Durante uma noite, a Casa da Música é um gulag soviético

Músicos, veteranos de guerra, estudantes e jovens desempregados recriam amanhã à noite os campos de trabalhos forçados da Sibéria, na Sala Suggia da Casa da Música, a propósito do ano dedicado à Russia

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Ensaio na Casa da Música Martin Henrik/Público
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As histórias dos gulags, campos de trabalhos forçados soviéticos, são arrepiantes. Eram histórias de frio, de fome, de tortura. É isso que, em ano dedicado à Rússia, na Casa da Música, a peça Gulag quer transportar para o palco da Sala Suggia. E mesmo que o ambiente entre os 70 actores esteja tão longe dessa penúria como Portugal está de Kolyma, na Sibéria,  os veteranos de guerra, estudantes de música e jovens desempregados convidados para este trabalho esforçado conseguiram “a representação mais fiel de um gulag”, defende o director musical deste espectáculo, Jorge Prendas.

A prova dos nove é já esta segunda-feira à noite, numa sessão sem repetição prevista. E num dos últimos ensaios, a que o PÚBLICO assistiu, o ambiente na sala era caloroso e democrático, antítese desse lugar, e desse tempo, que se procura recriar – há gargalhadas, um veterano arregaça as calças e mostra a prótese que tem no lugar da perna, fruto de uma outra guerra. “Já viste perna mais bonita?”, pergunta a uma jovem. Um intervalo, antes da concentração no trabalho.

Volvido quase um século da revolução que destronou os czares russos, a Casa da Música dedicou este ano à cultura deste país, mas não esqueceu este lado negro da então União Soviética. O director artístico deste espectáculo, o londrino Tim Weeland, escreveu esta peça propositadamente para o Serviço Educativo da Casa da Música e para este grupo de em concreto, depois de recolher histórias sobre os gulags, pelo contacto directo com sobreviventes, mas também através da literatura. Com destaque para a obra de Alexander Soljenítsin, nobel da Literatura em 1970 e um dos grandes responsáveis pela denúncia dos horrores que se viveram nesses campos. São “histórias de sobrevivência e morte”, refere Weeland.

Com esta produção ao abrigo do programa Ao Alcance de Todos, a Casa da Música propõe-se a incluir na criação cultural alguns grupos dela habitualmente afastados. Desta vez convidaram a Associação de Deficientes das Forças Armadas (ADFA) e os utentes da Santa Casa da Misericórdia da Maia, para trabalharem lado a lado com os finalistas do Balleteatro e com os estudantes da Escola Profissional de Música de Espinho (EPME).  “À chegada vêm sempre em grupos, com alguma desconfiança, mas depois começa a surgir a curiosidade. E acabam a partilhar muita coisa”, explica António Miguel, da equipa Factor E!, que em “Gulag” representa Leon Theremin.

Por vezes torna-se “difícil trabalhar com tanta gente em placo”. Não pela heterogeneidade do grupo, mas pela escala, admite o actor. Já os veteranos da Associação dos Deficientes das Forças Armadas não sentem isso. Joaquim Baptista, da ADFA, explica que para ele e os seus camaradas não é complicado trabalhar com tanta gente. “Não somos profissionais da guerra, mas ficamos com as nossas deficiências durante a guerra colonial. Mas passado este tempo todo de termos estado na guerra ainda mantemos alguns valores militares, um dos quais é a disciplina. E isso também se faz sentir aqui no grupo. O nosso espírito de disciplina e trabalho de grupo também acaba por ser um valor transmitido aos jovens.”

O vento que uiva como lobos

Kolyma, alegadamente, o sítio habitado mais frio do mundo, foi uma zona de campos de trabalhos forçados no extremo Nordeste da Rússia, onde estavam os gulags mais conhecidos deste sombrio período da história daquele país, juntando prisioneiros políticos ou criminosos comuns – todos transformados em trabalhadores indiferenciados, frequentemente enviados para estes campos para morrer.

A criação artística de Gulag incluiu toda a gente. “É um processo verdadeiramente democrático”, frisa Tim Weeland. “Toda a gente que quisesse tinha um solo. Todos fazem parte do mesmo processo”. Considerando que há cerca de 70 actores em palco, entre adolescentes, jovens adultos, e veteranos de guerra, seria expectável que fosse caótico dirigir tanta gente. Mas Weeland considera que “os grupos têm as suas identidades próprias, com jovens com muita energia e idosos com muita experiência de vida”, e isto permite criar um equilíbrio muito próprio.

Para conseguirem recriar o ambiente inóspito dos campos soviéticos, utilizaram, sob a direcção de Jorge Prendas, “melodias tradicionais soviéticas, cantadas nos gulag”, que foram adaptadas, e um poema do russo Alexandre Pushkin sobre a dureza da zona de Kolyma, ainda antes dos gulags lá serem instalados. Um poema sobre o frio, sobre “o vento que uiva como lobos”, e cuja música foi criada por todos os actores. “Isto permite incluir as pessoas, para que sintam que é um espectáculo delas, e não só um espectáculo em que pura e simplesmente elas participam”, explica o director musical.

“Segurai nele, com carinho”

Os veteranos da Associação defendem três grandes valores, como explicou Abel Fortuna, presidente da Distrital do Porto da ADFA: “a liberdade, a inclusão e a disciplina”. A ADFA surgiu depois do 25 de Abril, com alguns militares que integraram o Movimento das Forças Armadas, e desde a sua fundação que luta pela manutenção dos valores da revolução, e pela inclusão na sociedade das pessoas com deficiência. “Com a nossa participação conseguimos mostrar que somos pessoas activas, participativas, que nos interessamos pelas questões culturais, e que isto é parte do nosso processo de reabilitação e de inclusão na sociedade”, explica.

“Esta ligação permite mostrar aos jovens que as pessoas com deficiência são pessoas válidas e cidadãos de corpo inteiro. Ao verem alguém que não tem mãos ou tem uma deficiência visual muito profunda, muitas vezes ficam constrangidos. Mas numa segunda fase já aceitam, e agora encaram a deficiência com naturalidade”. Diogo Soares, um dos jovens estudantes da EPME, com 19 anos, revê-se nas palavras de Abel Fortuna. “Os veteranos são muito divertidos. Adoram fazer piadas, e não têm problemas em fazê-las com as próprias deficiências deles. Isso também se vai reflectir no espectáculo”.

Há dois anos, na primeira colaboração que a ADFA teve com a Casa da Música, os veteranos foram a palco contar as suas histórias. Os horrores que eles próprios viveram durante a guerra colonial. “Pudemos falar de coisas que nunca contámos a ninguém”, relembra Abel Fortuna. “Nem mesmo aos nossos familiares”. Desta feita, não são as suas histórias que contam, mas as de russos, cidadãos longínquos. “Chega a ser terapêutico”.

 Texto editado por Abel Coentrão