WhatsApp expande encriptação a mil milhões de utilizadores

Mensagens, telefonemas, imagens e vídeos trocados no WhatsApp estão agora protegidos. Depois da batalha legal com a Apple, o Governo norte-americano ganha um novo e maior adversário no duelo entre segurança e privacidade.

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O WhatsApp foi adquirido em 2014 pelo Facebook por 16,9 mil milhões de euros. Justin Sullivan/Getty Images/AFP

O serviço de mensagens WhatsApp anunciou o reforço e a expansão da sua funcionalidade de encriptação de dados a todos os utilizadores da última versão da popular aplicação móvel. Mensagens, telefonemas, imagens e vídeos passam a circular na plataforma de modo totalmente codificado, sendo apenas decifráveis pelo destinatário. A empresa deixa de ter a possibilidade de visualizar o conteúdo trocado pelos seus utilizadores, ficando impossibilitada de aceder a eventuais pedidos das autoridades judiciais.

Recentemente, um administrador do Facebook foi detido no Brasil (onde o serviço chegou a ser suspenso) devido à recusa do WhatsApp em acatar uma ordem judicial para ceder acesso a mensagens trocadas entre arguidos. Fundado em 2009 por antigos funcionários da Yahoo!, o serviço foi adquirido em 2014 pelo Facebook por 16,9 mil milhões de euros.

A actualização com as novas características de segurança está disponível para qualquer tipo de telemóvel que suporte a aplicação, do iPhone aos smartphones Android, passando pelos BlackBerry, Windows Phone e os velhos Nokia.

A novidade surge após uma mediática batalha legal entre o FBI e a Apple, que terminou em Março depois das autoridades federais norte-americanas terem retirado um pedido aos tribunais para obrigar a fabricante do iPhone a desbloquear um smartphone utilizado por um dos autores do atentado terrorista de San Bernardino. A Apple, recorde-se, recusou ceder o acesso ao iPhone 5c de Rizwan Farook através de uma chamada back door, apontando para os potenciais riscos de uma ferramenta capaz de violar os sistemas de segurança dos telemóveis da marca. O FBI acabaria por anunciar o desbloqueio do iPhone com o auxílio de uma entidade externa, cuja identidade permanece em segredo.

Com a privacidade digital dos utilizadores dos iPhone momentaneamente posta em causa pelo FBI, o anúncio da encriptação total do WhatsApp representa um desafio muito maior para as autoridades. O serviço de mensagens é utilizado por mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo, com especial impacto na Europa, Brasil e Ásia, enquanto a Apple comercializou cerca de 800 milhões de iPhones, desconhecendo-se quantos aparelhos estarão realmente a ser utilizados. Se for considerado uma rede social, o WhatsApp só fica atrás do Facebook em número de utilizadores.

Ainda em comparação com o serviço iMessage da Apple, o WhatsApp permite a encriptação em conversas de grupo, desde que todos os participantes tenham actualizado a aplicação para a sua versão mais recente. No caso de um ou vários participantes estarem a utilizar uma versão anterior da aplicação, o WhatsApp alertará que a conversa não se encontra encriptada, e identificará os utilizadores em falta.

Citado pela Wired, Brian Acton, co-fundador do WhatsApp, defendeu que “desenvolver produtos protegidos torna o mundo mais seguro, ainda que muitas autoridades possam discordar da ideia”.

Três anos após as revelações do antigo técnico da NSA Edward Snowden, que expôs a dimensão do acesso ilícito das secretas norte-americanas e aliadas a dados de utilizadores dos serviços dos gigantes tecnológicos, as empresas do sector enveredaram por um reforço das suas medidas de segurança. A Apple reforçou as defesas do seu sistema operativo móvel, enquanto a Google e o Snapchat têm também explorado a encriptação dos seus serviços de mensagens. Recentemente, um serviço semelhante ao WhatsApp, o Telegram, surgiu na Alemanha pela mão de um investidor russo, apresentando-se como um sistema encriptado de mensagens.

Países como os Estados Unidos e o Reino Unido, bem como a Europol, entendem que os serviços encriptados oferecem uma plataforma de comunicação segura que pode ser utilizada por grupos criminosos e terroristas, sem possibilidade de controlo das autoridades. Empresas e activistas contrapõem que a encriptação protege cidadãos e organizações face a acções criminosas e actos de perseguição política.