Espanha vale um terço das exportações nacionais de têxtil e vestuário

Produtos portugueses foram crescendo à medida da dimensão de grupos como a galega Inditex, dona da Zara. Estudo mostra a relação de complementaridade entre regiões dos dois países.

Indústrias transformadoras, como a têxtil, concentram elevado número de empresas com potencial de grande crescimento
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Indústrias transformadoras, como a têxtil, concentram elevado número de empresas com potencial de grande crescimento Enric Vives Rubio

O cluster transfronteiriço do sector têxtil, que engloba as regiões do Norte de Portugal e da Galiza, e que começou a ser pensado em finas de 1999, é actualmente um exemplo de complementaridade e de integração difícil de replicar não só em outras regiões do país como em todo o mundo.

A conclusão é do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Galiza – Norte de Portugal (GNP-AECT), num estudo em que o grupo de trabalho analisou os vários elos da cadeia de valor deste sector empresarial.

O estudo revela as razões históricas e as estratégias seguidas por cada país, num percurso que permitiu que ambas não se considerem concorrentes, mas antes complementares, e que estejam a trabalhar em estratégias conjuntas que garantam estabilidade e até algum potencial de crescimento durante a próxima década.

No estudo, a que o PÚBLICO teve acesso, e que vai ser apresentado esta sexta-feira durante a cerimónia de geminação da cidade de Famalicão, no Norte de Portugal, e Arteixo, a cidade galega que é sede da gigante do sector, a Inditex (dona da Zara e um dos principais grupos mundiais de retalho), fica bem claro onde as duas regiões se complementam.

A Galiza  especializou-se na venda ao cliente final (Business to Consumer) arrastada pelo fenómeno Inditex, que impôs a sua capacidade de desenvolvimento de marca, com grande rotação de produto, e o Norte de Portugal especializou-se na venda ao segmento empresarial (Business to Business), em dar respostas rápidas e eficientes aos seus clientes, oferecendo matéria-prima e confecção especializada de qualidade.

Portugal tem vindo a ser um dos fornecedores de confiança da Galiza e, mesmo após a globalização do comércio mundial e o aparecimento de novos players, “não deixou de ir conquistando o seu lugar, tendo nos últimos 10 anos mais do que duplicado o valor dos produtos vendidos no outro lado da fronteira”.

A organização integrada da fileira no lado português, as competências dos recursos humanos que se têm reflectido na diferenciação dos produtos pela sua qualidade e inovação, e o aparecimento progressivo “de casos bem-sucedidos de marcas e selecções nacionais com afirmação local e bom potencial de expansão internacional” são algumas das forças identificadas pelo estudo. E que, assim, conseguem subir na cadeia de valor e deixam de ser apenas fornecedores de terceiros.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) a produção em valor do sector português quintuplicou o da Galiza em 2014, atingindo os 3143 milhões de euros na indústria têxtil, e 3264 milhões de euros na indústria de vestuário, perfazendo um total de 6407 milhões de euros.

O sector português exporta mais de 80% da sua produção, e Espanha é o principal destino, com 32% de quota no total. Espanha foi também o destino que mais cresceu do ponto de vista absoluto em 2014, com um acréscimo de 141 milhões de euros de 2013 para 2014, equivalente a um crescimento de 11%.

Questionado pelo PÚBLICO, o presidente da Associação Têxtil de Portugal diz que as conclusões sobre a complementaridade dos dois sectores a que chegou o grupo de trabalho apenas vieram confirmar o que os empresários sentem no terreno há já muito tempo. “Digamos que o cluster já existia no formato ‘selvagem’, agora é uma colaboração e uma cooperação que tem um carácter mais formal, e que é até modelar”, diz Paulo Vaz. Para este dirigente, “não se tratou de sobrevivência, mas sim de estratégia”, já que o sector português está, cada vez mais, baseado na sua competência produtiva, e augura para os dois lados da euroregião um futuro de crescimento, sempre assente em estratégias concertadas. “A nossa próxima aposta é o mercado digital, e um trabalho mais exaustivo na angariação de jovens empreendedores para este sector”, vaticina.

Também o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento regional do Norte, Emídio Gomes, considera que a estratégia prevaleceu ao instinto de sobrevivência. “Esta complementaridade não é fruto do acaso, mas sim da capacidade de planeamento e operacionalização das instituições, assim como do papel proactivo dos empresários”, respondeu ao PÚBLICO, defendendo que o cluster transfronteiriço do sector têxtil e vestuário tem de ser replicável noutros sectores “para bem das economias das duas regiões e dos dois países”.

“Estou certo que, nesta matéria, o país só tem a ganhar com a aposta na complementaridade e sinergias que continuaremos a apadrinhar”, afirmou, elencando vários sectores onde encontra massa crítica e actores que se complementam: saúde e envelhecimento activo, indústria da mobilidade, turismo, indústrias criativas e tecnologias de informação e comunicação (TIC).