Passos domina congresso e recebe apoio surpresa de Santana

Apenas José Eduardo Martins subiu ao palco de Espinho para criticar as opções de governação do líder do PSD.

Foto
A cereja no bolo da festa da reeleição de Passos foi posta por Santana Adriano Miranda

Passos Coelho dominou o 36.º Congresso do PSD e apenas saiu beliscado por José Eduardo Martins, o único que foi consequente nas críticas que tinha dirigido ao líder. Passos teve mesmo a surpresa de receber o apoio suplementar de um ex-líder, Santana Lopes que, com o brilhantismo discursivo que o caracteriza, levantou a sala por duas vezes, a primeira das quais numa ovação a Cavaco Silva.

Os trabalhos resumiam-se a uma sucessão morna de intervenções de delegados, quando Martins, usando um tom soft, não deixou de ser directo e claro. “O passado orgulha-nos, mas não mobiliza ninguém”, afirmou, questionando depois a estratégia adoptada por Passos perante a votação do Orçamento do Estado para 2016. E apontou alguns dos “muitos erros” que considera que foram cometidos pelo Governo PSD-CDS, nomeadamente a acusação de que “escasseou a sensibilidade social”, pelo que os sociais-democratas não podem ser “muito arrogantes”. E criticou a política de cortes de pensões e de reformas, salientando a necessária “solidariedade com os mais velhos”, para afirmar que “o PSD está paulatinamente a perder” a sua relação com os pensionistas, disparando: “Como se atrás de cada corte não estivesse uma pessoa pessoa frágil”. Também a atitude de Passos Coelho perante a Comissão Europeia foi questionada: “Não tenho a certeza de que os interesses da Alemanha sejam os mesmos do sul da Europa.”

Logo a seguir, falou o eurodeputado Paulo Rangel, que não manteve o tom critico demonstrado em vésperas de congresso. Optou por uma atitude colaborante e avançou com uma bandeira para o PSD tomar como sua, a da mobilidade social, pois está na hora de Portugal deixar de ser “o país dos doutores” e “virar a página na estratificação social e na estrutura elitista e aristocrática da sociedade portuguesa”.

Comportamento idêntico teve, pouco depois, Pedro Duarte. O antigo deputado e ex-líder da JSD tinha tecido críticas antes do congresso, mas a expectativa de que as repetisse em Espinho ficaram goradas. Optou por apontar ao futuro e defendeu que o PSD tem de preparar um programa de governo alternativo. Avançando também ele com três ideias para o partido agarrar: uma “profunda revisão do sistema de ensino” já que o que existe “foi pensado no século XIX”; a aposta na inovação e na investigação que traga a competitividade das empresas; e a procura da eficiência do Estado, através de “uma proposta reformista para a descentralização do país”. A apresentação de ideias para serem defendidas pelo PSD no futuro foi também protagonizada pelo líder parlamentar, Luís Montenegro, que defendeu um pacto fiscal para diminuir o peso dos impostos.

A defesa de Aguiar

Curiosamente, a defesa de Passos foi feita a meio da tarde pelo antigo ministro da Defesa, José Pedro Aguiar Branco, que em 2010 se candidatou contra o actual líder. E, contra-atacando, lançou os nomes de José Eduardo Martins como candidato do PSD à Câmara de Lisboa e o de Pedro Duarte como candidato à Câmara do Porto.

“No PSD quem quer ser barão vai a votos. Aliás, só é barão quem vai a votos”, começou por afirmar para acrescentar: “Não passa de praça a general sem antes mostrar o seu valor.” Garantiu que não sabe se um dia não se canditará de novo, depois de ter interpelado os críticos de Passos: “Como nos casamentos ou vão a votos ou calem-se para sempre.”

Dando como exemplo da importância das autárquicas o facto de há 20 anos Passos Coelho ter sido candidato à Câmara da Amadora, quando era líder do PSD o actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Aguiar Branco sublinhou que dos cinco vice-presidentes da direcção cessante, apenas Carlos Carreiras, em Cascais, e Pedro Pinto, em Sintra, deram a cara pelo partido.

Aguiar Branco fez questão de referir que se candidatou já em anteriores autárquicas e deixou no ar uma lista de nomes de figuras do PSD que considera estarem em condições de serem candidatos nas eleições Outubro de 2017: “Nuno Morais Sarmento, Maria Luís Albuquerque, Luís Montenegro, Teresa Leal Coelho, Matos Correia, Paula Teixeira da Cruz são pessoas que preenchem um espaço público que podem e devem ser candidatos.”

A incógnita Santana

A cereja no bolo da festa da reeleição de Passos foi posta por Santana Lopes. O antigo líder surpreendeu o congresso do PSD ao afirmar que o partido deve ter calma em relação às eleições autárquicas de 2017 e deixou no ar a eventualidade de poder vir a aceitar um novo desafio nesse âmbito. Começando por dizer que se apercebeu à chegada ao congresso, em Espinho, que o partido já “está com o fito nas autárquicas”, Santana afirmou: “Sobre isso quero dizer ao partido, keep cool, tenham calma,” tudo tem o seu tempo”.

Santana elogiou a “maneira fria, responsável e determinada” do líder do partido, perfil que considerou importante para Portugal vencer alguns dos obstáculos nos últimos quatro anos, destacando o mediático “caso do irrevogável” em que recusou aceitar a demissão do então ministro Paulo Portas, em nome da estabilidade do país. “Pedro Passos Coelho “cometeu a extraordinária proeza de vencer as eleições depois de quatro anos de austeridade” e insurgiu-se contra aqueles que criticam o líder de estar sozinho, quando ele ganhou as legislativas e as directas. Implicitamente, Santana Lopes criticou os que, no partido, pretendem destituir Passos, reproduzindo a estratégia da coligação de esquerda que deitou abaixo o Governo no Parlamento.

No final da sua intervenção, Santana ensaiou uma comparação entre Sá Carneiro e o actual líder do partido, mas acabou a dizer que “Pedro Passos Coelho tem de trabalhar muito para chegar a esse ponto”.