Embaixador Luís Filipe Castro Mendes é novo ministro da Cultura

O representante de Portugal junto do Conselho da Europa em Estrasburgo foi o nome escolhido para substituir João Soares.

Fotogaleria
Luís Filipe Castro Mendes, nascido em 1950 em Idanha-a-Nova, não tem só carreira diplomática, sendo também poeta e ficcionista (fotografia retirada da página do diplomata no Facebook) DR
Fotogaleria
Luís Filipe Castro Mendes, nascido em 1950 em Idanha-a-Nova, não tem só carreira diplomática, sendo também poeta e ficcionista ANABELA TRINDADE (foto de arquivo)

O novo ministro da Cultura vai ser o embaixador e poeta Luís Filipe Castro Mendes, actual representante de Portugal junto do Conselho da Europa em Estrasburgo, e Miguel Honrado, actual Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional de D. Maria II, é o novo secretário de Estado em substituição de Isabel Botelho Leal, foi anunciado neste domingo no site da Presidência da RepúblicaCastro Mendes é assim o escolhido por António Costa para substituir João Soares, depois da polémica das bofetadas

“Aceitei com muita honra e responsabilidade o convite que me foi feito pelo sr. primeiro-ministro”, disse ao PÚBLICO Luís Filipe Castro Mendes, que preferiu não fazer quaisquer outras declarações antes de assumir o cargo e se limitou a assegurar: “É um desafio ao qual procurarei responder tão bem quanto puder e souber”.

A tomada de posse terá lugar na próxima quinta-feira, dia 14, depois da deslocação do Presidente da República a Estrasburgo nos dias 12 e 13 – a ida de Marcelo Rebelo de Sousa ao Parlamento Europeu, onde vai intervir, foi anunciada há cerca de três semanas. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou este domingo à Lusa que o novo ministro da Cultura é "um grande poeta, um grande ensaísta e uma grande figura da Cultura portuguesa, além de ser um magnífico embaixador". 

Castro Mendes está no Conselho da Europa desde 2012, depois do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, ter levado a cabo uma renovação dos seus embaixadores. Antes, Luís Filipe Castro Mendes era o representante de Portugal junto da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

A escolha do embaixador acontece apenas dois dias depois de João Soares anunciar a demissão do cargo. Soares demitiu-se depois de na quarta-feira ter reagido no Facebook a uma crónica de Augusto M. Seabra no PÚBLICO. Seabra criticou a afirmação de “um estilo de compadrio, prepotência e grosseria”, diagnosticando “uma situação de emergência” no sector nos quatro meses em que Soares esteve com a pasta. E o então ministro respondeu, ameaçando o crítico com "duas bofetadas" e incluindo ainda Vasco Pulido Valente no post que publicou no Facebook por também este já o ter criticado no jornal.

Depois de António Costa ter reagido na noite de quinta-feira, lembrando que os membros do Governo têm de ter cuidado com o que dizem e pedindo desculpa pelos actos do ministro, Soares demitiu-se na sexta-feira, alegando "profunda solidariedade com o Governo e o primeiro-ministro", acrescentando ainda não aceitar "prescindir do direito à expressão da opinião e palavra".

Pouco tempo depois, Costa dizia aceitar "naturalmente" o pedido de demissão de Soares, com a promessa de nomear um novo ministro da Cultura em breve.

Luís Filipe Castro Mendes, nascido em 1950 em Idanha-a-Nova, é um embaixador poeta que gosta de pensar esse duplo estatuto e a sua história respeitável, repleta de grandes nomes de escritores. A sua formação universitária é Direito, mas os ambientes em que se integrou, ainda enquanto estudante, foram os literários.

Começou a publicar ainda muito cedo, adolescente, no suplemento juvenil do Diário de Lisboa, quando ainda não vivia em Lisboa (o pai era juiz, o que lhe ditou uma vida nómada pela província; essa é a razão pela qual nasceu em Idanha-a-Nova) e começou a estabelecer ligações com algumas pessoas de uma nova geração (por exemplo, Jorge Silva Melo), que foram determinantes também na sua consciência política.  

A sua estreia em livro foi em 1983, com Recados, publicado na Imprensa Nacional, numa colecção de jovens poetas, criada por Vasco Graça Moura. No ano seguinte publicou a obra de ficção Areias Escuras, à qual sucedeu Seis Elegias e Outros Poemas, que mereceu o Prémio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Publicou ainda Ilha dos Mortos (1991). Mas a sua plena afirmação enquanto poeta deu-se dez anos depois, com um livro chamado Viagem de Inverno (1993). Seguiram-se O Jogo de Fazer Versos (1994), Modos de Música (1996), Outras Canções (1998), Poesia Reunida (1985-1999) e Os Dias Inventados (2001).

Nessa altura, já tinha feito o habitual périplo dos inícios da carreira diplomática (ainda não como embaixador) em Angola, Madrid e Paris. Para trás, tinham ficado as experiências de assessor de Melo Antunes, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e do Presidente Ramalho Eanes.

Em meados dos anos 90 foi colocado como cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro. A sua primeira missão como embaixador foi em Budapeste e depois em Nova Deli. Nessa experiência indiana radica um dos seus livros de poesia, Lendas da Índia, de 2011, que foi distinguido com o Prémio António Quadros, atribuído pela Fundação com o mesmo nome, com Lendas da Índia, editado pela Dom Quixote.

Há dois anos, era então embaixador de Portugal junto da UNESCO, em Paris, publicou um livro cujo título destoava um pouco da sua obra - com um forte pendor de auto-reflexão poética e feita de referências culturais - e marcava uma inflexão para a dura “prosa do mundo" - A Misericórdia dos Mercados (Assírio & Alvim). O seu último livro, publicado há dois meses, chama-se Outro Ulisses Regressa a Casa (Assírio & Alvim). 

Luís Filipe Castro Mendes é também um dos autores incluídos na edição 100 Livros Portugueses do Século XX, do Instituto Camões. Como o título indica, são 100 obras de autores portugueses seleccionadas por Fernando Pinto do Amaral, poeta, professor universitário e crítico literário. Do novo ministro da Cultura, Pinto do Amaral escolheu o A Ilha dos Mortos (1991, Quetzal): "Luís Filipe Castro Mendes destacou-se como uma das vozes mais notáveis da poesia portuguesa dos finais do século XX. Reactualizando de um modo pessoal a nossa tradição lírica (por vezes mantida na métrica ou na rima) e sabendo integrar as heranças de um passado em que se cruzam influências da música, das artes plásticas, etc". 

A cultura literária - e sobretudo a poesia – é o traço mais marcante de Luís Filipe Castro Mendes. E enquanto embaixador, nos lugares por onde passou, deixou marcas nessa área. No Rio de Janeiro, por exemplo, quando foi cônsul-geral, teve um papel importante nas trocas culturais (e sobretudo literárias) entre Portugal e o Brasil. Em relação às outras artes, é um homem de formação clássica. Do ponto de vista político, para além da sua iniciação, antes do 25 de Abril, nos sectores da oposição não alinhada com o Partido Comunista nem com o maoísmo, situou-se sempre na entourage do Partido Socialista, mas na sua ala mais à Esquerda. 

"Uma figura consensual"

O ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas (2011/2012) disse ao PÚBLICO que se trata de "uma escolha muito sensata, em termos políticos, e de uma pessoa muito adequada ao cargo".

"Não por ser um diplomata (o que é bem capaz de ser um factor importante) mas por ser uma figura consensual em quase todos os meios, capaz de consensos. É um magnífico poeta, um homem culto e ponderado, muito bem relacionado, um profundo conhecedor das matérias culturais europeias, e acho que vai - como se diz na diplomacia também - fazer um bom lugar", acrescentou o também escritor e editor. 

"Acho que é uma óptima escolha”, concorda o poeta Nuno Júdice. "É uma pessoa que conhece muito bem o mundo da cultura e que tem também projecção internacional, o que é importante para o cargo”. Defendendo que “é completamente diferente estar um funcionário do mundo da política ou um escritor no Ministério da Cultura”, Júdice lembra ainda a passagem de Luís Filipe Castro Mendes pelo Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro, contando que os seus amigos brasileiros lhe diziam que durante o seu mandato “aquilo foi um centro cultural português”, tantas eram as actividades de divulgação da cultura portuguesa desenvolvidas pelo diplomata.

Uma descrição que coincide com o que o romancista José Eduardo Agualusa escreveu este domingo na sua página de Facebook. Saudando a escolha de Castro Mendes, que considera "uma boa notícia para Portugal, para o Brasil e para a língua portuguesa de uma forma geral", Agualusa diz ter conhecido o diplomata quando se mudou para o Rio de Janeiro e recorda que este "abriu as portas do belíssimo Palácio de São Clemente a todos os produtores culturais, e transformou-o num verdadeiro centro de aproximação da lusofonia".

Também o poeta e ensaísta Fernando Pinto do Amaral se mostrou “muito satisfeito” com a opção tomada por António Costa. “É um homem muito lúcido, com uma sensibilidade cultural muito evidente, e tenho as melhores expectativas”. Considerando que “a escolha de um poeta para ministro da Cultura é um excelente sinal”, Pinto do Amaral salienta ainda o cosmopolitismo de Luís Filipe Castro Mendes, alguém que “conhece bem o mundo e não tem uma visão paroquial ou provinciana” e que, em todos os lugares onde esteve como diplomata, do Brasil à Hungria ou à Índia, “promoveu sempre muito a cultura”. Fernando Pinto do Amaral integrou com Vasco Graça Moura e Pedro Tamen o júri que deu a Luís Filipe Castro Mendes, pelo livro O Jogo de Fazer Versos (1994), o prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus. 

Para o cineasta António Pedro Vasconcelos, o nomeação de Castro Mendes tem duas vantagens: "a de aparentemente não estar ligado a nenhum lobby, e a de ser embaixador, alguém com a mente aberta, com vivência noutros países". "O facto de conhecer menos bem o meio pode ser uma vantagem. Agora, há duas coisas que são importantes no ministério da Cultura: uma é ter ficado com a tutela da RTP, que deve ter uma atenção especial; a outra é o livro, que deve ser um dos eixos da política da cultura". Vasconcelos aponta ainda caminhos de actuação num ministério que vive num garrote financeiro: "Tem que haver uma coordenação com outras pastas, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Finanças... São precisos acordos para políticas transversais. E uma melhor distribuição de recursos, é preciso perceber onde há falta de rigor e onde há desperdício. Deve haver ainda uma colaboração com o a sociedade civil e um apelo à criatividade, é preciso inventar fórmulas".

Ressalvando que conhece mal o novo ministro, o cineasta desvaloriza "a personalidade" em contraponto com o programa que o Governo definiu para a Cultura. "Os programas devem ser claros em relação ao que vai ser a política da cultura. Claro que um ministro deve ser alguém credível, que saiba sobre o que está a falar, que saiba o que é a criação artística, que conheça a História, que conheça Portugal, as pessoas… só depois vem a personalidade, com mais ou menos determinação, conciliação ou rupturas. Mas o que acho errado é que as políticas da cultura dependam da personalidade do ministro quase em exclusivo - e é isso que tem acontecido desde o 25 de Abril." E remata: "Em Portugal, as políticas da cultura são sempre, sempre, sempre feitas para os artistas. Proponho que se comece a falar nos utentes da cultura". 

Por sua vez, Catarina Martins disse este domingo à Lusa que o novo ministro da Cultura "é um nome respeitado", mas recordou que o que "interessa é o concreto das políticas públicas" porque "será preciso fazer muito para estar à altura do que o país precisa". A  porta-voz do BE acrescentou que "o que é preciso agora é haver um mandato. É com certeza um nome respeitado, mas o que interessa é o concreto das políticas públicas para a cultura que Portugal não tem tido e precisa ter", alertando que "será preciso fazer muito para estar à altura do que o país precisa neste momento".

Também para o PCP, independentemente de quem seja o titular do Ministério da Cultura, o importante é "haver uma resposta" aos problemas que afectam o sector, "que foi conduzido ao longo de anos e particularmente nos últimos quatro anos a um subfinanciamento crónico, que prejudica a criação cultural, que prejudica a protecção do nosso património, que deixa sem resposta milhares de produtores", afirmou Jorge Cordeiro aos jornalistas, em Ponta Delgada, Açores, segundo a Lusa.