A garagem de Batida é o paraíso dos Konono Nº1

Uma irresistível mantra rítmica atravessa Konono Nº1 Meets Batida, o álbum gravado na garagem do luso-angolano Pedro Coquenão (Batida), o agitador de serviço durante o tempo em que a formação do Congo esteve em Lisboa.

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Há um ano o luso-angolano Pedro Coquenão, mais conhecido por Batida, abria as portas da sua garagem em Lisboa aos Konono Nº1. A conhecida formação do Congo tinha acabado uma digressão europeia exaustiva, estava na cidade para iniciar as gravações do seu terceiro álbum na companhia de Pedro, mas os membros do grupo encontravam-se totalmente esgotados.

“Não havia condições para iniciarmos os trabalhos e os dois primeiros dias serviram para descansar”, diz-nos Pedro, no estúdio-garagem onde os levou inicialmente. “Estavam rebentados, dores no corpo e frio e pensei: 'o que vou fazer? Levo-os para a minha garagem, que é o sítio onde trabalho e ali sentamo-nos, respiramos e posso partilhar objectos e música com eles'. Tinha o aquecedor no máximo, não havia grandes condições, mas eles gostaram.”

Apreciaram tanto a garagem de Pedro que, às tantas, ficou assente que iria ser ali que iria decorrer a gravação do álbum, acabando a editora do grupo, a belga Crammed Discs, por cancelar o estúdio marcado. Na visão do líder Augustin Mawangu, a garagem de Pedro era “mais confortável do que qualquer estúdio” para onde pudessem ir. O primeiro dia “foi só galhofa”, recorda Pedro. “Ouvir música, convívio, proximidade. No segundo foi quase o mesmo, mas já a montar a tralha, com o Vincent Kenis, o produtor, a ajudar, juntando microfones, cabos e instrumentos. Quase que não nos podíamos mexer aqui.”

Estímulo exterior

O desafio para o encontro partira de Marc Hollander, o fundador da Crammed Discs. Depois de ver um concerto de Batida imaginou que Pedro poderia ser bom produtor para o projecto que se deu a conhecer na Europa há uma década. “Eles sempre me fascinaram, porque eram uma banda sónica africana sofisticada, que tanto ia para o tecno como para o transe, como para coisas mais experimentais, de uma maneira terra-a-terra”. Mas havia também dúvidas. “A única coisa que disse foi: quero estar com a banda antes de decidir.”

E assim aconteceu. “Queria perceber e fui ter com eles, em dois concertos diferentes, jantámos, falámos, rimo-nos, olhámo-nos nos olhos e ao fim desses encontros percebi que seria possível. Havia coisas comuns. O Augustin tinha inclusive família em Luanda.”

Desde que a carga libertadora daquela orquestra de likembé foi descoberta na Europa, a meio dos anos 2000, através de Congotronics Vol. 1 (2004), que o grupo tem percorrido o planeta, colaborando com Bjork ou Herbie Hancock, conseguindo impor a sua linguagem junto dos mais diversos públicos e não apenas dos mais afectos às “músicas do mundo.”

O seu último álbum de originais, Assume Crash Position (2010), não lhes diminuiu a credibilidade adquirida, mas percebeu-se que a sua sonoridade vibrante corria o risco de fechar-se sobre si própria. Deve ter sido a imaginar num estímulo exterior que abalasse as fundações dos Konono que os responsáveis da editora pensaram em Pedro. Este não assume a história dessa forma, mas ouvindo o disco percebe-se que foi isso que aconteceu. Mais do que produtor, foi um agitador, alguém que introduziu nova informação, até esta ganhar novos contornos.

É por isso que Konono Nº1 Meets Batida é tão bom, acrescentando propriedades à essência de ambos os projectos. A interacção entre a pulsação electrónica e o fraseado dos likembes amplifica o sentido hipnótico da música, com um rendilhado rítmico irresistível a insinuar-se subtilmente numa relação sempre conseguida entre vozes, percussões e contribuições sintéticas.

Respeitando os alicerces da música dos Konono, percebe-se que Pedro foi encontrando formas de introduzir variações, ou elementos novos, ao mesmo tempo que a combustão rítmica de Batida se encaixou no balanceamento físico do grupo do Congo, em digressões sónicas onde há sempre um alento extra capaz de surpreender o ouvinte por entre paredes sonoras bem definidas.  

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Konono Nº1 Meets Batida acrescenta propriedades à essência de ambos os projectos

Depois de terem descansado e da garagem-estúdio ter sido montada,  “sugeri que gravássemos todos os temas novos que eles tinham e que eu já tinha ouvido ao vivo”, conta Pedro. “E ao longo de dois ou três dias, foi isso que aconteceu, gravámos tudo.” No final o grupo tinha dois concertos em Portugal – que custeavam a sua vinda – nos quais estava previsto que Batida participaria. E em grande parte foi a partir daí que os desenvolvimentos criativos se operaram. “A ideia não era impor qualquer coisa que já tivesse em mente, mas perceber onde havia espaço criativo no qual me pudesse encaixar – o que posso dar? O que está a faltar? Eram essas as interrogações. Queria estimulá-los, acrescentar coisas, como a parte rítmica electrónica, alguns sons, um sintetizador, mas sem quaisquer imposições.”

Nos intervalos discutiam música. Falavam das diferenças entre a música de Angola e do Congo, ao nível da melodia. “A de Angola descamba quase sempre para a melancolia, há sempre uma desgraça latente”, afirma Pedro. “Na do Congo, mesmo quando os temas são a morte ou a guerra, aquilo está sempre em alta e eles gozavam com esse pesar, principalmente nas notas de guitarra.”

Uma das coisas que lhe interessou perceber desde o início foi as letras. “O ritmo pode enfeitiçar-me, mas se as letras forem um vazio enorme a coisa deixa de me interessar. Mas percebi que as canções de Augustin, sendo simples, não eram inócuas. Nlele kalusimbiko, por exemplo, é ele a falar de como o casaco é uma ferramenta fundamental para a sua sobrevivência social. E às tantas, ao falar com ele sobre isso, lembrei-me que seria interessante ter o AF Diaphra a responder, em português, à base dessa história. Apresentei-os, conhecerem-se, o Diaphra foi para a casa, escreveu, voltou no dia a seguir, críamos espaço para ele entrar na música e ele fê-lo, cantando e integrando-se nela. Foi tudo familiar. Aliás com a Selma Uamusse foi o mesmo.”

E o sol surgiu

Cada canção tem uma ideia que a distingue das restantes. O seu centro tanto pode ser um motivo instrumental como vocal. No caso de Bom dia é a voz que dá o tom. “Foi um desafio”, explica Pedro, “queria que eles ficassem despojados dos instrumentos, estando disponíveis apenas para cantar. Quando lhes apresentei a Selma disse-lhes que a melhor forma de o fazer era cantarmos todos juntos e eles aceitaram sem problemas. O Vincent achou que eles iriam reagir mal, mas não. Pu-los a cantar e limitei-me a adicionar uma caixa de ritmos e assim nasceu essa canção.”

Nos últimos dias de permanência do grupo em Lisboa o sol surgiu e “aí reforcei que deveríamos regravar tudo”, ri-se Pedro, o que viria a acontecer. “Umas músicas ficaram mais rápidas, outras mais lentas, e outras em tons diferentes, mas ficaram melhores. Houve ali uma energia nova, já depois de termos dado a volta ao cabo das tormentas, trazida pelo sol e pela dança que aproveitei.”

Agora seguem-se alguns espectáculos ao vivo de apresentação do álbum. “Vamos ver como é que vamos traduzir isto para palco. Perceber como é que em termos técnicos as minhas máquinas se adequam, como é que se pode gerar um diálogo rítmico a partir de uma base electrónica, sem que seja isso que defina o espectáculo à partida. Gostava que houvesse também imagens e que o elemento dança também estivesse presente. Vamos fazer dois concertos em França e depois na Holanda. E depois logo se vê. Vamos ver como resulta e quem sabe perpetuar isto durante algum tempo, embora também tenha o meu disco na cabeça e de repente surgiram datas importantes, como o Barbican em Londres ou o Central Park em Nova Iorque. Tenho que ver: ou apostar no meu concerto a solo ou no dos Konono.“

Desde que começou a dar nas vistas, em 2009, que tem sido evidente que para Pedro a música não é apenas entretenimento. Com dois álbuns lançados (Batida, de 2012 e Dois, de 2014), e um percurso internacional cada vez mais consolidado, a música para ele é também informação, conhecimento, forma de protesto. Faz parte de uma geração luso-angolana que utiliza ferramentas artísticas para reflectir, questionar e reivindicar. Foi um dos primeiros a dar a cara pelo movimento cívico Liberdade Já! que pedia a libertação dos activistas presos, alguns deles seus amigos.

Quando falámos com ele ainda não era conhecida a condenação a prisão efectiva dos 17 activistas angolanos. Nos últimos meses tem-se discutido se o protesto não poderia ter sido dirigido de forma mais hábil, havendo vozes que sustentam que a partir de determinada altura recuar deixou de poder ser opção para o governo angolano.

“Concordo que se diga que o governo angolano ficou exposto de uma forma que depois não lhe permitiu recuar, mas estamos a falar de vidas humanas e o exemplo que temos dos últimos anos é que se tu não falares as pessoas podem desaparecer. Esperar para ver não era solução. Quem achou que devia falar fê-lo, agora, como é evidente, quando surgem os media, existem sempre aproveitamentos políticos. Mas isso é outra conversa. Não é controlável. Agora é preciso ver que o regime angolano não deu outra hipótese. Havia que alertar para o que se estava a passar.”

Neste momento, em Angola, a música, em especial o hip-hop, mas também algum kuduro, desempenha um papel importante no contexto sociopolítico, e ele sabe-o. A catarse social faz-se através da música. “São os músicos que têm feito essa terapia colectiva de verbalizarem aquilo que muita gente pensa”, afirma ele. “A música é consequente do ponto de vista social, existe comprometimento, muito mais do que os partidos que não falam, não tomam posição. Os músicos são as pessoas mais activas e que têm dado voz ao que se sente na rua.”

No fim de contas, diz ele, a sua geração gosta mesmo de Angola, e deseja que a mudança seja possível. “É por isso que temos que exigir mais. Só o somos com aqueles de quem gostamos mesmo. A raiz do que fazemos é o amor.”