Passos coloca Maria Luís na calha da sucessão

A escolha de Maria Luís Albuquerque para vice-presidente do PSD pôs os congressistas a discutir se o líder não estará a preparar o pós-2017.

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Adriano Miranda

A escolha da ex-ministra Maria Luís Albuquerque para nova vice-presidente do partido suscitou dúvidas entre os delegados presentes no 36.° congresso do PSD. Há muitos sociais-democratas que olham para este convite como uma possível preparação da sucessão de Pedro Passos Coelho, caso a sua liderança seja posta em causa numa eventual derrota das eleições autárquicas de 2017. E que lamentam a curta ligação da ministra ao partido – tornou-se militante só em 2011.

O ex-presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, é visto, por alguns dos sectores do partido, como um possível sucessor de Passos Coelho. Mas o antigo secretário-geral do PSD faltou ao congresso de Espinho, o 36.º, para não ser "o centro das atenções".

A promoção política da ex-ministra Maria Luís Albuquerque a uma das seis vice-presidências dominou as conversas entre os congressistas durante a manhã de domingo, enquanto decorriam as votações para os órgãos nacionais. Muitos congressistas ouvidos pelo PÚBLICO – entre os quais sociais-democratas com décadas de militância e apoiantes do próprio Passos à liderança – consideram que este não era o momento para “reabilitar” a ex-ministra.

Maria Luís Albuquerque tem estado sob fogo mediático desde que aceitou ser administradora não-executiva da Arrow Global, uma empresa gestora de dívida. A situação levantou dúvidas de compatibilidade pelo facto de Maria Luís Albuquerque ter sido ministra das Finanças e está a ser analisada pela subcomissão parlamentar de Ética da Assembleia da República.

Os sociais-democratas não põem em causa a legalidade do processo, mas consideram que Maria Luís Albuquerque é hoje uma figura fragilizada.

Depois de ser conhecida a composição da nova Comissão Política – o núcleo duro e de conselheiros mais próximos do líder –, Passos Coelho justificou a decisão, dizendo que Maria Luís Albuquerque “tem muito para dar ao país” e que é “um dos melhores recursos” do PSD. "É a primeira vez que Maria Luís Albuquerque integra órgãos do PSD. Foi uma aquisição muito importante para o PSD, valoriza-nos bastante, é uma pessoa de muita qualidade. Depois de ter sido ministra das Finanças, onde fez um lugar notável, creio que tem todas as condições para fazer um lugar muito bom como vice-presidente do PSD. Tenho muito essa expectativa", disse Pedro Passos Coelho.

Outras figuras de peso próximas da direcção nacional, como o agora primeiro conselheiro nacional Luís Marques Guedes, deram razão a Passos. Marques Guedes disse que esta escolha dá "um sinal de renovação, porque é a primeira vez que Maria Luís Albuquerque exerce funções nos órgãos nacionais do partido”.

O ex-ministro da Presidência defendeu ainda que "o PSD tem que contar com todas as pessoas que estejam dispostas a pôr as suas capacidades ao serviço do partido e do país”. Questionado pelos jornalistas sobre o "caso Arrow Global", Marques Guedes afirmou: “Tenho a minha convicção profunda de que Maria Luís Albuquerque é um exemplo de integridade e seriedade”. A própria deputada desvalorizou o eventual “ruído” em torno da sua nomeação.

Equipa pouco experiente

Fontes ouvidas pelo PÚBLICO elogiam a maioria de mulheres na nova Comissão Política, mas consideram que, no geral, a equipa tem fraca experiência política para o combate das autárquicas que se avizinha. Esse objectivo pode justificar a escolha para vogal da Comissão Política de João Moura, presidente da Câmara de Cantanhede, a quem se junta outro autarca – José António Jesus. 

Na verdade, desde 2010, altura em que Passos Coelho foi eleito líder do PSD pela primeira vez, esta foi a Comissão Política que menos agradou aos delegados, apesar de ter obtido 79,8% dos votos (594 em 744). De todas as suas equipas sufragadas em congresso, esta foi a menos votada: em 2010, obteve 87,5% dos votos, em 2012 88% e em 2014 85%.

Curiosamente, Pedro Passos Coelho conseguiu eleger 33 dos 70 lugares em disputa no Conselho Nacional do partido, um resultado que ultrapassa, em muito, os 18 lugares obtidos no anterior congresso do partido, em 2014. Luís Marques Guedes encabeçou a lista oficial deste ano e Miguel Relvas liderou a de 2014.

O bom resultado da lista oficial – e pouco habitual em congressos do PSD – demonstra um aparente unanimismo, já que integra vários elementos de estruturas do partido, como os líderes da JSD, dos ASD e dos TSD, que tradicionalmente apresentam listas próprias e que abdicaram de o fazer. Contudo, no sábado, acabaram por surgir outras canditaturas, protagonizadas, sobretudo, por ex-membros da JSD.

Um deles, Sérgio Figueiredo, avançou como número dois da lista de Carlos Eduardo Reis (ex-líder da distrital da JSD de Braga), apesar de ser vice-presidente da bancada do PSD na Assembleia da República. Todas as candidaturas que foram a eleição (incluindo a de Carlos Eduardo Reis, Luís Rodrigues e Luís Gomes) conseguiram eleger elementos. A segunda mais votada é liderada por João Moura (B) e contribuirá com nove pessoas para o Conselho Nacional.

Para os órgãos do partido votaram, em média, 740 delegados.