“Não foram as redes sociais que demitiram João Soares, mas sim o primeiro-ministro”, diz perito

Dois especialistas dizem que promessa de bofetadas não explica o pedido de demissão.

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O Facebook de João Soares DR

João Soares voltou esta sexta-feira ao Facebook, onde publicou uma imagem de uma praia tranquila e os termos do seu pedido de demissão do cargo de ministro da Cultura — palavras que já tinham sido tornadas públicas à imprensa. “Demito-me também por razões que têm que ver com o meu respeito pelos valores da liberdade. Não aceito prescindir do direito à expressão da opinião e palavra”, lê-se no final da nova publicação.

João Soares regressou ao lugar onde a história tinha começado, na quinta-feira de manhã, quando prometeu um "par de bofetadas" a dois colunistas do PÚBLICO. Ou seja, aparentemente, o seu Facebook vai continuar activo, porque tem “direito à expressão da opinião” e à “liberdade”.

“Não foram as redes sociais que demitiram João Soares, mas sim o primeiro-ministro quando o censurou publicamente”, diz Francisco da Silva, consultor em comunicação, marketing político e redes sociais, que até há poucos meses era director de marketing do Twitter em Portugal. “Quando ao final da noite António Costa reprova a conduta do seu ministro em público, a partir daí só lhe resta a opção de se demitir. Pelas declarações do primeiro-ministro vemos que o que ele queria mesmo era um pedido de desculpas e não foi o que aconteceu. Obviamente veio pedir a demissão do seu ministro.”

Segundo Francisco da Silva, o problema terá estado no pedido de desculpas pouco explícito, e até um pouco sarcástico ("Sou um homem pacífico, nunca bati em ninguém. Não reagi a opiniões, reagi a insultos. Peço desculpa se os assustei"), que João Soares enviara durante a tarde por SMS ao Expresso e à Lusa. “Tal como foi irónico nesta nova mensagem no Facebook, em que diz que não prescinde da sua liberdade, mas o que eu interpreto é que não se refere à liberdade de escrever no Facebook, mas à liberdade de ter a sua opinião sem o primeiro-ministro o vir repreender.”

O especialista em redes diz que até ao SMS de Soares “não havia facto político” que levasse à demissão, uma vez que o “par de bofetadas” é uma força de expressão e em momento algum passou pela cabeça ao ministro (ou aos visados) passar das palavras aos actos. “O facto político aqui é António Costa ter pedido desculpas aos colunistas, quando o seu ministro se recusou a fazê-lo duas vezes”, infere Francisco da Silva, que sublinha que não tem nenhuma informação privilegiada e não sabe o que se passa dentro do PS. No comunicado formal que viria a enviar à Lusa ao final da noite, já depois de tornadas públicas as declarações de Costa, Soares pediria desculpa pelas ofensas, mas sublinhava novamente que tinha reagido a um "ataque pessoal insultuoso". 

Manuel Costa Andrade, professor de Direito da Universidade de Coimbra e antigo deputado (PSD), diz que à partida, em termos de responsabilidade política, este não lhe parecia um caso que chegasse ao pedido de demissão, depois de ter afastado que pudesse existir qualquer responsabilidade criminal ao nível da ameaça física por causa da promessa de bofetadas. “E a responsabilidade política depende do tom, sentido, contexto e conexão das palavras. É evidente que os termos usados pelo senhor ministro não são, digamos, de uma grande elegância. Mas, em geral, não me parece que a discussão tornasse exigível a demissão.”

Já no plano concreto e subjectivo, depende muito da sensibilidade e "da consciência" da pessoa em causa, a quem cabe o último juízo, argumenta. “João Soares é que sabe com que intenção e seriedade fez as declarações e a partir daí pode considerar que não tem condições pessoais. Há aqui uma interpretação subjectiva e João Soares disse que não queria ter a sua liberdade condicionada.”

Francisco da Silva vê neste processo “demasiados erros de comunicação seguidos”, o último dos quais o recado de Costa dado pela imprensa, “quando [o assunto] podia ter sido resolvido de forma privada”. O erro de João Soares, insiste, foi não ter considerado que, a partir do momento em que se tornou ministro, “o político é pessoal e o pessoal é político”. “Ele está a representar o país, as pessoas que o elegeram, a confiança de outros membros do Governo nele próprio.”

Na sua opinião, o Facebook é igual para todos e o caso das bofetadas mostra “falta de maturidade” e “ingenuidade” na utilização das redes sociais. “O Facebook não é um espaço privado, propriedade de qualquer um dos ministros." Mas alguns, admite, parecem achar que o que lá escrevem é como "um artigo de opinião para um jornal que ficasse só reservado aos seus amigos”.