A ilha de Marlon Brando tornou-se um laboratório contra o Zika

Cientistas lançaram mosquitos modificados num atol da Polinésia Francesa para tornar inférteis as fêmeas do mosquito que transmite o vírus.

Mosquito <i>Aedes aegypti</i> que transmite o vírus Zika
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Mosquito Aedes aegypti que transmite o vírus Zika Paulo Whitaker/Reuters

A ilha da Polinésia Francesa de águas turquesa e areia branca, comprada por Marlon Brando (1924-2004) na década de 1960, está no coração de uma experiência prometedora contra o vírus Zika, numa altura em que cientistas de todo o mundo lutam para erradicar esta epidemia.  

O biólogo francês Hervé Bossin, chefe do serviço de entomologia do Instituto Louis Malardé em Papeete, cidade da ilha do Taiti e capital da Polinésia Francesa (com 118 ilhas e cerca de 285.000 habitantes), lançou desde Setembro de 2015 na ilha de Tetiaroa mais de um milhão de insectos machos modificados para serem portadores de uma bactéria, a Wolbachia.   

Quando estes insectos se reproduzem com as fêmeas dos mosquitos-tigre (Aedes aegypti), que transmitem o vírus Zika e que grassam em Tetiaroa, “o desenvolvimento embrionário é bloqueado e as fêmeas tornam-se estéreis”, explicou o investigador à agência AFP. “Os seus ovos novos não podem eclodir mais.”

A Organização Mundial da Saúde (OMS) avaliou a epidemia do vírus Zika como uma urgência mundial depois de o vírus se fazer sentir, desde Outubro último, no Brasil, o país mais tocado pelo problema com cerca de um milhão de pessoas infectadas. A crise estendeu-se a mais uma vintena de outros países da América do Sul.  

O tipo de experiência em Tetiaroa, feita com insectos modificados, foi já testada em muitas partes do mundo durante muitos anos, isto porque o mosquito-tigre é também o vector de outros vírus que causam doenças como a febre de dengue.

Em paralelo, 18 laboratórios estão a tentar produzir uma vacina contra o Zika. A OMS avisou há umas semanas de que o primeiro antivírus só deverá estar pronto daqui a mais de três meses e antecipa que haja quatro milhões de pessoas contaminadas só neste ano.

O estudo feito na Polinésia Francesa, com um financiamento de 300.000 dólares (263.000 euros) vindos do Governo francês, do Governo polinésio e de outras entidades privadas, é particularmente bem-vindo porque poderá alcançar a “eliminação interna” do mosquito na ilha.   

“Obtivemos uma redução para um vigésimo (de mosquitos fêmeas) comparando com registos passados das estações da chuva”, que vão de Novembro a Março, sublinha Hervé Bossin.    

“Continuando a libertar [mosquitos modificados], a população da ilha vai continuar a colapsar, deveremos conseguir eliminar todos os mosquitos porque esta população está particularmente isolada no atol de Tetiaroa” e não poderá renovar-se, acrescentou o cientista.   

Alguns críticos estão alarmados pela falta de informação sobre o impacto da erradicação dos mosquitos, ou da libertação na natureza de insectos modificados no laboratório.

Fim dos insecticidas

A Polinésia Francesa sofreu uma epidemia do Zika entre Outubro de 2013 e Março de 2014, que atingiu entre 60 e 70% da sua população. Ela foi combatida com campanhas de sensibilização, com a aplicação de insecticidas e com a eliminação das águas estagnadas, o principal local de reprodução dos mosquitos.

Um ano antes desta crise, Hervé Bossin já tinha observado que o atol de Tetiaroa reunia as condições “ideais” para se fazer um estudo-piloto: “Permite-nos ter um ambiente bem identificado, onde podemos controlar uma população de mosquitos isolados.”

O actor norte-americano Marlon Brando apaixonou-se por esta ilha em 1962 durante a rodagem do filme “Revolta na Bounty”, e fez dela o seu refúgio longe do frenesim de Hollywood até perto da sua morte, em 2004. No seu testamento, ele estipulou que a ilha de Tetiaroa deveria contribuir para a preservação do ambiente e os estudos da biodiversidade.

“Tetiaroa assemelha-se a uma pequena aldeia. Não há mais do que entre 150 e 200 pessoas que trabalham (num hotel). Permite-nos verificar a eficácia (do estudo) antes de atacarmos sistemas mais complexos”, explicou o cientista. A diminuição de mosquitos fêmea é tanta que “ninguém usa mais os insecticidas” na ilha para se proteger, diz o biólogo, como prova do sucesso da experiência.

Se estes resultados positivos se confirmarem em Julho – o fim estipulado para o estudo – Hervé Bossin vai transferir a sua tecnologia para as ilhas maiores como o Taiti, Moorea e Bora Bora, mais frequentadas pelos turistas, para que ela possa ser aplicada noutras zonas tocadas pelo vírus.

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