-esquerda, correspondam também concepções culturais diferentes – pondo a tónica quase em exclusivo no património ou acentuando também a importância do incentivo à criatividade –, o ex-ministro, homem de esquerda, tenha tido uma política assaz patrimonialista de nomeações, nalguns casos amiguistas e incompetentes, como noutras de pessoas competentes mas não nos cargos para os quais foram nomeados.

No reverso da política do ex-ministro, “todo o terreno”, como lhe chamou Luís Miguel Queirós, há também um outro dado importante e credor de sérias reflexões. Comportou-se aquele como um “Príncipe”, o que é síndrome de muitos dos titulares, mas numerosos agentes aceitaram colocar-se em posição de subserviência, como se de facto se tornassem parte de uma “cultura de corte”.

São tudo factos sobre os quais o novo ministro deve reflectir, assumindo-se, como em princípio tem capacidade para o fazer, como um decisor político com sensibilidade cultural. E é por ter potencialmente essas capacidades que o nóvel ministro merece mais que o “benefício da dúvida”.