Se os alunos da Caparica fugissem da guerra, não esqueciam a escova de dentes

Iniciativa E se fosse eu? Fazer a mochila e partir mobilizou cerca de 600 escolas nesta quarta-feira. Logo de manhã, o ministro da Educação esteve na Charneca da Caparica, onde os alunos pouco variaram nos conteúdos escolhidos para levar na fuga.

A escola da Charneca da Caparica foi uma das cerca de 600 que se associaram à iniciativa em todo o país
A escola da Charneca da Caparica foi uma das cerca de 600 que se associaram à iniciativa em todo o país Miguel Manso
Miguel Manso
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Ainda não são 9h quando os alunos da escola básica de Vale Rosal, na Charneca da Caparica, em Almada, são desafiados a sentirem o que sentem aqueles que fogem da guerra. Começaram por ver imagens de refugiados em fuga da Síria, de crianças mais novas do que eles que praticamente deixaram de conseguir dormir devido ao medo e aos pesadelos. Como Shed, de sete anos, ou Walaa, de cinco, que integram o conjunto de imagens captadas pelo fotógrafo Magnus Wennman, que quis precisamente mostrar onde dormem estas crianças refugiadas e o que lhes povoa os sonhos.

Afonso, de dez anos, reteve a história destas meninas e resume-a aos ministros Tiago Brandão Rodrigues (Educação) e Eduardo Cabrita (ministro adjunto): “Estava lá uma menina que fingia que dormia, mas não conseguia porque tinha pesadelos.”

A sua sala do 5.º ano foi a primeira a ser visitada pelos governantes no âmbito da iniciativa E se fosse eu? Fazer a mochila e partir, a que nesta quarta-feira aderiram cerca de 600 escolas. O objectivo é o de tentar que os alunos portugueses se ponham na pele dos milhares de refugiados, que continuam a procurar um porto de abrigo na Europa, através de um exercício que, na fuga, pode fazer a diferença entre a vida e a morte: o que levar numa mochila se, de repente, for obrigado a partir.

Promovida pela Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), em colaboração com a Direcção-Geral da Educação, o Alto Comissariado para as Migrações e o Conselho Nacional de Juventude, a iniciativa é descrita como um “exercício de empatia”.

“São famílias exactamente como as nossas. Mas uma mochila, para eles, representa a vida toda”, diz o ministro da Educação, numa das aulas que visitou na escola da Charneca da Caparica, no distrito de Setúbal.

Como os conflitos raramente deixam alguém imune, existem também outras diferenças. Mohammed, de 13 anos, um dos fotografados por Magnus Wennman, revela o que descobriu: “O estranho na guerra é que uma pessoa se habitua a estar com medo.”

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Uma almofada e um bebé chorão

Na Charneca da Caparica, concelho de Almada, Tiago Brandão Rodrigues vai desafiando os alunos a mostrar o que trouxeram então nas suas mochilas e o conteúdo pouco varia, seja no 4.º, no 5.º ou no 7.º ano. Roupa, medicamentos, escova e pasta de dentes, comida enlatada, água, telemóvel.

Mas na sala dos mais pequenos, Matilde tem mais para mostrar: uma enorme almofada azul, um boneco tipo bebé chorão e também os seus cadernos e livros da escola, que enfiou na mesma mochila e que diz que levaria com ela. Na mesma sala, outra menina não hesita na resposta quando o ministro da Educação a aconselha a que da próxima vez não se esqueça também do carregador de telemóvel: “Lá não há tomadas.”

O carregador, bem como os medicamentos, são objectos recorrentes nas mochilas dos refugiados fotografados por Tyler Jump, na ilha de Lesbos, na Grécia, no âmbito do projecto What’s in my bag, que inspirou a iniciativa desta quarta-feira em Portugal. São imagens partilhadas nas escolas que aderiram e onde também há espaço para conhecer as descrições de quem ficou quase sem nada.

 

É o caso de Noar, 20 anos. Conta que deixou a Síria com duas malas, mas que os traficantes, a quem pagou para conseguir fugir, disseram que apenas podia levar uma. “A outra mala tinha toda a roupa. Isto é tudo o que restou.” Isto são pequenas coisas como um terço, que a namorada lhe ofereceu, ou uma bandeira síria.

“Se fugisse, teria que fugir com Deus”

O ministro da Educação quer também saber o que os alunos pensam destes vídeos disponíveis no site criado para esta iniciativa. “Tristeza, dor, medo”, resume uma aluna do 7.º ano. Sentada na mesma mesa, Marta, de 12 anos, diz: “São pessoas como nós, que estão a fugir da guerra e não querem provocar mais terror. As pessoas deviam ter isso em conta quando comentam que os refugiados são terroristas.”

Eduardo Cabrita aproveita para informar que Portugal já acolheu cerca de 200 refugiados. “Proporcionalmente, é o país europeu que recebeu mais”, afirma. Desde o início de 2015 chegaram à Europa mais de 1,5 milhões de pessoas. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 80% têm condições para pedir asilo e receberem o estatuto de refugiados. Mas a maioria continua à espera nos campos instalados na Grécia, Itália e Turquia, já que até agora apenas poucas centenas conseguiram um lugar para viver na União Europeia. 

Nos corredores da escola básica de Vale Rosal, que integra o agrupamento Daniel Sampaio, há poemas nos corredores. Sobre a guerra, a fuga, a resistência. “Se fugisse, teria que fugir com Deus”, escreveu Beatriz, de nove anos, para acrescentar: “Poderia perder a vida, mas sempre com esta frase na minha mente: eu tentei fugir”.

O Presidente da República também aderiu à iniciativa e visitou, ao princípio da tarde de ontem, a Escola Secundária Eça de Queirós, em Lisboa. Antes, Marcelo revelara à TSF o que levaria na mochila no caso de ter de fugir: “O mínimo possível, mas não resistia a levar um livro”. Três hipóteses: A Condição Humana, de Malraux, Ulisses, de Joyce ou A guerra e Paz, de Tolstoi, embora este tenha a desvantagem de ser muito volumoso, disse. 

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