Marcelo del Pozo/ Reuters
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ParasitAir

A Portway poupa 7,3 milhões de euros e despede os seus trabalhadores efectivos, enquanto a Ryanair contrata-os a falsos recibos verdes para fazerem o mesmo trabalho. Dia 18 de Abril já está marcada uma greve contra estes despedimentos

Confirmando aquele que é o modus operandi da low cost irlandesa Ryanair por toda a Europa, o outsourcing de trabalho de handling dos aeroportos teve a notícia de que a Portway vai despedir pelo menos 257 trabalhadores. A Ryanair, que não chegou a acordo na renegociação do contrato com a Portway, anunciou, com direito a reportagem na televisão, a sua intenção de contratar ilegalmente uma parte destes trabalhadores, a falsos recibos verdes, por 530€.

Quando há mais de um ano atrás fiz um pequeno levantamento crítico daquela que é a operação da low cost irlandesa Ryanair por toda a Europa, houve muitos comentários em defesa da mesma. O argumentário seguia sempre a linha de que a Ryanair democratizava as viagens, cortava em custos supérfluos para baixar o custo dos bilhetes, fornecia um serviço inestimável aos seus utilizadores. Ora, perante a continuação da sua operação em território nacional, vemos que a low cost aproveitou o período de desregulamentação e privatizações selvagens para se implementar e aproveitar a dissensão com a gestão privada da TAP com o Porto para obter mais cortes em custos.

ParasitAir não descreve apenas a Ryanair, uma vez mais oportunisticamente presente como agente de promoção de destruição de postos de trabalho para de seguida contratá-los mais baratos e ilegalmente, mas também à empresa de handling Portway, que a par da Groundforce, são as privadas que recebem o outsourcing da gestão das bagagens da ANA, privatizada e entregue à francesa Vinci. O modelo privado de gestão dos aeroportos de Lisboa, Porto, Faro e outros, enquadra-se numa lógica parasitária de desarticulação dos serviços e das relações colectivas de trabalho para, com termos modernos como “handling”, “low cost” e “outsourcing”, poder reduzir as pessoas que trabalham na aviação, nas viagens, manutenção e serviços conexos a meros tarefeiros, sem estabilidade ou segurança laboral, entregues à arbitrariedade e precariedade da microgestão.

A Portway não é mais que uma subempresa da ANA, e portanto uma subempresa da Vinci, que existe apenas para os trabalhadores não terem de ser contratados pela utilizadora final e poder haver mais dificuldade em perceber-se quem é de facto o patrão, melhorando a capacidade negocial dos patrões e, já agora, criando patrões e CEOs no meio do processo, para poderem ficar com uma fatia do rendimento gerado.

Ora, dos 257 trabalhadores que a Portway quer despedir (porque não conseguiu concordar com a Ryanair uma redução ainda maior de custos), 121 são do Porto, 80 de Lisboa, 54 de Faro e os restantes da sede. Os trabalhadores começaram a ser notificados dos seus despedimentos na semana passada. A opção pela precarização foi inequívoca: a Portway vai despedir prioritariamente efectivos e manter os trabalhadores contratados a prazo e a part-time.

Mas a Portway dá o mote: “Garantir aos trabalhadores da Portway prioridade no processo de admissão a efectuar por este empresa [Ryanair através da sua subempresa Groundlink] no Porto e Lisboa.” Portanto apesar de teoricamente não ter havido acordo, neste pântano que são as empresas privadas de aviação, de gestão de aeroportos e suas subempresas de nome chique, a Ryanair consegue os seus trabalhadores através da Groundlink, que não tem autorização para fazer o handling, e oferece-lhes 530€/mês a recibos verdes – falsos recibos verdes, já que de maneira alguma esse trabalho é independente.

A Portway poupa 7,3 milhões de euros e despede os seus trabalhadores efectivos, enquanto a Ryanair contrata-os a falsos recibos verdes para fazerem o mesmo trabalho, no mesmo sítio, mudando apenas o nome do patrão, que antes era Portway (leia-se ANA ou Vinci) e agora passa a ser Groundlink (leia-se Ryanair). Dia 18 de Abril já está marcada uma greve contra estes despedimentos. Surfando entre as ondas da legislação frágil mas avançando destemidamente pela ilegalidade, a Parasitair continua em altos voos.